Dicionário de Cultura Básica/Tróia

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Tróia


TRÓIA (cidade da costa asiática) → IlíadaHomeroGrécia

Capital da Tróade, região costeira da Ásia Menor, fundada por Ilo, filho de Tros, recebeu primitivamente o nome de "Ílion", daí o título do poema homérico Ilíada. Tróia foi uma das cidades mais ricas e mais importantes do mundo antigo, a ponto de dar o seu nome a um movimento cultural da época pré-helênica, "o ciclo troiano" que, para a posteridade, teve importância maior do que o ciclo minóico, tebano ou micênico, superado apenas pelo período ático da florescente Atenas, na época de Péricles, séc. V a.C. (→ Grécia). E isso porque, ao redor do fato histórico do longo assédio grego e da conquista da cidade (séc. XII a.C.), criaram-se, com o passar do tempo e por tradição oral, inúmeras lendas sobre a Guerra de Tróia, envolvendo personagens nobres e figuras mitológicas. A tomada de Tróia, em si um ato de barbárie, foi justificada pelos gregos mediante o recurso à mitologia. Narra a lenda que Hécuba, esposa de Príamo, rei de Tróia, quando estava grávida do seu 50º filho, sonhou de dar à luz um archote inflamado que incendiou a cidade. O profeta Ésaco interpreta o sonho desta maneira: Páris, o filho nascedouro dos soberanos de Tróia, será a causa da destruição do povo troiano. Para afugentar o agouro fatídico, Príamo e Hécuba decidem livrar-se do recém-nascido, abandonando-o no monte Ida. Mas o destino terá de cumprir-se: o bebê não morre, pois é encontrado e criado por pastores.

Adulto, o pastor de Ida é designado por Júpiter a ser o juiz da disputa entre três deusas, Afrodite (Vênus), Atena (Minerva) e Hera (Juno), acerca da posse do pomo da Discórdia, lançado pela deusa Eris, "para a mais bonita". Páris, desprezando o poder, que lhe oferecia Hera, e o saber, que lhe prometia Atena, entrega o pomo a Afrodite, que lhe garantia a posse da mulher mais bonita da terra. E a vontade do Fado começa a ser cumprida. Após este julgamento, o jovem é induzido a ir à cidade de Tróia para participar de um torneio em honra da memória do filho de Écuba (o próprio Páris acreditado morto), com o propósito de reaver um touro roubado pelos servos de Príamo. É reconhecido pela irmã Cassandra, profetisa, que vê no jovem o predestinado a ser a causa da destruição de Tróia. Apesar do sonho de Hécuba, da profecia de Ésaco e da premonição de Cassandra, Páris reconquista seu lugar de príncipe troiano. Afrodite, para manter a promessa, induz o jovem a viajar para Esparta. Era lá que se encontrava Helena, esposa do rei Menelau, a mulher mais bonita da Grécia, pois sua mão fora disputada por noventa e nove príncipes. Bem acolhido na corte grega, o príncipe troiano se apaixona pela linda rainha e esta por ele. Durante uma ausência do rei de Esparta, os dois fogem para Tróia. Para vingarem a desonra sofrida por Menelau, os príncipes de várias póleis gregas, antigos pretendentes à mão de Helena, por obediência ao pacto estipulado por Ulisses de defenderem a união do casal, organizam a expedição contra Tróia. Após dez anos de lutas, a cidade é destruída e Menelau retoma a posse de sua esposa Helena.

Como podemos perceber pelo mito do julgamento de Páris, a vontade do Destino acaba sempre se sobrepondo aos desejos dos homens e dos deuses: Páris não podia morrer porque estava predestinado a ser a causa da destruição de Tróia. Este mito explica por que encontramos, em todos os poemas épicos do Classicismo e da Renascença, a deusa Vênus sempre ao lado dos troianos e de seus descendentes (romanos e latinos, portugueses inclusive), enquanto Juno e Minerva defendem constantemente os interesses dos gregos. A Confederação Acaia (a união dos reis de várias póleis gregas), portanto, teria sido motivada pelo rapto da linda Helena, esposa de Menelau, rei de Esparta, por Páris, o lindo filho de Príamo, rei de Tróia. As lendas sobre personagens humanos e divinos foram povoando o imaginário popular e poetas criaram cantos dispersos, transmitidos oralmente, até que, no séc. VIII a.C., a Grécia já tendo um alfabeto, um rapsodo ("costureiro"), talvez Homero, enfeixou os vários episódios nos dois poemas que chegaram até nós: a Ilíada e a Odisséia. Após a destruição da cidade, o troiano Enéias, em busca de uma nova pátria, teria chegado até o Lácio, na Itália, dando origem ao povo romano e à cultura latina. Os episódios da Guerra de Tróia, assim como descritos na poesia de Homero, desde o séc. VIII a.C. até hoje, continuam inspirando maravilhosas obras de arte. Recentemente, o diretor alemão Wolfgang Petersen produziu uma gigantesca película com o astro Brad Pitt interpretando o papel do protagonista Aquiles, que teve um estrondoso sucesso.