Dicionário de Cultura Básica/Gênero

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Gênero


GÊNERO: na Literatura: Épica (Narrativa) → LíricaDrama

na biologia: gênero/espécie → GenéticaDarwin;

na sociologia: as discriminações → EscravidãoNietzsche

Do latim genus, generis, gênero, no seu sentido mais amplo, indica uma classe de seres ou objetos, que possuem características semelhantes ("genérico") e origem comum ("genético"), englobando várias "espécies" ou subclasses a ele relacionadas. No tocante à Literatura, Aristóteles foi o primeiro a se preocupar em distinguir, entre as obras literárias até então produzidas, semelhanças genéricas e diferenças específicas. Não existindo antes dele a arte literária em prosa, o filósofo e crítico grego estudou a produção poética do séc. VIII ao III, distinguindo os três gêneros que se tornaram tradicionais, com base na sua concepção de arte como Mimese, imitação da realidade:

Poesia épica, de épos, (gênero narrativo): uma história ficcional, de assunto glorioso, contada em 3ª pessoa, por um narrador onisciente, perante um auditório; trata-se da palavra "narrada".

Poesia lírica, de lira, instrumento musical a corda, que acompanhava a declamação de um poeta que expressava um sentimento de amor, de tristeza, de exaltação etc, em 1ªpessoa: era a palavra "cantada".

Poesia dramática: de Drama, encenação de um problema existencial transmitido por atores perante espectadores, através do diálogo: 2ªpessoa, a palavra "representada".

Mas tal divisão da produção poética nos gêneros épico, lírico e dramático só foi possível posteriormente, quando a cultura e a civilização do povo grego já se encontravam num estado avançado de evolução. Nas origens, no tempo da pré-história helênica, anteriormente à época homérica, tais gêneros não eram distintos. As primeiras formas de criação literária não estavam separadas de outras formas de arte, quais a Música, o Canto, a Dança, a Mímica (→ Mimese). A arte primitiva de qualquer povo tem sempre uma origem religiosa e agrária, estando estritamente relacionada com rituais sagrados, tendo vários objetivos: agradecer a divindade pela boa colheita, transmitir elementos de cultura e entreter o povo, por várias formas de expressão artística. Imaginamos o que devia acontecer na Grécia pré-histórica, durante as festas dionisíacas: num primeiro momento, um velho sábio apenas recitava as façanhas do deus (o épos, o fato glorioso), perante agrupamentos de gente analfabeta; mais tarde, o povo começou a participar através da dança e do canto coral, o ditirambo, hino em honra do deus Dionísio (o romano Baco) que, mais tarde, passou a ter uma estrutura dramática, pelo diálogo entre o chefe do coro e os coreutas: este ditirambo dialogado estaria, segundo Aristóteles, na origem da Tragédia. Assim, por uma plausível evolução, as histórias sobre o deus Baco começaram a ser encenadas (surgimento do drama), após serem narradas (forma épica) e cantadas (gênero lírico). Já das primeiras formas artísticas do povo latino temos algumas notícias mais precisas. A satura (cheia) lanx (tigela) era o "prato cheio" das primícias da terra que os antigos camponeses itálicos ofereciam aos deuses durante as festas religiosas. Os semas de "abundância" e de "mistura", presentes no étimo do adjetivo "sátura", fizeram com que se desse o nome de satura à primeira forma de poesia campestre latina, onde vários elementos artísticos se misturavam: os versos recitados por jograis eram acompanhados por instrumentos musicais, por danças e por representações miméticas. Devido ao tom jocoso e, às vezes, debochado, mais tarde, a antiga satura deu nome ao filão da literatura "satírica", em versos e em prosa.

A tripartição das obras literárias em gênero narrativo (poesia épica, romance, conto etc.), lírico (hino, ode, canção etc.) e dramático (tragédia, comédia, ópera lírica etc.) tornou-se tradicional, sendo usada até hoje, reestudada por vários teóricos da arte da palavra, e também por filósofos e psicólogos que, transcendendo o interesse puramente literário, estabeleceram relações dessa diferenciação genérica com posturas antropológicas. Emil Staiger (Conceitos fundamentais da poética) afirma que os adjetivos "épico" (ou narrativo), "lírico" e "dramático" são conceitos da ciência da literatura que exprimem virtualidades fundamentais do ser humano, correspondentes, respectivamente, ao domínio do "figurativo" (a história contada é sempre um tempo passado, indicando o distanciamento entre o poeta e o mundo representado), do "emocional" (o lírico é um estado de alma, que exprime o presente da recordação) e do "lógico" (o drama visa o futuro, pois coloca um problema existencial a ser resolvido). Já o filósofo alemão Cassirer (A filosofia das formas simbólicas) relaciona os gêneros literários com os três planos da linguagem: o lírico representaria a linguagem na fase da expressão "sensorial" (idade pueril); o épico, a linguagem na fase da expressão "figurativa" (juventude); o dramático, a linguagem na fase da expressão "conceitual" (idade adulta). Roman Jakobson (Lingüística e Comunicação), relacionando as funções da linguagem com os fatores da comunicação humana, vê o princípio diferenciador da poesia lírica na predominância da função "emotiva", orientada para a expressão do subjetivismo do emissor; o do gênero narrativo na preferência para a função "referencial", orientada para o contexto objectual; o da poesia dramática na marcação da função "conativa", orientada para o destinatário (espectador). Tal distinção está baseada no fato de que algumas espécies de obras literárias focalizam a pessoa que fala, o eu do narrador (formas líricas); outras, a pessoa a quem se destina a mensagem, o tu do receptor (formas dramáticas); outras, a pessoa de quem se fala, o ele do enunciado (formas épicas e romanescas).

