Contos Tradicionaes do Povo Portuguez/A bilha de azeite

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Contos Tradicionaes do Povo Portuguez por Gil Vicente
150. A bilha de azeite
Para a totalidade do auto ver Auto de Mofina Mendes.



150. A BILHA DE AZEITE


PAIO VAZ: Pois Deus quer que pague e peite,
Tão daninha pegureira,
Em pago d’esta canceira
Toma este pote de azeite,
E vae-o vender á feira;
E quiçaes, medrarás tu,
O que eu comtigo não posso.
MOFINA MENDES: Vou-me á feira de Trancoso
Logo; nome de Jesu,
E farei dinheiro grosso;
Do que este azeite render
Comprarei ovos de pata,
Que é a cousa mais barata,
Que eu de lá posso trazer.
E estes ovos chocarão;
Cada ovo dará um pato,
E cada pato um tostão,
Que passará de um milhão
E meio, a vender barato.
Casarei rica e honrada,
Por este ovo de pata,
E o dia que fôr casada
Sahirei ataviada
Com um brial de escarlata;
E diante o desposado
Que me estará namorando,
Virei de dentro bailando
Assi d’esta arte bailado
Esta cantiga cantando.


(Estas cousas diz Mofina Mendes com o pote de azeite á

cabeça, e andando enlevada no bailo, cae-lhe, e diz:)


PERO VAZ: Agora posso eu dizer
E jurar e apostar
Que és Mofina Mendes toda
PESSIVAL: E se ella baila na voda
Qu’está ainda por sonhar,
E os patos por nascer,
E o azeite por vender,
E o noivo por achar.
E a Mofina a bailar;
Que menos podia ser?

(Vae-se Mofina Mendes cantando:)

Por mais que a dita me engeite
Pastores, não me deis guerra;
Que todo o humano deleite
Como o meu pote de azeite
Hade dar comsigo em terra.
(Gil Vicente, Obras, t. I, p. 115. Ed. de Hamb.)


Notas[editar]

150. A bilha de azeite. — Este conto é um dos mais persistentes na tradição universal. Max Müller tomou-o por thema comparativo para o seu estudo Sobre a migração das Fabulas, conferencia feita na Royal Institution, em 3 de Junho de 1870, começando pela fabula de Lafontaine La laitière et le pot au lait (Fab. X, do livro VII), e buscando-lhe os paradigmas no Pantchatantra, liv. V, fabula IX: O Brahmane e o pote de farinha. Aproveitando dos resultados criticos de Benfey, indicaremos a área de propagação d'esta fabula: Hitopadessa, liv. IV, p. 182; Kalila e Dimna, cap. X, p. 269; Anwâr-i Souhaili, cap. VI, p. 409; Contes et fables indiennes, cap. VI, t. III, p. 50; Del governo de' regni, exemplo V, fl. 50, v.; Directorium humanæ vitæ, cap. VII; Exemplario contra los engaños, cap. VII; Filosofie morali, trat. IV, fol. 83; Atter Esopus, de Baldo, XVI, ed. Du Méril: De viro et vase olei. Du Méril cita tambem o Dialogus creaturarum, a Sylva sermonum, e Rabelais, Gargantua , liv. I, cap. 33, como vehiculos d'esta fabula. Acha-se tambem no Eyar-i Danisch, nas Mil e uma noites, CLXXVI; no Conde de Lucanor, de D. João Manoel, n.º XXIX, fl. 97; nos Joci ac Sales, de Ottomarus Luscinus; nas Facecie, de Domenichi, liv. V; nos Contes et joyeux devis, n.º XII, de Bonaventure Des Periers; nos Sermones conviviales, de Gast; nos Apologi Phœdrii, de Regnerius, P. I, fab. XXV; no Democritus ridens, p. 150; nas Favole e Novelle, de Pignotti, fab. VIII; vid. Lancereau, Pantchatantra, nota a pag. 388. Gubernatis, na Mythologie zoologique, t. I, p. 136, cita uma versão do Tuti-Namé, II, 26, que interpreta no sentido mythico, em que o céo e a lua são representados como um pote ou taça. No XXI conto mongolico de Siddhi-Kür, ha uma variante d'este apologo (resumido por Gubernatis, op. cit., p. 146) em que o achado é uma pelle de carneiro, de que o pae de familia pretende fazer panno, e com elle comprar um burro, e com o burro irem pedir esmola com os filhos. Esta versão explica-nos a variante apresentada por Trancoso (vid. n.º 155), a qual encontrámos referida em uma locução popular do Porto, Minha mãe, calçotes! Sobre esta fabula vid. Loiseleur des Longchamps, Essai sur les Fables indiennes, p. 55. Ha uma redacção d'este conto sob o titulo A quarta de leite, na Hora de Recreyo, do Padre J. Baptista de Castro, p. 29.

O nome de Mofina Mendes, heroina do conto da Bilha de azeite, é de proveniencia popular; Jorge Ferreira de Vasconcellos, na Aulegraphia refere-se a esta tradição metrificada por Gil Vicente: «fermosura com vangloria dana mais do que aproveita, e as mais das vezes lhe corre per davante Mofina Mendes e a boa diligencia acaba o que merecimento não alcança.» (Fl. 52.) Na linguagem popular o nome de mofina emprega-se como sorte ou destino: a minha mofina. Jorge Ferreira allude a um outro conto popular, de um diabo cuja actividade era tal, que já não havia que lhe dar a fazer, a não ser uma corda de area: «Quer sempre ser a hydra e fazer cordas de areia.» (Eufrosina, p. 300.) Na tradição popular ainda se repete esta oração:

Se o diabo viesse
Para me attentar,
As areias do mar
Lhe mandaria contar.

Walter Scott traz uma lenda escoceza semelhante.