Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O thesouro do enforcado

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
88. O thesouro do enforcado



88. O THESOURO DO ENFORCADO

Um pae tinha um filho muito travesso e estroina, e sabia que a grande fortuna que lhe deixava elle a espatifaria toda, pela sua má cabeça. Quando morreu, deixou-lhe um falcão, dizendo que ainda que se visse muito necessitado nunca o vendesse; mas se acontecesse de o vender, que lhe deixava uma carta fechada e que a não abrisse senão depois de ter perdido todas as suas esperanças de melhorar de fortuna. O velho morreu, e o filho começou logo a gastar; vendeu quintas, casas, fez dividas, ficou por fiador dos amigos, metteu-se em emprezas, e quando menos se precatou achou-se sem nada. Restava-lhe ainda o falcão, que o pae recommendou que nunca o vendesse; como elle se achava em grandes apuros, não fez caso da vontade do pae, e mandou offerecer o falcão ao rei, que lh'o comprou. Mas o dinheiro do falcão não chegou senão para alguns dias, acabando por gastal-o no jogo, onde tinha ficado a melhor parte da sua fortuna. O rapaz, atrapalhado da sua vida, e não tendo a que se soccorrer, começou a procurar todos os amigos com quem tinha gastado, e todos lhe viraram as costas. Foram tantas as ingratidões e o descaramento dos que lhe tinham ajudado a desbaratar a fortuna, que o rapaz perdeu o gosto da vida e entendeu que o unico remedio que lhe restava era matar-se. Foi então que se lembrou que tinha uma carta do pae, que ainda estava fechada, e antes de morrer lembrou-se de querer vêr o que ella dizia. Abriu a carta, e dentro estava uma chave; e dizia-lhe a rua a que elle devia ir, e a casa em que aquella chave servia para abrir a porta, e que lá acharia pendurada n'uma trave uma corda, e já que estava sem esperanças nenhumas, que se enforcasse ali. Como o rapaz já pensava assim, acceitou o conselho do pae pela primeira vez, e foi logo á tal rua, deu com a casa, abriu a porta e fechou-se por dentro. Subiu a escada, e chegou a uma sala velha, onde encontrou a corda pendurada; não se pôz com mais reflexões, e quando começou a puchar a corda para vêr se estava segura, a corda abriu um falso, que estava no tecto, e começaram a cahir muitas peças de ouro. Ficou o rapaz admirado, ajuntou o dinheiro e já se não quiz matar; mas tambem d'ali em diante nunca mais gastou á matroca, viveu com juizo, e desprezou os amigos que na sua desgraça lhe tinham virado as costas.

(Porto.)