Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/Rosimunda

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Teófilo Braga
149. Rosimunda



149. ROSIMUNDA

Huum Rey dos Lombardos que avia nome Alburno era muy forte e muy poderoso em armas. Este Rey ouve batalha com outro rey. E Alburno venceo e matouo, e tomou huuma filha daquelle Rey por molher, que avia nome Rosimunda. E do testo da cabeça de seu padre, que matara, mandou fazer huuma copa e encastonha em prata e bevia per ella. E este Rey Alburno entrou em Italia e tomou todallas cidades della pella mayor parte. E estando elle em huuma cidade que chamom Verona, fez huum grande convite. E mandou alli trazer a copa que mandara fazer da cabeça do rey que matara, padre da sua molher Rosimunda. E beveu per aquella copa e fez a sua molher que bevesse per ella, dizendolhe:

— Beve com teu padre.

E quando ella esto soube, ouve grande odio a elrey seu marido. E elrey avia huum duque que dormia com huuma donzella da rraynha. E huum dia nõ veendo hy elrrey, dormiu com a rraynha, cuydando que era a donzella. E a Raynha fezlhe conhecer, e disselhe:

— Sabe por certo que tu as feyta tal cousa, que ou tu matarás a elrrey Alburno, ou tu morrerás das suas maãos. E eu quero que me tu vingues delle que matou meu padre e fez copa da sua cabeça, e fez a my que bevesse per ella.

E o duque lhe disse o nom fazia, mas cataria outro que o fezesse. E entom ella guisou como se fezesse. E tyrou as armas fora da camara delrrey e legou a espada que elle tinha aa cabeceyra em tal guisa que se nom podese tirar. E depois que elrrey jouve em seu leyto, entrou aquelle que o queria matar. E quando o sentyo elrrey, saltou fóra e quiz tirar a espada e nom pôde. E entom começou elrrey de sse defender muy fortemente com huuma cadeyra que hy estava, mas pouco lhe valeo seu ardimento nem sua fortaleza. Ca o outro andava muy bem armado e pôde mays que elrrey e matouo. E tomou todollos thesouros que achou en no paaço e fugio com a rraynha Rosimunda, pera huuma cidade que ha nome Ravena. E aly se pagou a rraynha de huum mancebo que era perfecto de Ravena. E por casar com ella deu peçonha aaquelle com quem fugira. E elle embevedoua, syntio que era peçonha e fez que a Rosimunda que bevesse o que ficara a força da espada. E assy morrerom ambos. E assy parece que pouco prestou a fortaleza do corpo a elrrey Alburno, nem ao outro que o matou, ca ambos morrerom maa morte.

(Fl. 77.)



Notas[editar]

149. Rosimunda. — Nas Lendas allemãs, de Jacob Grimm (Les Veillées allemandes, trad. de L'Heretier de l'Ain), t. II, p. 45, vem esta tradição colligida de Paulo Diacono, e de Gotfrid. Na poesia popular italiana ainda subsiste esta tradição germanica na fórma de romance, com o titulo a Dona Lombarda, segundo a interpretação de Nigra. Sabatini, fallando d'este canto, define a sua propagação na Italia do norte: «percorrendo dal norte al sud, la ritroviamo in Piemonte, nel Monferrato, nel Veneto e a Ferrara; nella Toscana poi più non vive ma v'é ancora chi ricorda averla udita. Si ritrova nelle Marche in Orvieto, a Viterbo, in Roma finalmente non s'ode cantar che da pochi, e cosi proseguendo non si rinviene più nelle terre meridionali e in Sicilia non se ne ha traccia veruna.» (Rivista di Letteratura popolare, p. 14.) A obliteração da lenda á medida que se avança para o sul indica a sua origem germanica, e portanto a fórma litteraria portugueza proveiu de uma fonte erudita.