Dicionário de Cultura Básica/Kafka

Wikisource, a biblioteca livre
< Dicionário de Cultura Básica
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Kafka


KAFKA (análise de O Processo, Metamorfose, O Castelo) → Fantástico

Tema recorrente: "o desespero do homem ante o absurdo da existência"

Franz Kafka nasceu em Praga em 1883, filho de um judeu alemão, comerciante abastado, austero e autoritário. Sua formação humana e intelectual deve-se relacionar com a encruzilhada de várias culturas diferentes e conflitantes:

1) a cultura judaica, que herdou do ambiente familiar;
2) a cultura cristã da Tchecoslováquia em que viveu;
3) a cultura alemã de uma minoria dos habitantes de Praga, que apoiavam os interesses do império austro-húngaro, de que a cidade dependia politicamente;
4) a cultura tcheca da maioria no meio no qual Kafka viveu.

Enfim, o jovem Kafka sentia-se estrangeiro na sua própria cidade natal, desprezado pela minoria alemã por ser judeu e malvisto pela maioria dos praguenses, quer por ser alemão, quer por ser judeu. Mas Kafka sempre se manteve alheio à vida política e social, refugiando-se no mundo fantástico da Literatura. Suas atividades profissionais serviram-lhe como experiência preciosa para coletar o material necessário à sua ficção: o ano de estágio nos Tribunais de Praga (1906), complemento obrigatório de sua formatura em Direito, colocou Kafka em contato com os meandros da prática forense, referente do romance O Processo; o emprego em duas companhias de seguros pôs nosso autor em relação com a máquina burocrática, descrita artisticamente em O Castelo. Além da Bíblia, suas leituras preferidas foram as obras de Goethe, Dostoievski, Balzac, Dickens, Flaubert e Thomas Mann. Desde a primeira juventude, começou a dedicar-se à prática da arte da palavra, compondo pequenas peças teatrais, encenadas com a ajuda de suas irmãs. Na Universidade Alemã de Praga, onde estudou química, por poucos dias, e direito, sem nenhuma paixão, fez poucas, mas profundas amizades: Oscar Pollak, que morreu jovem, e Max Brod, que o acompanhou ao longo de sua vida, sendo seu biógrafo, testamentário e editor. Entre as numerosas obras ficcionais de Franz Kafka, publicadas postumamente e contra sua vontade, assinalamos, além de O processo, O castelo e A metamorfose, suas obras-primas, às quais daremos destaque, A construção da Muralha da China, Um artista da fome, A condenação, As investigações de um cão, América, Um médico rural, Na colônia penal. O grande problema humano de Kafka foi o sentimento de solidão espiritual, provocado por uma série de fatores: a rígida educação familiar, a fraca constituição física, a tuberculose que o acompanhou da primeira hemoptise (1917) até a morte (1924), um íntimo sentimento de culpa, o ambiente de conflitos raciais, religiosos e políticos em que vivera. Para lutar contra este sentimento de solidão, ele encontrou dois aliados: a literatura e o relacionamento sexual. O mundo fantástico da criação literária e a paixão amorosa nutrida por várias mulheres ao longo de sua vida, ora superficial ora profundamente, foram os dois refúgios que atenuaram seu sofrimento físico e espiritual. A grandeza da obra literária de Kafka reside em ter conferido dimensões universais ao seu sentimento de angústia, provocado pelo absurdo do viver social. Passamos à análise das suas três obras mais importantes:

I— O Processo:

— "Mas eu não sou culpado. Foi um erro..."
— "Correto, mas é isso que os culpados dizem"

Pela voz de um narrador onisciente, o autor conta-nos a história ficcional do último ano de vida do personagem Joseph K. Na manhã em que completa trinta anos de idade, o protagonista do romance é visitado no seu quarto de pensão por dois indivíduos que lhe comunicam que está preso. Num primeiro momento, pensa tratar-se de uma brincadeira, mas logo percebe que a acusação é séria. Os homens, que se dizem subordinados a uma autoridade superior, se negam a comunicar-lhe o motivo da detenção. K. solicita a intervenção da senhora Grubach, dona da pensão, mas esta também não pode explicar-lhe nada. Os agentes instalam-se no quarto contíguo, habitado pela senhorita Bürstner, enquanto K. se levanta da cama e se veste. Comunicam-lhe, então, que pode responder ao inquérito instaurado contra ele em liberdade, continuando sua vida normal de empregado bancário. Sua única obrigação é a de apresentar-se aos interrogatórios que se realizarão no tribunal de Justiça. Avisado pelo telefone, numa manhã de domingo, K. vai ao primeiro interrogatório: o tribunal está situado num prédio afastado do centro. Nesse estranho edifício, meio habitado por funcionários, numa sala de sessões superlotada, Joseph se apresenta ao juiz de instrução, que o confunde com um pintor de paredes. Enquanto K. pronuncia um longo discurso, tentando demonstrar o absurdo de sua detenção e a corrupção dos funcionários da justiça, na sala, um jovem estudante de direito mantém relação sexual com a lavadeira do prédio. No domingo seguinte, K. volta ao tribunal, mas não há sessão naquele dia. Trava um longo diálogo com a lavadeira, que lhe diz ser a esposa do porteiro e, por ser bonita, é obrigada a ser amante de estudantes, de juízes e de outros moradores do prédio, com a complacência do marido, temeroso de perder o emprego. Ela se oferece também a K. e lhe deixa ver os livros que estão na mesa do juiz: romances e ilustrações pornográficas. Chega o estudante Bertold e exige que a mulher fique com ele. K. conhece o porteiro, que o leva ao andar superior, onde ficam as secretarias do tribunal. O ambiente é tão fétido que Joseph desmaia. Na pensão, K. pretende travar amizade e se relacionar afetivamente com a senhorita Bürstner. Mas esta passa a morar com uma jovem alemã, de nome Montag, e evita a presença de K. No Banco, onde exerce a função de procurador, Joseph assiste ao açoitamento dos dois funcionários, denunciados por ele no tribunal por lhe roubarem suas roupas no dia da prisão. Inutilmente tenta evitar que o castigo seja consumado. Numa tarde, recebe a visita do tio Karl que, tendo sabido do processo, oferece ao sobrinho sua ajuda. Leva-o ao advogado Huld. Este está doente, mas não deixa de atender os dois no seu quarto. Enquanto o tio conversa com o doutor Huld, K. se torna amante da empregada do advogado, a jovem Leni, que lhe dá a chave da casa para ele voltar à hora que quisesse. Durante os sucessivos encontros de K. com seu advogado, este, sempre de cama, lhe faz longos discursos sobre a máquina burocrática do tribunal mas, quanto ao seu processo, nunca está em condições de informá-lo, pois ainda está aguardando o momento oportuno para redigir a petição inicial. Um industrial, cliente do banco, a par do processo que o procurador está sofrendo, aconselha K. a entrar em contato com Tintorelli, um pintor a serviço dos juízes do tribunal. Este vive num miserável cubículo, onde reina um calor insuportável. Após um disfarçado interesse pela arte do pintor, K. pede informações sobre seu processo que corre na justiça. O pintor está disposto a ajudá-lo e lhe explica que existem três possibilidades de absolvição:

