Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O segredo revelado

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Gonçalo Fernandes Trancoso
157. O segredo revelado



157. O SEGREDO REVELADO

Um nobre cavalleiro, virtuoso e muito rico, o qual chegando por velhice á ultima hora da vida, chamou ante si um só filho que tinha:

— Rogo-te que pera minha consolação, antes que morra me promettas de fazer o que te deixar por conselho; que segredo que revelar honra ou vida não no descubras a ninguem, porque se tu não guardas o que tanto te releva a ti proprio, como esperas que t’o guardará outra pessoa alguma? e n’isto de segredo te guarda principalmente de tua mulher, porque todas em geral são mudaveis, e por pouca cousa que lhe faças se póde enojar contra ti e descobrir-te o segredo.

Isto tudo o filho ouviu e entendeu, e aceitou de cumprir como o pay lhe pedia, promettendo-lhe sem falta. Mas para vêr que damno lhe podia vir de descobrir o segredo, logo propoz de descobrir algum que fosse fingido haver feito que não fizesse, para que se se descobrisse não fosse verdade, e podesse mostrar o contrario.

Andando um dia o Duque á caça, trasmontou-se-lhe um nebri que elle prezava muito, e tornando sem elle á cidade, fez apregoar que daria grande achado a quem lh’o desse. E porque nem assi appareceu, tornou a mandar pregoar que quem o encobrisse perdesse a fazenda e morresse morte natural; e a quem lh’o descobrisse e fizesse vir á mão do Duque, perdoava qualquer delicto que tivesse, ainda que fosse de morte. E nem assi o nebri appareceu, de que toda a terra estava espantada; e não parecia, porque cahiu dentro da quinta d’este mancebo, que estava perto da cidade, a qual, como era muito grande e elle achasse ali muitas aves, andou muitos dias sem saber d’elle, até que o mancebo foi um dia á quinta; andando passeando dentro, achou o nebri, e como sabia muito d’aquelle mister, o chamou e fez vir a si, e o levou a uma camara das casas da quinta, em que avia todo apparelho para a criação d’aquellas aves, e que não podesse fugir, deixando a bom recado. Guardou comsigo a chave da casa, que era muito grande, e elle e outros passaros que ali estavam tinham bem de que se manter, porque a casa era artificialmente para isso, e estava bem provida do necessario. E deixando o nebri a recadado, matou o mancebo hum grande pavão, de muitos que ali se criavam, e cortados os pés, rabo, cabeça, o depennou e levou para sua casa; e tanto que chegou, disse a sua mulher:

— Senhora, o nebri do Duque foy ter á nossa quinta, e nos tem mortas muitas de nossas aves e em satisfação d'isso eu o matei, e o trago aqui depennado para que o ceêmos, vós e eu.

Ella, tanto que o ouviu se agastou muito, e disse:

— Pesa-me muito d'isso, que melhor fôra trazer-lh'o vivo ao Duque; d'aqui vos digo que me fizestes pesar, e eu não cearei d'elle, nem á mesa em que se comer.

E assi, ainda que o marido a chamou e lhe mostrou o pavão, gabando-o, dizendo-lhe:

— Senhora, olhae como estava gordo este nebri; vinde comer d'elle, que é tal como um gordo pavão.

Ella o não quiz vêr, nem aquella noite ceou com o marido, nem sem elle, tanto se entristeceu. Porém, passada esta noite, de ali por diante quando fallava com o marido parecia que era com uma isentidão sobeja, menos recolheita e mais despejada que d'antes, menos cortez e humilde do que sohia e por cima do hombro; no que tudo o marido attentou, tendo para si que já ella cuidava que lhe tinha o pé no pescoço em lhe saber o segredo do nebri, que na verdade estava vivo, e elle o visitava cada dia para lhe prover o que fosse necessario; e a mulher cuidava que o pavão que o marido ceou, como ouvistes, era verdadeiramente o nebri, como elle disse.

E o mancebo, desejoso de chegar ao cabo com tudo, uma tarde entrando pela porta sobre:

— Porque não está a mesa posta? que fazeis á janella? (Cousa que nunca elle perguntava, nem n'isso entendia.)

