Dicionário de Cultura Básica/Drama

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Drama


DRAMAGênero literário → TragédiaComédiaÓpera

Do étimo greco-latino drama, significa uma "ação" feita em público, uma representação. A essência do drama é o diálogo entre as personagens, cada qual expondo seu ponto de vista a respeito do acontecido. Daí, a presença do "conflito" como elemento caracterizador do gênero dramático. Outro aspecto relevante é sua complexidade: o gênero dramático (Teatro) engloba a Literatura e outras Artes, sendo composto de uma constelação de signos: o texto escrito encontra-se entrelaçado por imagens visuais, auditivas, canoras, musicais, pictóricas e plásticas, formando uma intertessitura harmoniosa. O sucesso da peça dá-se quando o diretor consegue combinar as diferentes linguagens de modo a anular cada uma delas em função da apresentação de uma visão do conjunto, na qual o espectador não consiga destacar nenhuma linguagem de modo especial. No contexto da representação, o texto escrito perde seu aspecto propriamente literário para adquirir os caracteres da dramaticidade. A palavra, pronunciada pelo ator, embora mantenha sua significação lingüística, sendo signo de um objeto, pode mudar de sentido na dependência da maneira como é pronunciada. A frase "eu te amo" pode sugerir sentimentos opostos: paixão, indiferença, piedade, ironia, em função do tom de voz, da mímica do rosto ou das mãos, da postura corporal do ator. Daí alguns estudiosos considerarem o gênero dramático como uma arte à parte, separada da literatura. Mas, se é verdade que o texto teatral é escrito para ser representado e não apenas lido, não podemos negar, de outro lado, suas implicações intrínsecas com a arte da palavra. Se contem um "script" que usa a linguagem poética, pode ser estudado como texto literário. A peça Édipo Rei foi escrita por seu autor, Sófocles, para ser representada no teatro de Atenas e continua sendo apresentada, em várias versões, em todos os teatros do mundo. Mas, quem não tiver a sorte de assistir ao espetáculo teatral, poderá deliciar-se com a leitura do texto escrito, analisando alguns elementos estruturais comuns ao gênero narrativo (fábula, personagens, tempo, espaço, diálogos) e imaginando outros específicos do dramático (cenografia, coreografia, sonoplastia). Se isso não fosse possível, o acesso às obras mais bonitas da dramaturgia ocidental seria proibido a um público que não mora nas metrópoles ou que não tem poder aquisitivo para freqüentar teatros majestosos, onde são representadas as peças que se tornaram imortais. O mesmo diga-se do gênero lírico: em suas origens e ainda hoje na canção popular, os versos poéticos estão ligados ao acompanhamento musical, geralmente no contexto de um show apresentado por bandas e cantores: mas isso não impede o prazer da leitura de um poema de Manuel Bandeira ou da letra de uma canção de Chico Buarque de Holanda no aconchego do lar. Portanto, desde que uma peça teatral contenha um texto escrito em linguagem poética, ela pertence, com certeza, também à arte da literatura, não apenas às artes cênicas. Mais do que isso: para alguns estudiosos a poesia dramática é considerada a síntese da poesia épica e da poesia lírica. O drama reúne a objetividade da epopéia com o princípio subjetivo da lírica, ocupando o justo meio entre a extensão da épica e a concentração da poesia lírica. Nele encontramos elementos narrativos (episódios de vida) e líricos (expressão de sentimentos), havendo muitas homologias entre os três gêneros literários: um drama, como um romance ou uma balada, tem um enredo vivido por personagens num certo tempo e num determinado lugar, exprimindo um tema, um problema existencial, um sentido de vida. O que varia entre um gênero e outro é o modo como a história ficcional é contada e os meios diferentes de que o dramaturgo pode lançar mão. Um estudioso do assunto, R.Peacock (Formas da literatura dramática), descobre a "idéia-força" do estilo teatral na união fala-gesto: as palavras não passam de símbolos abstratos e, para que seja revelado seu pleno significado dramático, elas precisam ser materializadas no contexto sensorial dos sons vocais aos quais os significados da emoção e do sentimento são inerentes por natureza . Daí a importância, além da linguagem, também do aspecto físico do ator, da máscara, dos gestos, das vestimentas apropriadas, do cenário, da iluminação adequada. Outros críticos acham que a essência dramática está no conflito, no choque entre vontades opostas, na colisão entre os diferentes objetivos das personagens. Conflito que gera constantemente surpresa e tensão. Tensão essa expressa formalmente através do diálogo. Aliás, indiscutivelmente, a forma dialógica é a característica mais marcante da arte teatral. Enquanto no gênero narrativo predomina o ponto de vista de um narrador e no lírico a focalização está concentrada no eu poemático, no teatro temos várias perspectivas ideológicas: o espectador fica sabendo dos fatos através da fala das personagens, cada qual expondo idéias e sentimentos do seu ponto de vista, geralmente em conflito com a visão dos demais personagens. Outra característica diferenciadora do gênero dramático é o aspecto temporal: se o gênero narrativo sempre se refere ao passado (conta uma história que já aconteceu) e o lírico se refere ao presente (exprime um sentimento que o eu poemático está vivendo aqui e agora), o dramático visa o futuro: expõe a problemática dolorosa de uma situação existencial com o fim de estimular a catarse, a purificação dos sentimentos e a mudança do status quo. Toda boa peça provoca no espectador a reflexão sobre a eficácia da observância dos valores ideológicos. Demonstrando que certos valores são falsos e hipócritas, pois não conseguem proporcionar a felicidade almejada, o drama sugere a mudança de costumes. O gênero dramático, mais do que qualquer outro tipo de arte, tem a função de induzir o homem à reflexão sobre a realidade em que vivemos, tratando de todos os problemas existenciais, que podem envolver o homem consigo próprio, com a família, com a sociedade, com a divindade.

