Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O camareiro do rei

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
59. O camareiro do rei



59. O CAMAREIRO DO REI

Era uma vez um rei que era muito amigo dos seus camaristas, e prometteu a cada um um dote para se casarem. Um d’elles quiz ir viajar para escolher mulher que fosse linda, esperta e honrada. Chegou a uma grande quinta, e logo nos primeiros degráos que davam para a casa encontrou uma menina linda a mais não ser. Pediu pousada, e veiu um velho lavrador que o recebeu com boas maneiras e foi-lhe mostrar a casa:

— Que tal lhe parece?

— Acho-a excellente; mas só o frontispicio é que está muito baixo.

Foi o velho lavrador mostrar-lhe os seus campos e sementeiras:

— Então que tal as acha?

— Muito boas, se não estiverem já comidas.

O lavrador nada percebia do que ouvia; porque a fachada da casa era alta, e tinha ainda as tulhas cheias de grão. Á noite appareceu á mesa uma magnifica gallinha, que a filha do lavrador trinchou, dando a cabeça ao pae, as azas á mãe, os pés para o hospede, e ficou com o peito para si. O lavrador não quiz perguntar á filha por que é que fazia aquillo; mas de noite, no seu quarto, contou á mulher a conversa com o camareiro, e notou como a filha tinha trinchado a gallinha.

A filha que ouviu tudo do seu quarto, disse de lá:

— Eu sei o que queria dizer o nosso hospede; o frontispicio da casa que era muito baixo, dizia-o por mim, porque me encontrou no patamar da escada; a ceára já comida referia-se ao caso de meu pae ter dividas, por que o que colhesse era tudo para as pagar.

— Muito bem, disse o pae; e agora me dirás, porque me deste á ceia a cabeça da gallinha para mim, as azas a tua mãe, e os pés ao nosso hospede?

— Dei a meu pae a cabeça, porque a si lhe compete o governo da casa; a minha mãe as azas, para agasalhar a familia; ao hospede as pernas, porque elle anda em viagem; para mim o peito, para ser forte contra as desgraças que por amor d'elle me vierem.

O camarista ouviu tudo, e já gostava da menina por que era formosa, e ainda ficou mais encantado com a sua esperteza. No outro dia resolveu pedil-a ao pae, que lhe deu o consentimento. Veiu com ella viver para a côrte, mas não quiz apresentar a mulher ao rei. O rei andava desconfiado que não seria bonita, e jurou de a vêr, désse por onde désse. Rondava-lhe a rua, mas as janellas estavam sempre com as cortinas corridas; por fim sempre comprou uma criada, que o deixou entrar no quarto da senhora quando ella estava dormindo e tinha o marido fóra da terra. O rei jurou-lhe que não lhe poria mão, e que era só para vêl-a. Entrou no quarto de dormir pé ante pé, e viu uma bella camilha com cortinas de damasco verde, cerradas; abriu-as, e viu a cara mais linda do mundo. N'isto vem a criada de repente dizer para que fugisse, porque chegava o amo. O rei com a pressa deixou cair uma luva. O camareiro veiu para o seu quarto e a primeira cousa que viu foi a luva; ficou desconfiado, e nunca mais tratou bem a mulher. Era um inferno em casa. A criada com remorsos de ter feito aquillo áquelles bem casados, foi contal-o ao rei. O rei lembrou-se de que tinha perdido a luva, e mandou chamar o camareiro, e disse-lhe: — Tendes-me feito uma grande desfeita em nunca me terdes apresentado a vossa mulher para a conhecer.

— Senhor, é que ella é muito doente.

— Pois sim, ámanhã vou jantar á vossa casa.

No dia seguinte foi. A mulher do camareiro foi a ultima a sentar-se á mesa, e assim que se sentou, como havia mais de um anno que não comia com o marido, desatou a chorar. O rei perguntou-lhe porque é que ella chorava tanto. Ella respondeu:

Eu era amada do coração,
Hoje não o sou, nem sei porque não.

Respondeu o camareiro:

Quando eu na minha vinha entrei,
Rasto de ladrão achei.

Respondeu o rei:

Eu fui o tal ladrão
Que na tua vinha entrei;
Verdes parras arredei;
Lindos cachos de uvas vi;
Mas juro-te á fe de Rei
Que eu nas uvas nem buli.

O rei explicou como as verdes parras eram os cortinados de damasco, como vira os braços descobertos, e como se fôra embora tendo-lhe caído uma luva com a pressa. O camareiro ficou muito contente, percebeu os perigos da grande curiosidade, e nunca mais fechou a mulher, que na côrte era conhecida por todos como a mais linda, esperta e honrada.

(Algarve.)




Notas[editar]

59. O camareiro do rei. — Este conto tem uma referencia historica, sendo os personagens Frederico II e Pedro de Vigues. Esta anedocta teve larga vulgarisação, porque acha-se não só nas Dames galantes de Brantome, como no Livro de Sendabar, no Mischlé sendabar, no Syntipas grego, e nos Sete Vizirs, com o titulo Rasto de Leão. Nas tradições populares italianas tambem está vigorosa, e acha-se nos Contos de Pomigliano de Vittorio Imbriani. Por esta versão, em que ha alguns estribilhos poeticos, se vê o sentido das referencias á vinha, da versão do Algarve. Tambem se repete na Sicilia e em Veneza. (Vid. Rev. des Deux Mondes, Nov. 1877, p. 144.) Eis a adivinha do conto italiano:

Diz o rei:

Una vigna no piantà.
Per travers é intrà
Chi la vigna ni ha goastà.
Han fait gran peccà
Di far ains che tant mal.

Diz a esposa:

Vigna sum, vigna sarai,
La mia vigna non fali mal.

Responde Pedro:

Se cossi è como è narrà
Plu amo la vigna che fis mai.

No conto veneziano vem as seguintes estrophes, que condizem com o dialogo rimado de Pedro de Vignes:

A esposa:

Vinha era, e vinha sou,
Fui amada, e já o não sou.
E não sei porque rasão
A vinha perdeu a estimação.

O camareiro:

Vinha eras, vinha serás,
Amada eras, e já o não serás.
Pela pata do leão
A vinha perdeu a estimacão.

O rei, comprehendendo e explicando tudo:

N'aquella vinha eu entrei
Em pampano algum toquei,
Pelo sceptro que tenho aqui
Nenhum fructo lá comi.