Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/O soldado que foi para o céo

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
87. O soldado que foi para o céo



87. O SOLDADO QUE FOI PARA O CÉO

Ia uma vez um soldado para casa com a baixa; quando ia a passar por uma ponte encontrou um pobre de pedir, que não tinha dinheiro para pagar a passagem e estava ali parado. Ora o soldado nunca tinha feito bem a ninguem; mas n'aquelle instante teve pena do velhinho e carregou com elle ás costas e passou a ponte. O soldado não pagou nada, porque os soldados não pagam, e o velho tambem não pagou nada porque ia ás costas do soldado. Logo que chegou ao outro lado, pôz o velho no chão, e ia despedir-se d'elle, quando o pobre lhe disse:

— Camarada, peça alguma cousa, que o que eu quero é agradecer-lhe.

— Ora o que lhe heide eu pedir?

— Peça tudo o que quizer.

O soldado pediu: Que todas as vezes que disser: «Salta aqui á minha muchilinha!» nenhuma cousa deixe de obedecer á minha ordem. E que onde quer que me eu assente ninguem me possa mandar levantar.

O velho disse-lhe que estava concedido. Foi-se o soldado muito contente para casa e nunca mais trabalhou, e viveu bem, sem lhe faltar nada. Se queria pão, carne, vinho, dinheiro, dizia: «Salta aqui á minha muchilinha», e tinha logo tudo o que lhe era preciso. Veiu o tempo e o soldado estava para morrer; os diabos vieram logo para lhe levarem a alma, mas o soldado viu-os e gritou: «Saltem aqui já á minha muchilinha!» Os diabos não tiveram remedio senão obedecer; elle assim que os apanhou dentro da muchila mandou-a a casa do ferreiro para que lhe malhasse em cima até os deixar em estilhas. Por fim o soldado morreu, e como tinha passado sempre na má vida, foi parar ao inferno. Os diabos assim que o lá viram começaram a gritar:

Fecha portas e postigos,
Senão seremos aqui todos batidos.

E aferrolharam as portas, e o soldado não pôde entrar para lá; foi então bater ás portas do céo. Sam Pedro assim que o viu, disse-lhe:

— Vens enganado! Não entras cá. Não te lembras da má vida que levaste?

Responde-lhe o soldado:

— Oh, senhor Sam Pedro! no inferno não me quizeram. Eu agora para onde hei-de ir?

— Arranja-te lá como puderes.

O soldado viu meia porta do céo aberta, e pega no barrete e atira-o lá para dentro, e disse:

— Oh senhor Sam Pedro, deixe-me ir apanhar o meu barrete.

Sam Pedro deixou; mas o soldado assim que se viu dentro do portal, sentou-se logo na cadeira d'elle. Sam Pedro quiz mandal-o sahir mas não pôde e foi d'ali á pressa queixar-se a nosso senhor, que lhe disse:

— Deixa-o entrar Pedro, não tens outro remedio, porque assim lhe estava promettido.

E o soldado sempre ficou no céo.

(Porto.)





Notas[editar]

87. O soldado que foi para o céo. — Acha-se na tradição da Bretanha franceza, sob o titulo de Moustache. (Em. Souvestre, Les Derniers Bretons, t. I, p. 83.) Acha-se colligido na tradição popular italiana por G. Pittré; na fórma siciliana é um frade, o Grós-Jean analogo ao Bonhomme Misère, da França, ao Prete Ulivo, da Toscana, Accacini, de Palermo, e Gingannuin, do Castellermini. (Vid. Rev. des Deux Mondes, de 1875, 15 de Agosto, p. 843.) O soldado que recebe os trez dons, vem tambem nos contos de Grimm, o Judeu nas Silvas, trad. Baudry, p. 243.