D. Mônica/I

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E, reconhecendo as boas qualidades do dito meu sobrinho Gaspar, declaro que o nomeio meu universal herdeiro, com duas condições essenciais; a primeira (deixada ao seu critério), é que há de relar os cabedais que lhe lego como os relei durante a minha vida; a segunda (cujo cumprimento precederá a execução desta parte do meu testamento) é que há de casar com minha tia D. Mônica, senhora de altas e respeitáveis virtudes...

A leitura das linhas transcritas acima e fielmente copiadas do testamento com que morreu o Capitão Matias do Nascimento, no dia 2 de novembro de 1857, produziu no sobrinho Gaspar duas impressões tão profundas quão diferentes. A alma de Gaspar subiu ao sétimo céu e desceu para o último abismo, de um lance fez toda a jornada de Dante, ao invés, subindo ao Paraíso e caindo de lá no derradeiro círculo do Inferno onde o diabo lhe apareceu, não com as três cabeças que o poeta lhe dá, mas com pouco mais de três dentes, que tantos possuía a tia de seu tio.

Não traiu, entretanto, o rosto do rapaz aquela impressão diferente; a situação pedia um ar compungido, e Gaspar estava ao nível da situação. Ouviu a leitura até o fim, levantou-se, e foi desafogar a cólera consigo mesmo. Digo a cólera porque o mancebo de quem se trata contava a morte do Capitão Matias como um dos sucessos mais afortunados da vida; esperava por ele imenso tempo, na doce confiança de um legado volumoso. Em vez de simples deixa, caiu-lhe nas mãos a herança toda. O tio fora além do que ele supunha merecer: era um tio digno de um mar de lágrimas. Gaspar não tinha lágrimas, mas tinha um lenço, músculos obedientes, e toda a escala dos sentimentos nos olhos, que eram negros, rasgados e verdadeiramente bonitos. Mediante o lenço, os músculos e os olhos, pôde suprir as lágrimas e compungiu a todos pela dor que aparentemente lhe rasgava as entranhas.

Tudo isto era de efeito salutar se pudesse suprimir D. Mônica. Mas D. Mônica existia, com seus sessenta anos, os seus cabelos apenas grisalhos, as suas flores no chapéu, a sua elegância de 1810. Gaspar conhecia perfeitamente o abismo a cuja beira o lançara o capricho do tio; capricho sagaz e previdente, porque dispunha as coisas para o caso em que o herdeiro recusasse adotar a condição imposta: nesse caso, dizia o testamento, toda a herança caberia à mencionada D. Mônica.

— Deus o tenha consigo! exclamou Gaspar, sozinho no quarto; mas não há negar que tinha tanto juízo como este chapéu de sol. Que quer dizer semelhante condição de amarrar-me à tia Mônica? Realmente, só por zombaria ou coisa análoga; suponho que estava a caçoar de mim...

Este monólogo que aí fica em resumo, foi interrompido pela entrada de um amigo de Gaspar, o Bacharel Veloso, rapaz de trinta anos, frio, pacato, sem ilusões nem estudos. Veloso era companheiro de infância de Gaspar, seu confidente, e não poucas vezes seu Mentor ao pé das Calipsos de arribação.

— Será certo o que me disseram agora? perguntou Veloso apertando a mão ao companheiro. Teu tio nomeou-te seu herdeiro universal...

— É certo.

— Mas com a condição de te casares com D. Mônica.

— Tal qual.

— Se recusares, perdes tudo?

— Se recusar, a tia Mônica virá a ser herdeira, respondeu Gaspar passeando no quarto. Nada menos que um modo de obrigar-me a casar.

Veloso sentara-se sacudindo a cinza do charuto e sorrindo da condição da herança. Houve alguns instantes de silêncio. O primeiro que o rompeu foi o bacharel.

— Não, disse ele, respondendo à última reflexão do amigo; não é isso. O que ele quer é deixar D. Mônica sua universal herdeira. É claro que, se recusar, recebe tudo. Muito tola será se consentir em casar contigo, fazendo uma ridícula figura. Poupa-se aos comentários do mundo e recebe ainda em cima trezentos contos...

Gaspar estacou no meio da sala. A observação de Veloso pareceu-lhe exatíssima; ao passo que a soma da herança produziu nele violentíssimo abalo.

— Tens razão, disse Gaspar ao cabo de alguns minutos; há de ser isso. O que ele queria era favorecer a tia Mônica, levando a minha gratidão. Dois reconhecimentos de um golpe: não era mal calculado.

Gaspar arrependeu-se logo deste necrológio, em que entrava muito pouco reconhecimento. Intercalou no discurso um elogio às qualidades morais do tio, discurso interrompido por alguns apartes restritivos do bacharel, os quais apartes não eram refutados com a força que era de esperar da parte do orador. O que se podia concluir do discurso e dos apartes é que o tio Matias não passara nunca de um estimável paspalhão.

— Há alguém que sente mais do que tu a cláusula do testamento, disse Veloso sorrindo, adivinhas, não?

— Lucinda? É impossível.

— O pai dela.

— Acreditas que o comendador?

— Acredito que entrava muito nos cálculos dele a provável herança de teu tio. Não direi que te recuse agora a filha; ainda que não seria para admirar...

— Pode ser que lhe não fosse indiferente um genro com dinheiro; observou Gaspar, não creio, porém, que a cláusula do testamento o leve a opor-se aos desejos da filha.

— Não digo que não. Pela tua parte estás resolvido a abrir mão da herança?

— Oh! de certo!

Veloso levantou-se.

— Muito bem! disse ele.

— Aprovas-me?

— De todo o coração; tanto mais que...

— Que...

— Que esperava outra coisa.

— Ofendes-me.

— Sou apenas prático, respondeu Veloso sorrindo. Eu creio pouco no desinteresse, sobretudo ao pé de trezentos contos. Vejo que és exceção; tanto melhor para ti... e para ela.

— Obrigado!

Gaspar estendeu a mão a Veloso, que a apertou com efusão. Veio o moleque chamá-los para jantar. O jantar foi melancólico e silencioso; a presença dos criados não exigia outra coisa. Além disso, não é certo que tenham bom sabor as sopas de um deserdado.