Ella lhe respondeu isenta:

— Que quereis vós agora para isso? (com um menosprezo no marido, e gravidade n'ella, que elle não quiz soffrer; e ali lhe deu uma grande bofetada; pelo que ella, pósta em cabello, gritando muito rijo, disse:

— Isso mereço eu, falso traidor? porque ha mais de seis dias que calo e encubro tua maldade, que matastes o nebri do senhor Duque, e o comestes por lhe dar desgosto, e não porque te faltavam a ti aves prezadas que comer.

Como isto foi dito a grandes brados na praça, por para pouco se teve o que mais tardou em dizel-o ao Duque, temendo que se o não descobrisse cairia em sua desgraça. O Duque tanto que o soube o mandou prender, e sem nenhuma misericordia, visto o testemunho da mulher e dos servidores e gente de sua casa, que todos affirmaram vêr-lhe trazer o nebri morto e mandal-o assar, e que o ceiara uma noite, foi por sentença mandado degolar na praça da cidade, e que perdesse sua direita parte dos bens que tinha para a corôa, conforme estava apregoado. E tirando-o da cadeia para se executar n'elle a justiça, a este tempo tinha o mancebo junto comsigo um virtuoso padre religioso a quem tinha dado conta do caso todo como passava assi como a historia o tem contado, que ouvindo-o, logo se ergueu em pé, e disse alto a todos que o ouviram:

— Este homem é julgado por falsa informação, e não é a sentença dada justamente; esperai, que eu irei fallar ao Duque, e será de outra maneira.

E assi foy e contou a sua Senhoria toda a historia passada do rogo do velho pae a seu filho até o estado em que estava, por vêr o segredo que sua mulher lhe tinha, no que fingidamente lhe dissera pera a provar. Que sua Senhoria mandasse pelo nebri á quinta, que elle lhe descobrira que era vivo e estava ali; e para mais certeza, que tomasse aquella chave e o mandasse tirar, e que se lembrasse que conforme ao pregão que mandou dar, por esto feito de lhe descobrir o nebri e fazer-lh'o aver era perdoado. Porém que elle o não pedia senão, que se todavia o quizesse mandar matar, que dissesse o pregão, — que morria por não ser obediente a seu pae, nem tomar seu conselho.

E o Duque, visto isto e entendendo a verdade do caso, mandou que fosse solto e perdoado da culpa que teve, e que soffresse o desgosto de ter sempre sua mulher comsigo, sem nunca pelo passado lhe dar remoque, nem fazer aggravo, porque visto o que succedera estava arrependida do que fizera, e que em tudo d'ali por diante guardasse os conselhos de seu pae, assi como lh'os prometteu guardar.

(Trancoso, Contos, Parte I, n.º XI.)




Notas[editar]

157. O segredo revelado. — Acha-se este conto nas Cento Novelle antiche, n.º 100; nas Novelle, de Franco Sachetti,__PAGESEPARATOR__ n.º XVI; nas Gesta Romanorum, cap. 124 (Violier, cap. 148); nas Cent Nouvelles nouvelles, n.º LII; nas Nuits facetieuses, de Straparola, I, da 1.ª Noite (t. I, p. 15). Tambem se repete no Livre du Chevalier de la Tour, cap. 128. O episodio do falcão morto (um carneiro, para simular um homem) vem nas Horas de recreio, de Guichardin, p. 161; nas Novelle, de Granuci, n.º V; no fabliau do Prud'homme qui donna des instructions à son fils (Rec. de Fabliaux, p. 131), na collecção de Barbazan, e Ms. de Clayette. Vid. Melanges de litterature orientale, t . I, p. 78. Ha imitações d' este conto em Hans Sachs, em uma comedia; o Dr. Schmidt, na sua edição de Straparola determina bastantes paradigmas d'este conto, que ainda apparece nos Mille et un quart d'heure, de Gueullette. No Dolopathos, d'Hebers (ed. 1856, p. 225), acha-se esta narrativa; nos Haus-Mærchen, de Grimm, t. III, p. 176, ed. 1819, apontam-se outros paradigmas.