Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A madrasta

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
20. A madrasta



20. A MADRASTA

Uma mulher tinha uma filha muito feia e uma enteada bonita como o sol; com inveja tratava-a muito mal, e quando as duas pequenas iam com uma vaquinha para o monte, á filha dava-lhe um cestinho com ovos cosidos, biscoutos e figos, e á enteada dava-lhe côdeas de brôa bolorentas, e não passava dia algum sem lhe dar muita pancada. Estavam uma vez no monte e passou uma velha que era fada, e chegou-se a ellas e disse:

— Se as meninas me dessem um bocadinho da sua merenda? estou a cair com fome.

A pequena que era bonita e enteada da mulher ruim deu-lhe logo da sua codinha de brôa; a pequena feia, que tinha o cestinho cheio de cousas boas, começou a comer e não lhe quiz dar nada. A fada quiz-lhe dar um castigo, e fez com que ella feia ficasse com a formosura da bonita; e que a bonita ficasse em seu Logar, com a cara feia. Mas as duas pequenas não o souberam; veiu a noite e foram para casa. A mulher ruim, que tratava muito mal a enteada que era bonita, veiu-lhes sair ao caminho, porque já era muito tarde, e começou ás pancadas com uma vergasta na propria filha, que estava agora com a cara da bonita cuidando que estava a bater na enteada. Foram para casa, e deu de comer sopinhas de leite e cousas boas á que era feia, pensando que era era sua filha, e a outra mandou-a deitar para a palha de uma loja cheia de têas de aranha, e sem ceia. Duraram as cousas assim muito tempo, até que um dia passou um principe e viu a menina da cara bonita á janella, muito triste e ficou logo a gostar muito d’ella, e disse-lhe que queria vir fallar com ella de noite ao quintal. A mulher ruim ouviu tudo, e disse á que estava agora feia e que cuidava que era a sua filha, que se preparasse e que fosse fallar á noite com o principe, mas que não descobrisse a cara. Ella foi, e a primeira cousa que disse ao principe foi — que estava enganado, que ella era muito feia. O principe dizia-lhe que não, e a pequena descobriu então a cara, mas a fada deu-lhe n’aquelle mesmo instante a sua formosura. O principe ficou mais apaixonado e disse que queria casar com ella; a pequena foi-o dizer á que pensava que ella era sua filha. Fez-se o arranjo da boda, e chegou o dia em que vieram buscal-a para se ir casar; ella foi com a cara coberta com um véo, e a irmã, que estava agora bonita, ficou fechada na loja ás escuras. Assim que a menina deu a mão ao principe e ficaram casados, a fada deu-lhe a sua formosura, e foi então que a madrasta conheceu que aquella era a sua enteada e não a sua filha. Corre á pressa a casa, vae á loja da palha vêr a pequena que lá fechára, e dá com a sua propria filha, que desde a hora do casamento da irmã tornára a ficar com a cara feia. Ficaram ambas desesperadas e não sei como não arrebentaram de inveja. É bem certo o ditado: «Madrasta nem de pasta.»

(Porto.)

Notas[editar]

20. A Madrasta. — Pertence ao cyclo do antecedente. A troca das crianças pelas fadas, acha-se nos Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 223, trad. Brueyre.