Dicionário de Cultura Básica/Tragédia

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Tragédia


TRAGÉDIA (origem e evolução) → TeatroDramaGênero literário

De tragos ("bode") e oidé ("canto"), o termo grego tragoedia significa, literalmente, "o canto do bode", com nítida referência às festividades em honra de Dionísio (Baco), o criador da uva e o produtor do vinho. Narra o mito que, na região da Ática, o deus, por ocasião da vindima, recebia homenagens rituais em que lhe era sacrificado um bode ("bode expiatório"), acusado de comer as folhas das videiras. A parte mais importante dos rituais dionisíacos, constituídos de danças e preces, era o canto do ditirambo, apelido de Baco que significa "aquele que nasceu duas vezes" (do ventre da princesa tebana Sêmele e da coxa de Júpiter). O ditirambo era um hino religioso em que um coro de doze pessoas selecionadas ("coreutas") cantava as façanhas do deus. Aos poucos, esse canto lírico-narrativo foi adquirindo aspectos dramáticos: o coro se dividiu em duas partes, uma fazendo perguntas e outra respondendo; um corifeu passou a coordenar o canto dos dois semicoros; posteriormente, já na fase histórica da Grécia, em 534 a.C., Tépsis, o primeiro dramaturgo de que temos notícias, acrescentou um ator, chamado hipokrités (hipócrita = "aquele que finge") que, usando máscaras e vestimentas apropriadas para representar personagens mitológicas, passou a dialogar com o coro. A esse ator (protagonista) acrescentaram-se outros, dando origem ao núcleo fundamental da arte teatral, quando os episódios da vida de Dionísio deixaram de ser liricamente cantados ou epicamente narrados por um contador de histórias, para serem dramaticamente representados. A temática, que inicialmente tratava apenas de episódios do mito de Dionísio, começou a ampliar-se, sendo dramatizadas as principais histórias e lendas do cabedal cultural dos gregos: fatos referentes ao ciclo troiano (façanhas dos heróis da Grécia e de Tróia) e micênico (a tragédia de Agamenão e sua família), o mito de Édipo, de Teseu (Hipólito e Fedra), dos Argonautas (Jasão e Medéia). Chegaram até nós apenas 32 peças (sete tragédias de Ésquilo, sete de Sófocles e dezoito de Eurípedes). Forma e sentido da tragédia grega encontram-se sintetizados na definição do filósofo e crítico Aristóteles:

"É, pois, a tragédia imitação de ações de caráter elevado,
completa em si mesma, de certa extensão, em linguagem erudita
e com várias espécies de ornamento distribuídas pelas diversas partes do drama;
imitação que se efetua não por narrativa, mas mediante atores,
e que, suscitando o terror e a piedade,
tem por efeito a purificação (catar-se) desses sentimentos."

A reflexão sobre esta conceituação aristotélica da tragédia e, sobretudo, a leitura das peças, nos levam à percepção da essência do trágico, que reside numa tensão entre elementos contrários. Artisticamente, esta tensão é expressa por duas figuras de estilo: a " peripécia" e a ironia. A peripécia é definida por Aristóteles como "a súbita mutação dos sucessos, no contrário": trata-se, portanto, de uma inversão, de uma passagem repentina de uma situação para outra. A peripécia dá-se ao nível fabular, sendo a ação de uma personagem que consegue um resultado oposto ao esperado. Semelhante à peripécia é a ironia dramática, chamada também de ironia do destino: a frustração do herói trágico que vê seu plano de vida aniquilado pelos desígnios insondáveis do fado. Enquanto a peripécia é uma inversão ao nível da estrutura das ações, a ironia é uma inversão ao nível do conteúdo ideológico, pois o sentido final é o contrário do esperado.

Essas duas figuras de estilo ocultam profundas verdades existenciais. De um lado, a luta inglória do homem contra os desígnios do destino: o livre-arbítrio estiola-se contra uma força cósmica ou atávica que impede o homem de superar sua condição de mortal. Em seu afã de alcançar a divindade, o homem comete um erro fatal, um pecado de orgulho, que torna o herói um vilão, merecedor do castigo divino, conseguindo assim a degradação em lugar da melhora desejada. De outro lado e diferentemente dos revoltosos míticos (Adão, Prometeu, Sísifo, Tântalo), o herói trágico é um "culpado-inocente", porque ele não teve a intenção de cometer a maldade, mas, muito pelo contrário, sua ação visava fazer o bem. Se há culpa, ela nunca é do herói como indivíduo, mas de seus ancestrais. O filósofo alemão Hegel ressalta que, numa disputa trágica, ambas as partes opostas têm igualmente razão, pois se propõem fins legítimos em si; mas, ao tentar realizar tais fins, uma parte acaba violando o direito da outra, pois as forças são antagônicas, contradizendo-se reciprocamente.

