Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O conde-soldadinho

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
13. O conde-soldadinho



13. O CONDE-SOLDADINHO

Junto do palacio do rei morava um pobre soldado; no dia e hora em que nasceu um filho ao rei, tambem a mulher do soldado teve um filho. Aconteceu serem muito amigos um do outro, e o rei como era justiceiro e de bom coração deixou que o soldado e a mulher viessem viver para o palacio, para as duas crianças brincarem juntas. Chamavam todos no palacio ao rapaz o Conde-Soldadinho; elle acompanhava o principe a todas as festas e caçadas.

Uma vez andava o principe á caça, e achou-se ardendo em sêde. O Conde-Soldadinho foi-lhe arranjar agua; d’ahi a pedaço veiu com um lindo jarro cheio de agua fresca.

— Quem é que te deu um jarro tão bonito?

— Foi n’uma pobre cabana; e que faria se o principe visse a mãosinha que m’o deu!

Foram ambos levar o jarro á cabana, e o principe ficou logo apaixonado por uma rapariga muito linda que ali morava. Tomou amores com ella, ia vel-a em segredo, até que prometteu casamento para obter tudo o que queria. Temendo que o rei soubesse d’aquelles amores, nunca mais voltou á cabaninha, mas andava muito triste com saudades. A rapariga, que não sabia que o namorado era o principe, veiu á côrte deitar-se aos pés do rei para lhe valer:


Suppondo servo de Deus

Na terra fazeis de rei

E que sempre sem suspeita

Fazeis justiça direita;

Pois alto rei sabei

Que a mim um cavalleiro

Com um amor verdadeiro

Protestou ser meu marido,

E entrou no meu aposento

Conseguiu o seu intento;

E eu como humilde criada

Batida e infamada

N’este campo de mudança

Peço aos vossos pés vingança.


O rei disse:


Levantae-vos nobre dama,

Cobrarás credito e fama,

Que será bem castigado

O que vos tem deshonrado.


E mandou chamar o principe, que estava passeando no jardim para vir á sua presença; o principe veiu suspirando:


A ella trago no pensamento,

Por ella estou n’um tormento.


O Conde-Soldadinho, que o acompanhava disse: — Pois por uma pobre pastora suspiraes!

— Calae-vos, meu amigo; que tambem eras soldado, e meu pae vos fez conde sem o teres merecido.

Quando chegou á presença do rei contou-lhe tudo, e o rei deu-lhe ordem para casar com a pastora.

(Algarve.)

Notas[editar]

13. O Conde soldadinho. — Pertence ao cyclo do amigo que se sacrifica; não ha aqui a morte, mas a sua importancia provém da parte metrificada, que revela a dissolução de uma obra dramatica.