Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O ovo e o brilhante

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
21. O ovo e o brilhante



21. O OVO E O BRILHANTE

Havia uma mulher, que tinha uma filha e uma enteada; estavam sósinhas em casa, uma sempre na casinha, muito maltratada, e a outra sempre pêrra e soberba de janella. Passou uma velhinha, e pediu se lhe davam alguma cousa. Disse a soberba:

— Vá-se embora, tia, que não ha pão cosido.

A outra disse:

— Não tenho que lhe dar; só se fôr este ovo fresco que pôz agora a gallinha.

E deu o ovo á velhinha. A velhinha quebrou-o, e dentro do ovo estava uma grande pedra preciosa, que era um brilhante; pegou n’elle e deu-o á menina:

— Trazei sempre essa pedra ao pescoço, que emquanto andares com ella haveis de ter todas as felicidades.

A pequena pôz a pedra ao pescoço. A irmã, com inveja, foi tambem buscar um ovo, e deu-o á velhinha. Ella disse que o partisse pela sua mão; assim fez, e rebentou o ovo chôco, que tresandava de mau cheiro e a cobriu de porcaria pela cara e pelas mãos. A velhinha foi-se embora. Aconteceu passar por ali o rei, e viu aquella menina com a pedra ao pescoço, e achou-a tão linda, e ficou logo tão apaixonado, que a mandou buscar e casou com ella. Ficou rainha; e como era boa, a madrasta e a irmã pediram-lhe para que as deixassem viver no palacio; deixou. Um dia o rei foi para uma guerra, onde tinha de se demorar; a rainha ficou no palacio. Ora a madrasta, que já sabia do poder da pedra preciosa, andava mais a filha á mira de vêr se lh’a furtavam; até que um dia que ella estava no banho, e que a irmã lhe tinha ido botar o lençol, furtou-lhe a pedra sem ella dar tino. Immediatamente ficou muito afflicta, e a irmã mais a madrasta fugiram para irem ter com o rei, que estava na campanha, porque tinha a certeza que elle a tomaria por mulher. Pelo caminho pozeram-se a descançar e adormeceram. Passou uma aguia e viu luzir a pedra, e de repente desceu e arrancou-a, e enguliu-a. Quando as mulheres continuaram o seu caminho, chegaram á barraca do rei, sem terem ainda dado pela falta da pedra. Pediram licença para entrar , dizendo que era a mulher do rei que vinha visital-o, porque tinha muitas saudades. O rei conheceu quem eram, e mandou-lhes dar muita pancada e pôl-as fóra; foi então que a rapariga deu pela falta da pedra, e botou a fugir, e a mãe atraz d’ella.

Quando o rei chegou ao seu reino, veiu a rainha ao seu encontro; mas como não tinha a pedra o rei não a conheceu, e disse: — É uma tola como as outras. E escorraçaram-na. Ella tornou para o palacio, e lá só a acceitaram para ajudar na cosinha. De uma vez estava-se a arranjar um grande jantar para o casamento do rei, e ella ao amanhar uma aguia, achou-lhe no papo uma grande pedra preciosa. Guardou-a, e pediu ao dono para ir servir á meza. Assim foi; pôz a pedra ao pescoço, e assim que entrou na sala, o rei conheceu-a e lembrou-se d’ella, e perguntou-lhe como é que aquillo tinha sido. Ella contou-lhe tudo, e o rei sentou-a logo á sua direita, e a outra princeza foi-se embora.

(Porto.)