D. Mônica/IV

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Entretanto, Lucinda entrou a desanimar um pouco nas suas esperanças matrimoniais. A situação de Gaspar era pior do que antes; e sobre ser pior não lhe falava ele em coisa que se parecesse com casamento. Quais seriam as suas intenções, e que desilusão lhe preparava o futuro? Um dia abriu-se com ele.

— Oh! Descansa! respondeu Gaspar, serás minha ainda contra a vontade do céu...

— Não blasfemes!

— Falo-te assim, para te mostrar a resolução em que estou. E já que me falaste nisto, dir-te-ei que ainda é tempo de refletir. Bem sei que não amaste em mim os bens da fortuna, que aliás nunca tive. Contudo, é bom que vejas a situação em que me acho. A pouca esperança que podia haver de melhorar de sorte esvaeceu-se; nada tenho, além do meu trabalho. Queres-me assim mesmo?

A moça lançou um olhar de indignação ao rapaz.

— Não me respondes? perguntou este.

— Com o desprezo, era a única resposta que merecias! exclamou Lucinda.

Esta indignação da namorada foi um bálsamo suave lançado no coração do moço. Era muito melhor do que um sorriso ou um levantar de ombros, ou qualquer outra coisa menos expressiva.

— Perdoas-me? disse ele.

— Não!

— Mas não ficas querendo mal?

— Talvez!

— Não digas isso! Reconheço que sou culpado mas a intenção das minhas palavras era a mais pura e inocente!

Lucinda acreditou piamente na pureza da intenção do rapaz e a conversa encaminhou-se para assuntos menos ásperos, em que por enquanto os deixaremos para ir ver em que se ocupa a senhora D. Mônica durante a longa ausência de Gaspar.

D. Mônica contou com extrema atenção e tal ou qual saudade os dias da ausência do sobrinho. Não tardou a zangar-se com tamanho prazo, até que um dia ergueu-se da cama com a resolução de o mandar chamar. Nesse dia a camareira de D. Mônica pôs em atividade todos os seus talentos de ornamentista para reparar os ultrajes dos anos, e repor a boa senhora em condições menos desfavoráveis do que a pusera a natureza. Duas horas a espartilhar-se e a vestir-se. Ao cabo de todo esse tempo dispôs o ânimo para receber o esquivo sobrinho a quem escrevera logo de manhã.

Todo esse trabalho, porém, foi inútil porque o mencionado sobrinho não apareceu, e D. Mônica teve de contentar-se com as despesas da toilette.

A esquivança do sobrinho pareceu-lhe de algum modo ofensiva, duplamente ofensiva, porque o era à sua pessoa como tia e como mulher. Como mulher é que ela sentiu mais. Ao mesmo tempo refletiu no caso, e hesitou em crer que o rapaz, sem forte motivo, se dispusesse a perder nada menos que uma gorda aposentadoria.

— Alguma coisa há de haver por força, dizia ela mordendo o lábio com despeito.

E a idéia de um namoro foi a primeira que lhe acudiu ao espírito como a mais natural de todas as explicações.

— É isso, algum namorico, sabe Deus com que lambisgóia! Sacrifica-se por ela, sem saber o que lhe resultará de semelhante passo. Pois que se avenham...

A reticência que aí fica não é minha, foi uma reticência nervosa que acometeu a pobre senhora, em forma de tosse, interrompendo o monólogo, a que deu fim a mucama trazendo-lhe a bandejinha de chá. D. Mônica tomou dois ou três goles dele e deitou-se daí a alguns minutos. O sono não veio prontamente, mas veio, enfim, cheio de sonhos cor-de-rosa em que D. Mônica viu realizados todos os seus desejos.

No dia seguinte os bons dias que recebeu foi uma carta de Gaspar. Dizia-lhe ele, respeitosamente, que era obrigado a renunciar à honra imposta por seu tio e à herança que lhe advinha dela, visto ter uma afeição anterior ao testamento do Capitão Matias, afeição séria e decisiva. Consultaria, entretanto, um advogado para liquidar o ponto e saber se a tia podia ser defraudada de alguma parte da herança, coisa que ele evitaria por todos os meios possíveis. A carta era singela, nobre e desinteressada; por isso mesmo o desespero de D. Mônica foi aos últimos limites.

Gaspar não remeteu aquela carta sem consultar o seu amigo Veloso, que a ouviu ler e aprovou com restrições. A carta seguiu seu destino, e Gaspar interrogou o bacharel sobre o que achava ele que dizer ao desengano contido na epístola.

— Acho que o desengano é franco demais. Não é bem isto que eu quero dizer. Acho que não deixas nenhum caminho para voltar atrás.

— Voltar atrás? perguntou Gaspar admirado.

— Sim.

— Mas por quê?

— Porque não se despedem tão levianamente trezentos contos. Amanhã podes pensar de modo inteiramente diverso do que pensas hoje...

— Nunca!

— Nada de afirmações temerárias.

