Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Nascer para ser rico

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
78. Nascer para ser rico



78. NASCER PARA SER RICO

Havia um sapateiro que trabalhava noite e dia, mas nunca passava da cêpa torta; um visinho muito rico ouvia-o cantar sempre esta cantiga:

Sou um pobre sapateiro,
Que estou sempre a dar, a dar,
Quem nasceu para ser pobre
Que lhe serve o trabalhar?

Ao som d'esta cantiga batia sola; o visinho lembrou-se de lhe fazer uma surpreza, e mandou-lhe uma grande rôsca cheia de dinheiro por dentro, que era para elle comer com sua mulher e filhos, e quando a partisse já não ter que se queixar da sorte. O sapateiro assim que recebeu a rôsca deu muitos agradecimentos ao visinho, mas como tinha tido uma doença em casa lembrou-se de ir levar de presente a rôsca ao medico a quem estava em divida. A mulher ficou muito contente com a lembrança e foi ella mesmo leval-a a casa do medico. Passados dias passou o visinho rico pela porta do sapateiro, e ouviu-lhe a mesma cantiga, e perguntou-lhe:

— Oh homem! pois você não comeu a rôsca com a sua familia?

O sapateiro contou o motivo porque se tinha visto obrigado a leval-a de presente ao medico. O rico foi-se embora, e passados dias mandou-lhe uns tóros de pinheiro, tambem cheios de dinheiro por dentro, dizendo que era para fazer o seu lume. Ora o sapateiro era visinho de um padeiro, de quem comia fiado, e para lhe ser agradecido levou-lhe os tóros de presente para queimar no forno. De outra vez passou o visinho rico pela porta do sapateiro e perguntou-lhe se já tinha rachado a lenha que lhe mandára; o homemsinho contou como se vira obrigado a levar os tóros de presente ao seu visinho padeiro, que lhe dava pão fiado. Vae o rico e disse-lhe:

— Você parece que tem razão em se queixar de que nasceu para ser pobre, porque a rôsca de pão e os tóros de pinheiro vinham por dentro recheadinhos de dinheiro. Agora ainda que lhe queira fazer bem já não posso, nem trago nada commigo. O mais que lhe posso dar é esse pedaço de chumbo que achei ali no caminho.

O sapateiro pegou no bocadinho de chumbo, e como de nada lhe servia deitou-o ali para um canto, e continuou a trabalhar ao som da mesma cantiga. De noite quando estava na cama, sentiu bater á porta: truz, truz! Fallaram:

— Oh senhora visinha!

A mulher do sapateiro levantou-se e foi ao postigo; era a mulher de um pescador que morava paredes meias e disse:

— O meu homem vae agora para o mar, para deitar as rêdes; é uma occasião boa, mas falta-lhe chumbo para ellas. Não terá por ahi qualquer bocadinho que me dê?

O sapateiro lembrou-se do chumbo que lhe tinha dado o homem rico e disse á mulher onde estava, e que o levasse á do pescador. Lá o que se passou não sei, mas o pescador tirou uma rêde cheia de peixe, e a mulher veiu a casa do sapateiro trazer-lhe em paga uma boa garoupa para amanharem para o jantar. Quando a mulher do sapateiro a estava arranjando, abriu-lhe as ventrexas e achou-lhe dentro uma pedra a modo de um vidro esquinado e deu aos pequenos para brincarem, sem fazer a isso mais reparo. Os pequenos brincaram com a pedra, e deixaram-na para ahi quando se foram deitar. De noite estava o sapateiro na cama, e depois que apagou a candeia viu luzir uma cousa como que se fosse os olhos de gato.

— Homem, essa! parece-me que vejo luzir ali uma cousa.

A mulher reparou, e viu o mesmo; levantou-se o sapateiro e foi vêr o que seria; deu com urna pedra muito polida, e foi então que a mulher se lembrou que a tinha encontrado na ventrexa da garoupa. O sapateiro quando amanheceu foi mostral-a a casa de um ourives, que lhe disse que aquillo era uma pedra preciosa e que valia tanto que nem elle mesmo tinha dinheiro para a comprar; mas que se elle quizesse iria mostral-a ao rei, que só elle é que podia ter joias de tanto valor. Assim fez, e o sapateiro veiu a receber muito dinheiro pela pedra; mudou de vida, comprou casas e quintas, e quando já se tratava como um senhor, passou-lhe pela porta o antigo visinho rico que tinha estado muito tempo fóra da terra, e ficou pasmado de o vêr tão accrescentado. Elle dizia lá comsigo:

— O velhaco do sapateiro enganou-me; guardou o dinheiro que lhe mandei dentro da rôsca e dos tóros de pinheiro, e só depois da cousa esquecida é que se sahiu com elle.

Mas o sapateiro era homem liso, e contou-lhe como a fortuna lhe viera pelo bocadinho de chumbo que lhe deu, agradeceu-lhe muito, e concluiu que apesar das suas queixas elle tinha nascido para ser rico, pois déra por duas vezes ponta-pés na fortuna.

(Porto.)




Notas[editar]

78. Nascer para ser rico. — Nos Contos proveitosos, de Trancoso, Parte I, n.º XIII, O real bem ganhado versa sobre esta peripecia da pedra preciosa.