D. Mônica/II

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D. Mônica por Machado de Assis
Capítulo II


A noite foi desconsolada e triste. E tão triste como a noite foi a seguinte madrugada, que viu o nosso Gaspar de pé, com os olhos cansados de não dormir.

Não era para menos o malogro da véspera. Gaspar vivia há cerca de seis anos somente para o tio Matias, único parente seu, além de D. Mônica; cercava-o de todas as atenções, as mesmas com que se guarda na carteira um bilhete de loteria. O tio gostava dele e dizia-o e provava-o. Era um velho bom, afável, talvez caprichoso e maníaco, mas em todo caso as boas qualidades superavam as aborrecíveis. Gaspar só lhe via o melhor lado; ao menos não dizia outra coisa. Era o seu parceiro obrigado ao gamão, o seu companheiro nos passeios que ele gostava de dar às vezes de manhã; o mais fiel agente dos seus negócios, e até o leitor obrigado dos debates parlamentares. Matias não tinha partido, não o tivera nunca; mas o seu lugar, qualquer que fosse o partido dominante, era a oposição. Nasceu oposicionista, como outros nascem governistas, pura questão de temperamento. Gaspar, que entendia tanto de política como de sânscrito, mostrava-se, entretanto, interessado e curioso e dava forte apoio às objurgatórias do velho Matias.

— Há hoje muito discurso? perguntava este.

— Página e meia de Jornal.

— Que maçada para ti!

— Maçada? Ora! Além do prazer que lhe dou, tenho eu próprio muito gosto em ver bater este governo sem critério. Já viu nada mais desconsolado?

— Não me fales nisso!

E as colunas da folha caíam dos lábios de Gaspar nos ouvidos de Matias, intercaladas pelas ruidosas pitadas deste ou pelos comentários de um e outro.

Ora, todo esse trabalho de tão longo tempo ficou repentinamente perdido: os juros que ele contava receber do vasto cabedal de atenções, carícias, sorrisos, enfados de toda espécie, esses gulosos juros iam-se-lhe sem deixar o mínimo rastro e o pobre Gaspar voltava aos seus ordenados de modesto empregado público.

O malogro era de afligir o mais pacato. Gaspar faltou à repartição além dos sete dias de nojo, mais uns cinco, quase meio mês ao todo, que lhe foi descontado na folha do pagamento. Além disto, que era já bastante, aconteceu que um ou mais dos colegas souberam do testamento de Matias, da herança de Gaspar e da cláusula que aquele lhe pusera resultando deste conjunto de fatos a convicção geral na repartição de que o casamento de Gaspar e de D. Mônica era coisa certa. Um colega imediatamente inferior a ele chegou a pedir-lhe a sua intervenção para que o ministro lhe desse o lugar no dia em que ele, endinheirado, pedisse demissão.

— Qual demissão, qual casamento! respondeu desabridamente o pobre herdeiro, resposta que foi repetida de boca em boca entre os colegas e comentada durante três dias.

Uma só coisa podia consolar, consolar é exagerado — fazer esquecer por alguns instantes o esvaecimento da herança; era Lucinda. Lucinda era uma mocinha de dezessete anos, cabelos castanhos, olhos da mesma cor, rosto oval e pé de sílfide. O pé foi o laço em que o sobrinho de Matias caiu. A metáfora pode não ser nova nem bonita, mas é perfeitamente exata. Lucinda sabia que tinha um pé formoso, esguio, leve, como devem ser os pés dos anjos, um pé alado, quando ela valsava e deixava entrevê-lo todo no meio dos giros em que se deixava ir. Sabia disso e gostava de que lhe admirassem o pé; daí resultava que, por mais comprido que fosse o vestido de Lucinda, não havia hipótese de estar ela assentada sem mostrar a pontinha do sapato. Et tout le monde sait qu’elle a le pied charmant, podia dizer o poeta. Gaspar fazia como tout le monde; via o pé e adorava-o. Acontece que entre tantos admiradores, Lucinda só esperava um, aquele que lhe falava ao coração; esse foi Gaspar. O resto adivinha-se. Amaram-se, disseram-se e pediram-se... um ao outro. O Comendador Lima, pai da moça, percebeu as conferências ideais e sentimentais entre o pé da filha e a alma do rapaz, e não lhe pareceu mau casamento.

— É bom moço, pensou ele, empregado sério e tem cabedais no horizonte; posso dar-lhe a pequena.

Gaspar entendeu pelo rosto amável do comendador que o seu pedido não viria fora de propósito, e planeava o meio de requerer a moça com o consentimento do tio quando este se lembrou de mudar o domicílio passageiro pelo eterno, deixando-lhe o dinheiro e a tia.

A situação mudara; contudo não lhe pareceu que o comendador mudasse muito com ela. Achou-o certamente mais reservado e algo frio; mas a filha estava tão contente que ele sentiu renascer-lhe a abalada confiança.

— Já sei que me deixas, disse a moça com um tom de tristeza.

— Deixar-te?

— Não te casas?

Gaspar levantou secamente os ombros.

— Isso não é resposta, disse a moça.

— Que queres que te diga?

— Que me amas... que não me hás de trair...

— Lucinda!

— Lucinda não é resposta.

— Criança!

— Ainda menos!

— Pois sim; não te hei de trair... Trair por que e por quem? Julgas-me um...

A moça desatou a rir, uma risada que faria morrer a D. Mônica, se a ouvisse e percebesse a coisa, e os dois namorados passaram a falar do seu futuro. O que os namorados dizem de seu futuro não é coisa nova para ninguém; dizem tudo e não dizem coisa nenhuma, eloqüência divina, que é melhor experimentar, que julgar, mas julgue-a quem não experimentá-la.