Quanto às "formas" do gênero dramático, destinamos verbetes específicos a peças maiores (Tragédia, Comédia, Ópera) e menores: Farsa (incluindo o Mimo, o Momo e o Vaudeville) e o teatro de Marionetes. Aqui vamos tratar apenas do "Drama Moderno", que os antigos chamavam de "Tragicomédia", onde não existe mais a oposição maniqueísta entre a peça trágica, de assunto nobre, que faz chorar, e a peça cômica, de assunto vulgar, que faz rir. Na verdade, a pureza dos gêneros literários é um postulado teórico, inventado por Aristóteles a partir da análise das obras que ele conhecia, mas que hoje não se sustenta mais na prática teatral, pois, se a arte é imitação da vida, esta não apresenta a tristeza separada da alegria. Já o dramaturgo grego Eurípides misturara elementos cômicos à tragédia ao colocar um final feliz em suas peças centradas sobre o ciclo mítico troiano. Ifigênia em Áulis, Ifigênia em Táurida, Orestes e Electra, apesar de serem tragédias, terminam com o happy end, com a agravante de que personagens nobres casam-se com gente plebéia. Mas o poeta trágico foi severamente criticado por isso, sofrendo ataques violentos do comediógrafo conservador Aristófanes. Ao longo da evolução do gênero dramático, mesmo nos períodos de triunfo da estética clássica, dramaturgos famosos nunca foram completamente fiéis ao principio da pureza dos gêneros. O renascentista-barroco inglês Shakespeare coloca elementos cômicos em suas tragédias e elementos trágicos em suas comédias; o neoclássico francês Corneille põe como desfecho de sua tragédia Le Cid o casamento de Rodrigo e Ximena, criando uma tal polêmica que obrigou a Academia Francesa de Letras a intervir, definindo a obra não como uma tragédia clássica, mas uma "tragicomédia". Aliás, o próprio termo tragicomédia, que indica uma peça em que estão misturados elementos trágicos e cômicos, foi cunhado pelo escritor latino Plauto: no Prólogo de Anfitrião, para justificar a presença de personagens nobres (o deus Júpiter) junto com seres vulgares (o escravo Sósia), define essa sua obra dramática como uma tragicomédia. Mas é a partir da revolução estética promovida pelo Romantismo que a dramaturgia, conscientemente, realiza a síntese do trágico e do cômico. O poeta Victor Hugo, no Prefácio à peça Cromwell, proclama o fim do mito da pureza dos gêneros, junto com a denúncia das outras prerrogativas da estética clássica. O drama burguês passa a substituir a tragédia e a comédia, combinando os princípios estruturais e ideológicos dos dois gêneros, antes separados. A problemática pode ser, ao mesmo tempo, transcendental e banal, as personagens nobres e vulgares, a ação dramática pode provocar riso e choro. A concepção do drama moderno nega a oposição sistemática entre o cômico e o trágico, porque o teatro não tem apenas a finalidade de divertir ou fazer chorar, mas, sobretudo, a de fazer pensar e refletir sobre a nossa realidade existencial.