Dicionário de Cultura Básica/Dostoievski

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Dostoievski


DOSTOIEVSKI (o escritor símbolo da Literatura Russa)

Sofrer e chorar significa viver

Fedor Mikhailovitch Dostoievski (1821–1881) é o maior romancista da Literatura Ocidental, considerado o pai do romance psicológico. A crítica costuma dividir sua vastíssima obra de ficção em três partes:

1) Novelas da juventude (Pobre gente, Coração frágil, Noites brancas, entre outras), que constituem a fase ainda romântica de Dostoievski, onde predomina a descrição do fundo humano das criaturas, com sua ternura e espírito de abnegação. Nestas obras, todavia, já vislumbramos alguns dos traços mais característicos da ficção dostoievskiana posterior: traços autobiográficos (recordações da infância, idealismo da adolescência, descrição da vida do estudante pobre, caráter introspectivo, timidez, complexo de Édipo); seu pensamento sobre moral e religião (crença no destino, compaixão pelo pecador, a humildade e o sofrimento como catarse, acusação da injustiça social, crítica às modas estrangeiras e apego à natureza); elementos de sua estética (crítica à literatura retórica e divorciada da vida real, introspecção analítica, extravasamento da vida na arte, predominância do uso do narrador em primeira pessoa, preferência pelos cenários noturnos e tempestuosos); o modo peculiar de construir os personagens (esboços de vários tipos humanos que encontrarão seu acabamento perfeito nas obras da maturidade).
2) Obras de transição: os quatro anos (1850–1854) passados na Sibéria, condenado aos trabalhos forçados por integrar o grupo revolucionário de Pietrachevski, que pretendia depor o czar Nicolau 1, constituem um divisor de águas na produção literária de Dostoievski. Na prisão, o nobre e intelectual Fedor entra em contato direto com a camada do povo russo mais miserável e começa seu amadurecimento espiritual, que se completará com as viagens ao exterior, as aventuras amorosas, as experiências desastrosas no jogo, o sofrimento físico causado pela epilepsia e a dor moral provocada pela penúria econômica. Entre as obras da fase juvenil e o primeiro grande romance da época da maturidade (Crime e castigo, publicado em 1866) medeiam uma meia dúzia de trabalhos literários que atestam a gradativa passagem da primeira para a segunda fase. Lembramos os romances Humilhados e ofendidos, Memórias da casa dos mortos e Memórias do subterrâneo.
3) Romances da maturidade: é o conjunto das sete narrativas (Crime e castigo, O jogador, O idiota, O eterno marido, Os demônios, O adolescente e Os irmãos Karamazov) em que Dostoievski atinge a plenitude de sua técnica formal e consegue expressar sua mundividência pela temática existencial e pela construção de personagens que se tornaram imortais.

Quanto ao aspecto formal, assinalamos a técnica da "transposição", própria da estrutura artística da narrativa dostoievskiana. No seu intuito de explorar os subterrâneos da alma humana, o grande escritor russo não cria suas histórias e não constrói seus personagens de um modo linear e acabado, mas reparte fatos e características psicológicas de forma a poderem ser vistos de vários ângulos. O intertexto de Dostoievski acusa a existência de homólogos, de duplos, de desdobramentos de personalidade, de embriões, de imagens especulares, de prismas que refrangem a plurifacetação do ser humano. Assim, numa mesma obra e de uma obra para outra, as personagens de Dostoievski "transpõem" seus caracteres, complementando-se e diferenciando-se.

Quanto à temática, o motivo mais explorado pelo romancista é o sentimento de culpa que aflige o homem na sua tentativa de reparar as injustiças individuais e sociais através de um meio moralmente condenado, o crime. O fundamento psíquico da intenção ou do ato criminoso é o complexo de Édipo, que o leva a odiar qualquer forma de tirania, consubstanciada na figura do pai que submeteu a esposa e os filhos a uma autoridade brutal. Mas a temática de seus romances, evidentemente, não se limita apenas ao tratamento deste motivo, abrangendo quase todas as contradições da época em que viveu: forças do instinto versus misticismo religioso; imperialismo czarista vs. tendências socialistas; violência vs. sentido de humanidade; interdições socio-morais vs. livre-arbítrio; consciência da culpa vs. compaixão para com os fracos e os degradados.