Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O barbeiro do rei

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Gonçalo Fernandes Trancoso
168. O barbeiro do rei



168. O BARBEIRO DO REI

Um rei havia ficado por fallecimento de sua mulher com uma filha, a qual era herdeira e successora do reino. Este, para tirar de si paixão e malenconia, que lhe sobrevinha por causa de sua tristeza, se sahia muitas vezes por tempo de verão a um pateo que tinha, muito fresco, ornado de muitas flores cheirosas, que ali mandara crear por seu refrigerio. Estando n'este pateo que digo, vinha por algumas vezes com elle por seu mandado o seu barbeiro para lhe fazer a barba, e como os barbeiros tem por seu natural serem praticas e chocarreiros, Elrey o mandava chamar, mais por gostar de sua boa conversação, que por necessidade que tinha do seu officio. Estando um dia com elrey fazendo-lhe a barba como costumava, veiu elrey a gostar tanto de sua boa conversação, que lhe disse, que lhe pedisse mercês, que o barbeiro despresou sua promessa, dando-lhe a entender que não havia mister nada. Mas vindo outras vezes ao proprio officio como costumava, lhe veiu elrey a cobrar tanta affeição, que lhe importunava, que lhe pedisse mercês, que, por grandes que fossem lh'as não negaria. Elle, tomando ousadia e atrevimento as promessas que elrey lhe fazia, lhe disse:

— Saberá vossa alteza, que não ha ahi na vida cousa que hoje acceite que me possa fazer contente e que meu desejo satisfaça, senão é uma, a qual é, dar-me em casamento a princeza sua filha.

Elrey sobresaltado de tão estranha novidade dissimulou com elle, interrompendo a pratica n'outra materia, cuidando que aquillo era dito a modo de graça, por dar passatempo a elrey com suas chocarrices e zombarias: mas elle era tão em seu inteiro juizo, que vindo outra vez barbear a elrey, e tornando-lhe a pedir elrey, que lhe pedisse mercê, tornou a repetir sua primeira petição dizendo: «Que não tomaria outra cousa senão a Princeza sua filha por mulher.» Elrey parecendo-lhe isto já mais que zombaria, determinou de o despedir com brevidade, e ido, mandou chamar um homem letrado, de grande entendimento em diversas sciencias, e, dando-lhe conta como desejando por muitas vezes de fazer algumas mercês áquelle homem, sempre lhe saira com desatinos tamanhos, a que não podia nem sabia dar entendimento.

O letrado esteve um pouco cuidando comsigo em seu entendimento, e disse a elrey:

— Senhor, faça-me vossa alteza mercê de se pôr em outro logar, fóra d'esta casa a barbear com esse barbeiro, e de lhe tornar a repetir que lhe peça mercês, para vêr se acerto em um segredo que tenho imaginado n'esta casa.

Elrey fez assi, e pondo-se n'outra casa o mandou chamar, e com dissimulação, lhe disse:

— Mestre, desejo tanto de vos fazer mercês, e vejo que nunca me pedis nada; folgara que me occupasseis em alguma cousa, porque de verdade que vos tenho tanta affeição, que não haverá cousa que me peçaes que, ainda que seja uma grande parte do meu reino, vos não conceda.

O barbeiro lhe respondeu:

— Certo, senhor, que vossa alteza me offerece ha tempo mercês que não posso deixar de não lançar mão d-ellas, portanto se vossa alteza m'as quer fazer, serão para mim mui grandes, e é, que me hade fazer mercê de me mandar dar dez cruzados para pagar o aluguer de minha casa de que estou penhorado, e n'isto a receberei mui assinalada.

Se elrey de primeiro se espantou de lhe pedir sua filha em casamento, mais se espantou abatendo-se tanto que para lhe pedir dez cruzados lhe mostrava ficar em tamanha obrigação. Elrey lhe mandou dar os dez cruzados, e depois de ido fez vir diante de si o letrado que lhe havia aconselhado, e vindo diante d'elle lhe disse o que passára com o barbeiro, que deitasse juizo em tamanha differença.

O letrado respondeu:

— Vossa alteza saberá, que meu entendimento sahiu certo, e para saber a prova d'isto, mande vossa alteza abrir a terra aonde esse homem punha os pés quando estando barbeando, lhe pedia sua filha em casamento, que eu creio que n'esse logar se achará um grande thesouro, e não póde ser menos senão que pizasse com seus pés algum grande thesouro quem tinha fumos de pedir a princeza em casamento.

Mandou elrey abrir a terra onde isto passou e foi achado um grande haver, que a elrey foi de grande admiração; e para pagar ao letrado tão bom conselho como tinha dado, em especial tiral-o de uma duvida tamanha, lhe concedeu uma boa parte d'aquelle haver, e outra parte mandou dar ao barbeiro com que se auctorisasse em estado.

(Trancoso, Contos e Historias, Parte III, conto III.)