Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O sapatinho de setim

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
19. O sapatinho de setim



19. O SAPATINHO DE SETIM

Era uma vez um homem viuvo e tinha uma filha; mandava-a á escola de uma mestra que a tratava muito bem e lhe dava sopinhas de mel. Quando a pequenita vinha para casa, pedia ao pae que casasse com a mestra, porque ella era muito sua amiga. O pae respondia:

— Pois queres que case com a tua mestra? mas olha que ella hoje te dá sopinhas de mel, e algum dia t’as dará de fel. Tanto teimou, que o pae casou com a mestra; ao fim de um anno teve ella uma menina, e tomou desde então grande birra contra a enteada, porque era mais bonita do que a filha. Quando o pae morreu é que os tormentos da madrasta passaram as marcas. A pobre da criança tinha uma vaquinha que era toda a sua estimação; quando ia para o monte, a madrasta dava-lhe uma bilha de agua e um pão, ameaçando-a com pancadas se ella não trouxesse outra vez tudo como tinha levado. A vaquinha com os pausinhos tirava o miolo do pão para a menina comer, e quando bebia agua tornava a encher-lhe a bilha com a sua baba. D’este feitio enganavam a ruindade da madrasta.

Vae um dia adoeceu a ruim mulher, e quiz que se matasse a vaquinha para lhe fazer caldos. A menina chorou, chorou antes de matar a sua querida vaquinha, e depois foi lavar as tripas ao ribeiro; vae senão quando, escapou-lhe uma tripinha da mão, e correu atraz d’ella para a apanhar. Tanto andou que foi dar a uma casa de fadas, que estava em grande desarranjo, e tinha lá uma cadellinha a ladrar, a ladrar.

A menina arranjou a casa muito bem, pôz a panella ao lume, e deu um pedaço de pão á cadellinha. Quando as fadas vieram, ella escondeu-se de traz da porta, e a cadellinha pôz-se a gritar:

Ão, ão, ão,

Por detraz da porta

Está quem me deu pão.

As fadas deram com a menina, e fadaram-na para que fosse a cara mais linda do mundo, e que quando fallasse deitasse pérolas pela bocca, e tambem lhe deram uma varinha de condão.

A madrasta assim que viu a menina com tantas prendas, perguntou-lhe a causa d’aquillo tudo, para vêr se tambem as arranjava para a filha. A menina contou o succedido, mas trocando tudo, que tinha desarrumado a casa, quebrado a louça, e espancado a cadellinha. A madrasta mandou logo a filha, que fez tudo á risca como a mãe lhe dissera timtim por timtim. Quando as fadas voltaram, perguntaram á cadellinha o que tinha succedido; ella respondeu:

Ão, ão, ão,

Por detraz da porta está

Quem me deu com um bordão.

As fadas deram com a rapariga, e logo a fadaram que fosse a cara mais feia que houvesse no mundo; que quando fallasse gaguejasse muito, e que fosse corcovada. A mãe ficou desesperada quando isto viu, e d’ali em diante tratou ainda mais mal a enteada.

Houve por aquelle tempo uma grande festa dos annos do príncipe; no primeiro dia foi a madrasta ao arraial com a filha, e não quiz levar comsigo a enteada que ficou a fazer o jantar. A menina pediu á varinha de condão que lhe desse um vestido da côr do céo e todo recamado com estrellas de ouro, e foi para a festa; todos estavam pasmados e o principe não tirava os olhos d’ella. Quando acabou a festa, a madrasta veiu já achal-a em casa a fazer o jantar, e não se cançava de gabar o vestido que vira. No segundo dia, foi a menina á festa, com o poder da varinha de condão, e com um vestido de campo vêrde semeado de flôres. No terceiro dia, quando a menina viu que a madrasta já tinha ido para casa, partiu a toda a pressa, e caiu-lhe do pé um sapatinho de setim. O principe assim que viu aquillo correu a apanhar o sapatinho, e ficou pasmado com a sua pequenez. Mandou deitar um pregão, que a mulher a quem pertencesse o sapatinho de setim seria sua desposada. Correram todas as casas e a ninguem servia o sapatinho. Foi por fim á casa da mulher ruim, que apresentou a filha ao principe, mas o pé era uma patola e não cabia no sapatinho de setim; perguntou-lhe se não tinha mais alguem em casa. Quando a madrasta ia responder que não, abriu-se a porta da cosinha, e appareceu a enteada com o vestido do primeiro dia das festas e com um pésinho descalço, que serviu no sapatinho de setim. O principe levou-a logo comsigo, e á madrasta deu-lhe tal raiva, que se botou da janella abaixo e morreu arrebentada.

(Algarve.)

Notas[editar]

19. O sapatinho de setim. — Nos Contos populares portuguezes, n.os XXXI e XXXVI, ha duas versões, Pelle de cavallo, e a Engeitada. N'esta ultima, ha o estribilho poetico:

Perola fina fica na cuba,
E o saramago vae na burra.

No Romanceiro do Archipelago da Madeira do Dr. Alvaro Rodrigues de Azevedo, sob o titulo A gata borralheira, vem este conto em verso de redondilha, de p. 364 a 391. Acha-se no Pentamerone de Basile, Gatta Cenerentola; nas Recreations de Bonaventure des Periers; no conto do Pérrault, Peau d'Ane; em Rollenhagen, Fresch Maüsler (ap. Grimm); em Brueyre, Contes populaires de la Grande Bretagne, p. 37, e notas eruditas a p. 46. Em Gubernatis, Mythologie zoologique, t. V, p. 110 ha mais paradigmas. No Asinarius, vel Diadema, de Gotfried de Tirlemont, acha-se este thema popular. Consiglieri Pedroso allude a uma variante por elle colligida sob o nome A Menina e o Peixe, de que apresenta o resumo: «Um dia um homem trouxe para casa um peixe que apanhou, e deu-o á mais nova das filhas, que era quem tratava da cosinha, para ella o arranjar. A menina em vez de o matar deitou-o n'um poço, e o peixe reconhecido, quando d'ahi a algum tempo ella tem de ficar em casa, em quanto as irmãs mais velhas vão a uma festa no palacio do rei, dá-lhe tudo quanto ella precisa, para se apresentar no baile, conseguindo a menina pela riqueza do seu trage attrahir a attenção de toda a côrte, vindo por fim a casar com o peixe, que era um principe encantado.» (O Positivismo, t. II, p. 446.)

A Gata borralheira fórma um vasto cyclo novellesco, estudado pelo eruditissimo Reinhold Köhler, nas notas a uma versão escosseza, na Revue celtique, t. III, p. 370, e 371. Na Biblioteca de las traditiones populares españolas, t. I, p. 114, vem uma versão do Chili com o titulo de Maria la Cenicienta, curiosa pelo syncretismo com outros contos. O episodio das tripas repete-se tambem na tradição portugueza:

Fadas, fadinhas,
Vistes por aqui as minhas tripinhas?