Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O Palmeiriz d'Oliva

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
60. O Palmeiriz d'Oliva



60. O PALMEIRIZ D'OLIVA

Um lavrador e a sua mulher tinham um grande desgosto por lhe morrer o unico filho; quando o lavrador ia caminho da cidade, passando ao pé de uma palmeira que estava perto de uma oliveira, viu um caixote com uma chave pendurada; abriu e encontrou dentro um menino muito aceiado, com uma bolsa de dinheiro, e duas cartas uma sem sobrescripto, e outra que dizia: Para quem achar este menino. O lavrador leu a carta e soube que era para tomar conta da criança e dal-o a criar á sua mulher, e que quando elle fosse homem, lhe dessem a outra carta para elle só abrir em occasião que se visse em grande afflicção. O lavrador e a mulher ficaram muito contentes por aquelle achado, e pozeram ao menino o nome de Palmeiriz de Oliva, por ter sido trazido do pé da palmeira da estrada ao pé da oliveira. Ao fim de um anno vieram tres cavalleiros á porta do lavrador, já fóra de horas, e entregaram-lhe uma trouxa:

— Tome conta d'essa menina, que já vem baptisada; chama-se Rosa. E ahi lhe fica bastante dinheiro para a sua criação. — E partiram á pressa.

As duas crianças foram crescendo, e tinham muito amor um ao outro e julgavam que eram filhos dos lavradores. Um bello dia parou uma carruagem á porta do lavrador; eram os cavalleiros que vinham buscar a menina que já estava grande. O lavrador sentiu aquella separação, e Palmeiriz chorou a mais não poder. Rosa ainda lhe pôde dizer que nunca o esqueceria, e já que agora sabia que não era irmã d'elle, que não casaria com mais ninguem a não ser com Palmeiriz.

O pobre rapaz andava triste e queria ir pelo mundo procurar aquella que tantos annos julgara sua irmã; o lavrador deu-lhe dinheiro, mais a carta, e elle foi á ventura, e passou muitos trabalhos até que chegou ao palacio do rei, que gostou tanto d'elle que o tomou para seu criado, e não sahia da sua companhia. Palmeiriz andava sempre triste por não ter sabido mais de Rosa.

O rei resolveu a casar-se e mandou vir retratos de muitas princezas; escolheu um, e avisou para a côrte d'onde essa princeza era. Quando mostrou o retrato a Palmeiriz, elle conheceu logo Rosa e desmaiou; o rei fel-o voltar a si, e então elle contou como o retrato se parecia com uma irmã de criação que nunca mais tinha visto, e que elle muito amava. O rei mandou pedir a princeza, mas o pae escreveu-lhe, que ella não queria casar com ninguem e só se o rei fosse á sua côrte pessoalmente, ou se lhe mandasse tambem o seu retrato.

O rei não pôde ir, mas mandou o seu retrato por Palmeiriz d'Oliva. Chegado á côrte o pae de Rosa chamou-a para vir receber a mensagem e o retrato; mas a princeza assim que viu o seu irmão de criação deu um grande grito, e botou-se ao pescoço do pae, dizendo:

— Meu pae, este é que Deus destinou para meu marido. E contou tudo ao pae, como tinha vivido com Palmeiriz até o dia em que a foram buscar. O rei escreveu então uma carta ao seu amigo, contando-lhe o caso, e como Rosa só queria casar com Palmeiriz.

— Eu podia mandar-te matar, disse o amo de Palmeiriz, mas como sempre tive por ti muita estima é que o não faço. Quero ter comtigo um duello, sem que ninguem o saiba, mas em que um de nós hade morrer.

Palmeiriz oppôz-se áquella prova, porque não podia levantar mão para o seu bemfeitor, e quando estava no seu quarto muito afflicto, encontrou a carta destinada a ser aberta quando se visse em alguma grande afflicção. Abriu a carta, e por ella soube que estava em casa de seu proprio pae; correu a contar ao rei tudo, e este abraçou-o, dizendo que elle mesmo é que tinha escripto aquella carta para o tornar a achar, quando como seu filho natural o deu a criar em segredo, para o salvar do odio da rainha, que não tinha filhos. O proprio rei partiu com Palmeiriz para a côrte do pae de Rosa e lá se fez o casamento, que ia sendo causa de tanta desgraça e que se tornou de tanta felicidade.

(Algarve.)