Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Os poderes do ouro

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Francisco Rodrigues Lobo
171. Os poderes do ouro



171. OS PODERES DO OURO

Houve em Italia, e em um dos mais conhecidos logares d'ella, um honrado pai de familias, nobilissimo por geração, rico de bens procedidos da herança e nobreza antiga de seus passados, dotado de muitas partes e graças naturaes, e tão liberal do que possuia, que mais parecia dispenseiro das riquezas, que carcereiro d'ellas. Teve este em sua mocidade um filho tão industrioso e esperto nos negocios da mercancia, que ajuntou em poucos annos grande copia de dinheiro, o qual elle guardava com tão solicito cuidado, como costumam os que com cobiça e trabalhos o adquiriram, e era notavel espanto aos naturaes, verem em um velho a largueza e liberalidade de mancebo, e em o filho a avareza e tenacidade de velho. O pae, que o via responder tão mal a suas inclinações, e que já com a edade e continuação de gastar largo estava menos rico, muitas vezes lhe dizia, e aconselhava com brandura, que conservasse com o que ganhára, a honra que tinha de seus passados, e não degenerasse d'elles por seguir a vileza do interesse: Que usasse das riquezas como nobre, e favorecesse a velhice de quem o criára, e honrasse aos pequenos irmãos que tinha; que fosse proveitoso aos amigos e parentes, benigno aos pobres, e se não captivasse ao trabalho de enthesourar riquezas sem fructo. Mas como fallar a um morto e aconselhar a um avarento é cuidado vão, nenhum effeito faziam os paternos rogos em sua má natureza. Succedeu que o Senado d'aquella Republica por a nobreza e pessoa do mancebo, e pela industria e sagacidade que mostrava, o elegeram em companhia de outros, para ir com uma embaixada a Roma ao summo pontifice. Depois de sua partida, vendo o pae occasião ao que havia muito que desejava, mandou secretamente fazer chaves falsas com que entrou na camara do filho, e abriu os cofres em que aquelle inutil thesouro estava depositado, e com a brevidade que o desejo lhe pedia, vestiu a si, a sua mulher e filhos custosamente, deu libré a seus criados, comprou ricas armações e baixellas, encheu a estrebaria de cavallos fermosos, accudiu em occasiões a parentes e amigos necessitados; dispendeu, em fim, aquella prata e ouro que o filho com muitas vigilias ajuntava, da maneira em que elle quando florecia em riquezas usava d'ellas. Gastado o dinheiro, encheu os sacos em que antes estava de muitos seixos e areia, e posto tudo na mesma ordem em que o filho o deixára, tornou a fechar os cofres e as caixas como de antes. Tornou depois o filho da sua embaixada, e os pequenos irmãos o foram esperar á entrada da cidade vestidos custosamente, e com o magnifico apparato de que então usavam. Vendo-se o irmão rodeado d'elles, ficou confuso e enleado, lhes perguntou logo d'onde houveram tão ricos vestidos e fermosos cavallos? ao que elles com uma simplicidade innocente responderam: Que seu pae e senhor vivia com differente largueza da que antes tinha, e que outros trajos e cavallos de maior preço lhe ficavam. Entrando depois em casa de seu pae, nem a elle conhecia, pelo differente estado em que a deixára, e como n'esta mudança se lhe não aquietava o coração, foi-se com muita pressa aonde tinha posto o seu thesouro, entrou na sua camara, abriu os cofres, e vendo que os sacos estavam cheios e da maneira que elle os deixára, se aquietou, porque não dava logar á mais vagarosa experiencia a pressa com que os companheiros o chamavam e o Senado o esperava. Depois que deu fim áquella obrigação, que a elle lhe não pareceu que fosse tão custosa, fechando-se de vagar no seu aposento, abriu as arcas e os sacos em que lhe parecia que estava a sua bemaventurança, e vendo o engano da areia e seixos, que dentro tinham, começou a gritar com grandes lamentações e brados, a que, primeiro que todos, accudiu o generoso velho, perguntando-lhe, que tinha? de que se queixava? e quem o offendera? — Ai de mim (disse elle), que me roubaram as riquezas que com tantos trabalhos e com tão largo discurso de annos tinha grangeadas. — Como é possivel que te roubaram (respondeu elle), se eu vejo esses cofres e sacos cheios, que parece que não podiam tirar nada d'elles, nem elles levarem mais? — Ai, triste de mim (tornou o filho), que o de que elles estão cheios, não é do ouro e prata com que os deixei, que não tem agora mais que pedras e areia sem proveito. A isto respondeu o generoso pae, sem no rosto fazer mudança: — Ah enganado filho, que importava para que estes sacos estivessem cheios de ouro fino ou de areia grossa, se a tua avareza te não deixava fazer nas obras differença d'ella? Cessaram os brados, mas não já o sentimento do filho com esta resposta, que a mim me pareceu digna de ser contada entre as mais celebres do mundo.

(Rodrigues Lobo, Côrte na Aldeia, dial. VII.)