Dicionário de Cultura Básica/Dialética

Wikisource, a biblioteca livre
< Dicionário de Cultura Básica
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Dialética


DIALÉTICA (forma de argumentar: Diálogo em oposição ao Monólogo)

Do grego dia (prefixo "através") + logos ("palavra") + tecné (técnica), dialética significa a linguagem em movimento, o discurso, a arte de argumentar e discutir. O aspecto prático da dialética é o diálogo, que apresenta o confronto entre duas tomadas de posição, assim como foi utilizado pelos sofistas, por Sócrates, por Platão. Para o filósofo alemão Hegel (→ Idealismo), a dialética é um modo de conhecimento da realidade colhida na sua estrutura contraditória; para o sociólogo Karl Marx, o método dialético deve descer do céu para a terra, aplicado para a solução de problemas da realidade existencial, inclusive econômica, cuidando do dissídio entre os donos do poder e a classe dos trabalhadores. E a dialética não existe apenas no campo filosófico ou sociológico. A dramaturgia, desde suas origens no séc. V a.C., utiliza o diálogo como o meio mais apropriado para exprimir os problemas existenciais. O Teatro começou quando os episódios da vida do deus Dionísio deixaram de ser narrados por um único narrador (chamado de "rapsodo" na poesia épica) para serem representados por um ator dialogando com o corifeu e, mais tarde, com um segundo e terceiro ator. O interlocutor surgiu como oponente ao protagonista na representação do agon, a luta física ou intelectual. O diálogo, portanto, é a base dramática a partir da qual se desenvolveu todo o teatro ocidental.

O antônimo do diálogo é o monólogo (do grego monos, uma única voz, aquele que fala sozinho, a que os romanos deram o nome de "solilóquio"). A oposição "monológico / dialógico" passou a diferenciar duas formas de atividade artística: a obra monológica ou de inspiração apolínea, de ideologia conservadora, e a obra dialógica, imbuída do espírito dionisíaco ou "carnavalizada", segundo o estudioso russo Bakhtine (→ Crítica), de cunho revolucionário, pois contesta os valores sociais. Este dualismo estético, que é uma representação do dualismo cósmico (a oposição entre noite e dia, céu e terra, alma e corpo etc.) e que a psicanálise identifica no id e no superego (→ Freud), encontra-se bem expresso num trecho da obra Origem da Tragédia, de F. Nietzsche: "Teremos dado um grande passo e promovido o progresso da ciência estética quando chegarmos não só à indução lógica, mas também à certeza imediata deste pensamento: a evolução progressiva da arte resulta do duplo caráter do espírito apolíneo o do espírito dionisíaco tal como a dualidade dos sexos gera a vida no meio das lutas que são perpétuas e por aproximações que são periódicas".