Para entender melhor essa conceituação do trágico na Grécia antiga, é conveniente recordar a peça de Sófocles, Édipo Rei, de que já falamos no verbete Édipo. O protagonista é o típico herói trágico, pois, ao mesmo tempo, culpado e inocente: culpado porque cometeu parricídio e incesto, mas inocente porque não teve consciência dos crimes a ele imputados. Se houve um culpado, foi a própria vitima Laio, seu pai, que, em sua juventude, por ter seduzido e causado a morte de um jovem amigo, atirou sobre si e sua descendência a maldição divina. Trágico é um homem pagar pela culpa de outro, sofrer sem ter cometido pecado algum, sendo vitima de taras hereditárias, preconceitos raciais e religiosos, guerras estúpidas, injustiças sociais! Esse conceito de trágico, assim como emana do teatro grego, sofreu evoluções ao longo da história do gênero dramático.

Na Idade|Idade (→ Medievalismo), o trágico está diretamente relacionado com a religião cristã: as sagradas representações colocavam em cena episódios da morte de Cristo e do sofrimento de santos e mártires da Igreja católica, com claro fim didático e moralizante. O Renascimento italiano tentou imitar a tragédia grega, mas com pouco sucesso: o espírito alegre daquele povo naquele período histórico não favorecia a grave meditação sobre a existência humana. Mais sucesso teve a tragédia barroca na Espanha e na Inglaterra onde, ao lado da imitação dos autores clássicos greco-romanos, foram introduzidos elementos do teatro popular nacional. Lope de Vega, Calderón de la Barca, Marlowe e, sobretudo, Shakespeare elaboraram novas formas da peça trágica, lançando o verdadeiro fundamento do teatro moderno. A retomada da tragédia grega antiga teve certo êxito apenas na França, durante o neoclassicismo: Corneille e, especialmente, Racine, atendendo às reclamações dos teóricos franceses e italianos de que os dramaturgos espanhóis e ingleses não estavam observando as regras aristotélicas das três unidades (ação, tempo e espaço) e da separação dos elementos trágicos e cômicos, fizeram tragédias nos moldes antigos, tendo ilustres seguidores na Europa durante todo o século XVIII, destacando-se o conde italiano Vittorio Alfieri (1749–1803) com suas peças patrióticas e religiosas (Saul, Antigona, Maria Stuart) e o irreverente filósofo francês Voltaire (1694–1778 → Iluminismo): Édipo, Brutus, Irene.

Com o advento do Romantismo, a tragédia rompeu sua ligação com a tradição do teatro clássico, dando origem à tragédia sentimental burguesa e escolhendo como autor modelar Shakespeare. Apenas na Alemanha tivemos uma solução de compromisso com o teatro neoclássico de Lessing, Goethe e Schiller. Enfim, com o Realismo, temos o início do verdadeiro drama moderno, quando a introdução de problemas psicológicos e sociais torna-se a mola mestra do teatro. Decreta-se, assim, a morte da tragédia como forma dramática à parte, nos moldes em que havia sido cultivada pelos gregos, renascentistas e neoclássicos. As peças de Ibsen, Brecht, Pirandello, Sartre, Nelson Rodrigues não podem ser chamadas mais de "tragédias" ou de "comédias", mas apenas de dramas pois, como espelhos de vida, encerram dentro de si, de uma forma inseparável, o elemento trágico e o elemento cômico da existência humana, superando a oposição maniqueísta de tristeza e alegria.

Mas a tentação de retomar o rico filão da tragédia grega aparece, volta e meia, em alguns dramaturgos modernos: veja-se, por exemplo, O luto assenta em Electra, do norte-americano Eugene O’Neill (1888–1953), calcada sobre a trilogia Oréstia, de Ésquilo, ou Gota d’água, do poeta-músico Chico Buarque, em parceria com Paulo Pontes. Trata-se da transposição da peça Medéia, de Eurípedes, para o ambiente proletário carioca, onde o protagonista Jasão, além de trair a esposa, engana também seu povo, vendendo-se ao novo sogro, o rico Creonte, explorador da miséria de seus inquilinos. Além disso, embora sem o nome de tragédia e com técnicas dramáticas bem diferentes das do teatro clássico, o drama moderno conserva, em muitos casos, o espírito trágico grego, fundamentado na figura da peripécia e da ironia. Veja-se a análise do drama Seis personagens à procura de um autor, no verbete Pirandello. Enfim, se o princípio ideológico (o que existe apenas no desejo da sociedade, mas não na realidade cotidiana) de que o mérito reclama a recompensa e a culpa a punição está na base da obra artística de espírito "cômico", pois com final feliz (comédia, sátira, conto maravilhoso, romance sentimental), a negação sistemática dessa regra define a obra trágica, mais aderente ao real do que ao ideal. A tragédia pode ser entendida como o meio artístico mais adequado para recolher a desventura humana, assumi-la como inelutável, inerente à natureza das coisas, e justificá-la sob a forma de necessidade ou purificação.