Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Os quatro ribaldos

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
138. Os quatro ribaldos


138. OS QUATRO RIBALDOS

Hum Rustico aldeano matou hum carneyro e esfolouo e levava-o aas costas pera o vender en o mercado. E falaronse quatro ribaldos que estevessem em quatro lugares en a carreyra per hu avia de hir aquelle aldeaão, e que cada hum lhe dissesse que aquel carneyro era cam, por tal que o deitasse de ssy, e que o ouvessem elles. E quando o aldeão passou per hu estava o primeiro ribaldo disse-lhe:

— Pera que levaes assy esse cã?

Respondeu o aldeão:

— Irmaão, nom sabês o que dizees, ca certamente carneyro he e nom cam.

E o Ribaldo aperfiou com elle que era cam. E asy o fezerom os outros tres ribaldos. E o aldeão veendo esto disse antre sy:

— Eu cuidava que esto era carneyro; mas poys todos dizem que he cam, nom hei que faça dele, — e lançou o carneiro em terra e foyse. E os Ribaldos tomaram-no.

E bem assy communalmente todo o mundo falla mentirosamente.

(Orto do Sposo, de Frei Hermenegildo de Tancos, alcobacense.)





Notas[editar]

138. Os quatro ribaldos. — Este conto acha-se traduzido no Orto do Esposo, ms. da Bibliotheca de Alcobaça, do seculo XIV. A redacção mais antiga é a que vem no Pantchatantra, liv. III, n.º 4: O Brahmane e os Ladrões. (Trad. de Lancereau, p. 225, e nota resumida de Benfey, a p. 374.) Acha-se egualmente no Hitopadeça,[1] d'onde veiu para a collecção arabe do Calila e Dimna, que foi vulgar na peninsula hispanica. D'este conto diz Max Müller, que foi conhecido em Constantinopla por uma traducção grega pelo tempo das Cruzadas, sendo espalhada pela Europa pela obra latina intitulada Directorium humanæ vitæ. Quer pela corrente arabe quer pela latina entrou elle em Portugal, como se vê pelo caracter moral do exemplo com que é referido no livro ascetico supracitado. O conto acha-se levado na corrente da transmissão litteraria e reapparece na Filosofia Morale e nos Piacevoli Notte, de Straparola[2]; mas é certo que elle teve uma migração oral, porque na collecção dos contos norricos de Asbjörnsen e Moe, traduzidos para inglez por Dasent, (Popular tales from the Norse) figura com o titulo de Mestre ladrão.[3] Acha-se na collecção mais querida da Edade media as Gesta Romanorum (Violier des Histoires romaines, cap. 132); no Decameron, de Boccacio, jornada IX, novella 3.ª; nas Facecias de Pogio, nas Cento Novelle antike, nas Novelle, de Fortini, n.º 8, e nas Novellas de Compriano.

  1. Trad. Lancereau, p. 192.
  2. Notte I, Fabula 3.ª: ha differença, porque o padre traz da feira um macho, que os ladrões teimam em chamar burro.
  3. Max Müller, Essais sur la Mythologie comparée, pag. 276 a 278.