Dicionário de Cultura Básica/Homero

Wikisource, a biblioteca livre
< Dicionário de Cultura Básica
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Homero


HOMERO (poeta lendário da Grécia) → IlíadaOdisséiaÉpica

Os dois poemas épicos da Grécia Antiga, a Ilíada e a Odisséia, compostos ao redor do séc. VIII a.C., foram atribuídos pela tradição clássica a Homero. A lenda envolve totalmente a figura deste poeta, pois suas notícias biográficas são fantasiosas, nenhum dado sendo historicamente provado. Basta constatar que oito cidades do mundo helenístico disputam a honra de terem sido a pátria de origem do imortal poeta. Mas, maior do que a dúvida sobre a identidade histórica de Homero (a famosa "questão homérica"), é o problema da autoria dos poemas. Foi um único escritor ou vários e em épocas diferentes? No começo do séc. XIX, o erudito alemão Fr. A Woolf (Prolegômena a Homero), influenciado pelas idéias românticas sobre o gênio criativo da coletividade nacional e baseado nas constantes repetições e nas aberrantes contradições (os famosos "cochilos" de Homero), que se encontram nas duas epopéias, lança a tese de que os dois poemas atribuídos a Homero não são senão coletâneas de vários cantos heróicos, de origem anônima e popular, transmitidos oralmente de geração para geração e redigidos pela sociedade dos "Homeristas", fundada por Pisístrato de Atenas. O argumento básico é que a escritura não era conhecida na Grécia antes do século VI a.C. A esta tese se opõe, no começo do século passado, o pensamento dos críticos positivistas que, fundamentados em descobrimentos arqueológicos, demonstraram a existência da escrita na Grécia e na Ásia Menor, antes do século X a.C., atribuindo a autoria da Ilíada e da Odísséia a um único poeta, Homero. A verdade, como sempre, está longe dos extremismos. Se, de um lado, a criação artística coletiva e anônima é um mito romântico, em que hoje ninguém pode mais acreditar, de outro lado, a análise textual dos dois poemas acusa repetições, contradições e diferenças estilísticas que levam a pensar numa originária pluralidade de autores. Ocorreu que, ao redor do século X, na Iônia, perto da Ásia Menor e berço da civilização grega, se criou uma série de lendas e de cantos épicos, no começo curtos e isolados, que tinham como núcleo central o longo assédio dos navios gregos à cidade de Tróia. Os principais heróis gregos e troianos tiveram suas façanhas enaltecidas em versos épicos, que eram recitados durante as celebrações patrióticas, as festividades religiosas e os banquetes dos cortesãos e ricos senhores. Evidentemente, muitos destes cantos se perderam e o que nos legou a tradição foram apenas dois poemas épicos. Homero, ou outro rapsodo de nome desconhecido, teve o mérito inestimável de reunir e de dar forma artística a este material épico primitivo. Que o redator da Ilíada, Homero jovem, e o redator da Odísséia, Homero adulto, como sustentam alguns críticos, ou dois poetas diferentes, como opinam outros, não inventaram os assuntos poemáticos, mas trabalharam sobre o material épico preexistente, é um fato incontestável. Encontramos, nas duas obras de arte literária, lendas recentes e antigas, poesia ritual sobre a morte e a descida aos infernos, lembranças de guerras gloriosas e do exílio dos aqueus na Ásia, mitologia contemporânea e lembranças de antigos deuses transformados em heróis e conservados com todo o aparato ritual que seu culto comportava. Já que o poeta compõe com tantos materiais diversos um poema do qual cada parte era feita para ser cantada separadamente e cujo conjunto deve ter sido composto parceladamente, deveremos espantar-nos pelo fato de encontrar essas contradições, ou o que chamamos falta de lógica rigorosa de "composição", talvez até duma unidade de estilo e de inspiração? Enfim, o mistério sobre o autor ou os autores da Ilíada e da Odisséia não fere o brilho das duas criações artísticas, cujos valores estéticos e humanos tiveram reflexos nas melhores produções literárias do Ocidente, constituindo os fundamentos da cultura humanística. Quanto ao valor educativo dos poemas homéricos, o estudioso alemão Werner Jaeger (Paidéia) tem ressaltado a grande influência da poesia épica na formação social e cultural da Grécia Antiga. Os filósofos socráticos já consideraram Homero como o educador da Grécia toda, pois na idade primitiva de um povo os valores estéticos não se separam dos valores éticos. O que os gregos chamavam de "psicacogia" é o poder da arte de estimular uma conversão espiritual: a beleza do texto literário, de uma pintura ou de uma estátua, comove os ânimos dos ouvintes ou espectadores e desperta o desejo de imitar as ações e os caracteres nobres dos heróis de sua pátria. O fator educador da poesia consiste em manter viva a lembrança da glória do passado, visto que os mitos religiosos, as façanhas e os sentimentos das personagens épicas assumem o papel de paradigmas ideológicos para qualquer situação de vida. A poesia épica representa o primeiro esforço artístico dos gregos para eternizar normas ideais. Como releva O.M. Carpeaux (História da Literatura Ocidental), o "pathos" heróico da Ilíada e a ética aristocrática da Odisséia são imagens ideais de vida, que exercem influência duradoura sobre a realidade grega. O instrumento da intenção pedagógica é a criação de exemplos ideais, tirados do mito. A presença dos deuses homéricos, que são, por definição, ideais humanos, revela não só a condição humana, mas também a capacidade dos homens de superá-la. Os gregos de todos os tempos encontraram em Homero respostas quanto à conduta da vida. Aquiles, Ulisses, Enéias (→ Eneida), entre outros heróis da epopéia grega, se tornaram protótipos humanos. O conteúdo e até a arte perderam a importância principal, considerando-se a força superior da tradição ética.