Essa divisão da literatura em três gêneros fundamentais é apenas paramétrica ou didática pois, em verdade, nenhum texto literário é exclusivamente narrativo, lírico ou dramático. A classificação de uma obra num gênero é feita, não pela exclusividade, mas apenas pela predominância de uns caracteres sobre outros, tanto é que não está errado falar de "romance dramático", "poema narrativo" ou "drama lírico". E, também, há outras divisões possíveis: alguns estudiosos preferem a distinção entre obras em versos e obras em prosa; outros, como Northrop Frye (Anatomia da crítica), recorrem à teoria dos arquétipos, relacionando a Comédia com o mito da "primavera", o Romance com o mito do "verão", a Tragédia com o mito do "outono", e a Sátira com o mito do "inverno". Em outras passagens da mesma obra, Frye estuda a teoria dos gêneros em seu aspecto formal, dividindo a literatura em quatro gêneros principais: o épos, caracterizado pelo ritmo da "repetição"; a prosa, caracterizada pelo ritmo da "continuidade"; o drama, caracterizado pelo ritmo do "decoro"; e a lírica, caracterizada pelo ritmo da "associação". Já Mikhail Bakhtine sugere uma distinção com base em dois princípios estéticos e ideológicos: monologismo e dialogismo (→ Dialética). As obras de estrutura e de conteúdo monológicos, caracterizadas pela univocidade, expressariam os anseios de um grupo social que acredita nos valores humanos e na possibilidade do conhecimento da verdade, bem como no triunfo do complexo de virtudes que compõem a ideologia social (ordem, beleza, justiça, amor etc.); já as obras de fundo dialógico representariam a contestação, a revolta contra a tradição estético-cultural, por estarem centradas no polimorfismo e na polifonia. Nelas predominam as formas oximóricas, os paradoxos, a irreverência, a relatividade, a descrença nos valores religioso-ético-sociais. O crítico russo sustenta a tese de que as formas e os conteúdos da arte dialógica estão ligados aos ritos e ao espírito do → Carnaval, criando, assim, outra divisão genérica da literatura: as obras "carnavalizadas", em oposição aos textos ideológicos ou conservadores. Bakhtine considera carnavalizado todo o filão das obras que contestam os valores sociais: a sátira menipea dos gregos, os poemas satíricos de Horácio, os romances em língua latina Satíricon e Metamorfoses, a coletânea de contos Decameron, do trecentista italiano Boccaccio, o romance renascentista Pantagruel e Gargantua, do francês Rabelais, o Dom Quixote, de Cervantes, e toda a grande literatura produzida pelos gênios da arte ficcional, dando particular relevo à obra do maior escritor da sua terra (A poética de Dostoievski). Tal bipolaridade pode ser percebida em outros eruditos, embora com uma terminologia diferente: o crítico italiano Umberto Eco chama de "apocaliptos" poetas e prosadores da linha contestatória, dialógica, revolucionária, e de "integrados" os escritores conservadores, que estão mais preocupados em agradar o grande público do que em denunciar os absurdos da condição humana. O filósofo alemão F. Nietzsche, na sua famosa obra Origem da Tragédia, distingue o espírito "dionisíaco" (de Dionísio ou Baco, deus da embriaguez, da desordem) do espírito "apolíneo" (de Apolo, deus da luz, da harmonia). O médico e cientista austríaco Sigmund Freud, estudando a psicologia profunda do ser humano, descobriu o princípio do id, a vontade de satisfazer as forças do instinto, os anseios individuais, em oposição ao superego, a necessidade de obedecer ao conjunto de normas impostas pela sociedade. A literatura, que não deixa de ser uma forma de antropologia, pode ter sua produção examinada e dividida a partir dessas macro-concepções da realidade. Em verbetes específicos (lírica, tragédia, romance, conto, ópera etc) verificamos as peculiaridades das várias formas literárias.

A questão do "Gênero", não é exclusiva da Literatura. Também as ciências biológicas agrupam os seres em gêneros e espécies, distinguindo humano, animal, vegetal, masculino, feminino (→ GenéticaDarwin). E a Antropologia e a Sociologia, no estudo do ser humano, evidenciam diferenças raciais e minorias discriminadas pelo sexo, pela cor, pela cultura, pelo biótipo etc. (→ EscravidãoHitler).