Gaspar levantou os ombros e fez um gesto de tédio, a que Veloso respondeu sorrindo. Gaspar lembrou-lhe que, logo que fora aberto o testamento e conhecidas as disposições de seu tio, Veloso lhe aprovara a resolução de não aceitar o casamento imposto.

— É verdade, retorquiu este; mas, se é bonito o ato, não impede que absolutamente o devas praticar, nem que seja prova de juízo seguro.

— Nesse caso, parece-te...

— Que não cedes a considerações de dinheiro, o que é prova de honestidade; mas que não há remédio se não ceder alguma vez a elas, o que é prova de reflexão. A mocidade passa e as apólices ficam.

Gaspar engoliu um discurso que lhe veio à ponta da língua, discurso de indignação, todo inspirado por seus brios ofendidos; limitou-se a dizer que no dia seguinte ia pedir a mão de Lucinda e que se casaria no mais breve prazo. Veloso deu-lhe os parabéns, e Gaspar foi dali redigir a carta de pedido ao comendador.

A carta de Gaspar não chegou à notícia do narrador do caso; mas há motivos para crer que era obra acabada como simplicidade de expressão e nobreza de pensamento. A carta foi enviada no dia seguinte; Gaspar aguardou a resposta com a ansiedade que o leitor pode imaginar.

A resposta não veio imediatamente como ele cuidava que seria. Esta demora fê-lo curtir dores cruéis. Escreveu um bilhete à namorada que lhe respondeu com três ou quatro monossílabos tétricos e misteriosos. Gaspar assustado correu à casa do comendador, e achou-a triste, abatida e reservada. Quis indagar o que havia, mas não teve ocasião.

A razão da tristeza de Lucinda foi a repreensão que o comendador lhe passou, ao ler o pedido do rapaz.

— Autorizaste semelhante carta? perguntou o comendador fuzilando-lhe os olhos de cólera.

— Papai...

— Responde!

— Eu...

— Eu quê?

— Não sei...

— Sei eu, troou o Comendador Lima indignado; sei que não tiveste força bastante para desanimar o pretendente. Casar! Não é demais senão casar! Com que havia ele de sustentar casa? Provavelmente com o que esperava receber de mim? De maneira que eu ajuntei para que um peralvilho, que não tem onde cair morto, venha desfrutar o que me custou a haver?

Lucinda sentiu duas lágrimas borbulharem-lhe nos olhos e fez menção de retirar-se. O pai reteve-a para lhe dizer em termos menos desabridos que ele não desaprovava nenhuma afeição que ela tivesse, mas que a vida não se compunha só de afeições, senão de interesses também e necessidades de toda a espécie.

— Esse tal Gaspar não é mau rapaz, concluiu o comendador, mas não tem posição digna de ti, nem futuro. Por ora tudo são flores; as flores passam depressa; e quando tu quiseres um vestido novo ou uma jóia, não hás de mandar à modista ou ao joalheiro um pedaço do coração de teu marido. São verdades que deves ter gravadas no espírito, em vez de te guiares somente por fantasias e sonhos. Ouviste?

Lucinda não respondeu.

— Ouviste? repetiu o comendador.

— Ouvi.

— Não basta ouvir, é necessário digerir, disse sentenciosamente o pai.

E com este aforismo concluiu o diálogo — direi antes o monólogo, deixando na alma de Lucinda poucas esperanças de casamento, ao menos imediato como ela supunha e desejava que fosse. Tal é a explicação da tristeza e reserva com que recebeu o rapaz naquela noite. Facilmente se crê que Gaspar não saísse dali com a cara alegre. Nem acharei entre os leitores nenhum tão incrédulo que duvide de que o pobre namorado ficou tão fora de si, que não atinou com a maneira de abrir a porta, e afinal quebrou a chave, pelo que achou-se no meio da rua, à uma hora da noite, sem ter onde ir dormir.

Sem casa nem esperanças, é suplício excessivo. Gaspar teve idéia de ir ter com Veloso e passar a noite com ele, derramando no seio do amigo todas as suas queixas, e tristezas. Só ao cabo de cinco minutos é que se lembrou de que o bacharel morava no Pedregulho. Consultou a algibeira cuja resposta foi a mais desanimadora possível.

Nestas circunstâncias ocorreu-lhe a melhor solução que podia ter naquela crise: ir pedir pousada a D. Mônica. Ela morava na Rua dos Inválidos e ele achava-se na Rua do Conde. Embicou para lá, tão cheio de suas mágoas, que nem lhe lembravam as que podia ter causado à tia.

Ali chegando, foi-lhe facilmente aberta a porta. Um escravo dormia no corredor, e não teve dúvida em franquear-lhe a entrada desde que reconheceu a voz de Gaspar. Este contou ao escravo o que lhe acontecera.

— A vista disto, concluiu ele, arranja-me aí um lugar com que passe a noite, mas sem acordar titia.

D. Mônica tinha dois quartos trastejados para hóspedes; Gaspar foi acomodado em um deles.