Dicionário de Cultura Básica/Carnaval

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Carnaval


CARNAVAL (Baco, dionisíaco, carnavalesco) → Dionísio

"Não me leve a mal, hoje é Carnaval"
(canção carnavalesca)

Do italiano "Carnevale", termo formado a partir da expressão do latim medieval carnem vale, que significa "adeus à carne", o Carnaval é uma festa popular bem antiga, cuja origem pode ser encontrada nas festividades para comemorar a colheita da uva, a vindima, em honra do deus do vinho (→ Dionísio), a mesma divindade sendo cultuada em Roma com o nome de Baco: as "bacantes" eram as mulheres que participavam dos ritos orgiásticos, chamados de "bacanais". Na Idade Média, com o nome de Carnaval e anualmente, os cristãos festejavam a véspera da quarta feira de cinzas, quando começava a Quaresma, os 40 dias de penitência antes da Páscoa, durante os quais era proibido comer carne. Na Terça Feira Gorda e no fim de semana que a precedia, os devotos de Cristo se esbaldavam em comer "polpette" (almôndegas), tomar vinho, dançar desenfreadamente, usando máscaras, para que as pessoas não fossem identificadas. O Carnaval reveste-se de características próprias, conforme o tempo e o lugar. Na Europa, o melhor Carnaval é o de Veneza, famoso pelo desfile e baile das Máscaras; no Brasil, sem dúvida, o Rio de Janeiro apresenta a melhor festa carnavalesca, apreciada no mundo inteiro, pelo desfile dos carros alegóricos em lugar fixo e apropriado, o sambódromo.

O Carnaval é uma forma de espetáculo sincrético, de caráter ritual, onde não há separação entre atores e espectadores, sendo vivido por todos. Durante a época carnavalesca há uma suspensão das leis sociais, das interdições morais, das regras normais de vida. Anula-se a diferença de classes e de sexos, a hierarquia, a etiqueta, e se estabelece uma nova forma de relações inter-humanas, fundada no contato livre e familiar entre todos, sem medo de sanções. A língua italiana tem uma expressão que define bem essa liberdade: nel Carnevale, tutto vale ("no Carnaval, vale tudo"), cujo equivalente em português pode ser encontrado nos versos de uma marchinha carnavalesca: "Não me leve a mal, hoje é Carnaval". Entre os atos carnavalescos que legitimam o mundo às avessas o mais importante é o rito da "entronação" bufonesca do Rei do Carnaval. Nas Saturnálias romanas elevava-se ao trono um escravo, que era servido e venerado por seus patrões. O ato ambivalente significava a relatividade de toda estrutura social, a elevação e a queda do ídolo., a profanação do sagrado, a paródia dos valores sociais. Na percepção carnavalesca do mundo são exaltadas as formas oximóricas, as mésalliances: a conjunção do masculino e do feminino, do sagrado e do profano, do alto e do baixo, do belo e do feio, do sublime e do vulgar. A identidade dos contrários e a não-identificação da pessoa é facilitada pelo uso da máscara ou da pintura do corpo com cores berrantes. Predomina o vermelho, a mesma cor do fogo e do sangue, símbolo universal do princípio da vida e da força. Junto com a cor vermelha, nos folguedos do Carnaval é prestigiada a gordura, símbolo da riqueza e da abundância. O Rei Momo é geralmente configurado como uma pessoa gorda, de faces rosadas, com um largo sorriso de prazer satisfeito. Enfim, é o id freudiano que, nos dias de Carnaval, acaba se sobrepondo ao superego que controla a vida cotidiana, liberando o uso do álcool e de roupas extravagantes, a nudez e a libido.

O espírito carnavalesco ou "dionisíaco", conforme a dicotomia apolíneo/dionisíaco, estabelecida por Nietzsche, está presente em quase todas as formas de arte, especialmente na Literatura. Sua primeira manifestação pode ser encontrada no "ditirambo", o hino em honra ao deus Dionísio: um coro de pessoas "transformadas", pois se sentem possuídas pelo espírito divino, no estado de embriaguez, perdida a noção do passado familiar, cantam e dançam, dando vazão aos instintos mais primordiais. O crítico russo M. Bakhtine, na esteira de Nietzsche, detecta a presença de duas linhas de forças que dão formas à Literatura Ocidental: uma arte, que ele chama de monológica, impregnada pelo espírito "apolíneo", onde predomina o princípio da ordem e da fidelidade aos padrões socio-morais, e outra dialógica, perpassada pelo espírito "dionisíaco" da contestação e da revolta. À essa segunda linha de força ele chama de literatura "carnavalizada", pois percebe a presença do espírito do Carnaval em muitas obras literárias ao longo da história. Coloca na mesma linha das obras de arte, que questionam a realidade, o diálogo socrático, a sátira greco-romana, a literatura picaresca, o Decameron de Boccaccio, o teatro shakespeareano, o romance realista, a narrativa de Kafka e de outros autores, dando peculiar relevo à obra de Dostoievski.