1)a real, que ninguém nunca conseguiu;
2)a aparente, provisória, sob a fiança da influência de amigos dos juízes, a qual pode perder seu efeito de uma hora para outra e o acusado ser preso pela segunda vez e irremediavelmente;
3) a prorrogação ilimitada, que mantém indefinidamente o processo em sua fase inicial e obriga constantemente o indiciado a estar em contato com os juízes para captar sua benevolência. K., desanimado com o andamento de seu processo, vai pela última vez à residência do advogado para dispensar seus serviços. Lá, de noite, encontra o comerciante Block, outro cliente do doutor Huld e amante de Leni que, apesar de ter contratado mais cinco advogados e de ter abandonado seus negócios para se dedicar integralmente ao seu processo, passados cinco anos, ainda não obteve nenhum resultado. K., após uma longa discussão, despede-se de seu advogado e nunca mais volta a procurá-lo. Encarregado pelo diretor do banco de acompanhar um cliente italiano numa visita à cidade, K. marca um encontro na catedral. Mas lá encontra não o cliente italiano mas um abade, o capelão da prisão. Este lhe revela que seu processo vai mal, pois o tribunal inferior já considera sua culpa provada. Às reclamações de K. contra a Justiça, o capelão responde narrando-lhe o apólogo do homem que passou longos anos de sua vida perante a porta da lei, impedido por uma sentinela de entrar, e morreu sem ter acesso à Lei. Passado um ano do início do processo, dois agentes do tribunal de justiça, de noite, procuram Joseph K. na sua pensão e o levam para fora da cidade, junto a uma pedreira deserta. Aí, despem-no do paletó e da camisa, dobram sua cabeça numa pedra, sacam de um facão de açougueiro e o matam.

Sentido da obra

Falar do sentido de uma obra de Kafka é quase um não-sentido. O grande escritor tcheco constrói seu mundo artístico como um heterocosmo estranho, fechado à compreensão do leitor, margeando as raias do absurdo. Todavia, o crítico não pode fugir à tentação e o professor de literatura à obrigação de apresentar sua leitura do texto, muito embora sua interpretação possa ser considerada subjetiva. O importante é ater-se aos elementos fornecidos pela própria obra de arte, conjugados com dados biográficos e ambientais. A nosso ver, a chave para a explicação de O processo reside em determinar qual é a culpa de que é acusado o protagonista. Numa narrativa tradicional, especialmente na do tipo "conto popular", analisada por V. Propp (→ FunçãoNarrativa), o "dano" sofrido por uma personagem é sempre conseqüência de uma "transgressão" a uma interdição ou a uma ordem. No romance kafkiano, surpreendentemente, não é evidenciada a culpa pela qual o protagonista é punido. Segundo nosso entendimento da obra, esta culpa é o "isolamento humano". A personagem de ficção Joseph K., à semelhança da pessoa real Franz Kafka, não quer ou não consegue integrar-se no consórcio social, vivendo à margem dos valores ideológicos. A personagem reside numa pensão, que não é um lugar tópico (→ Espaço) como o lar, sem contatos com seus familiares, sem amigos, sem esposa, sem namorada. Sua profissão de procurador de um banco é exercida de uma forma metódica sem envolvimento afetivo com os colegas ou com os clientes, que esperam horas para serem atendidos. A necessidade fisiológica da relação sexual é praticada de um modo quase mecânico: uma vez por semana, à hora marcada, visita uma prostituta. Na pensão, onde vive, não se relaciona afetivamente com ninguém. Não nutre simpatia para com a dona da pensão, embora esta seja extremamente atenciosa e maternal com ele, e desconhece a existência de uma bela jovem, a senhorita Bürstner, que habita o quarto contíguo ao seu. Enfim, Joseph K. vive como se fosse um ser superior, não se integrando ao meio e não pertencendo a ninguém. É a instauração do processo contra ele que o obriga a sair de seu isolamento e a estabelecer contatos com o mundo familiar e social. Conhece a vizinha de quarto e tenta atar uma relação amorosa com ela; toma conhecimento da existência de empregados do banco, seus subalternos, nos quais antes nem sequer reparara; recebe a visita do tio, de quem aceita a ajuda; passa a conhecer o tribunal de justiça e seus funcionários; sente a necessidade da ajuda de um advogado e se relaciona sexualmente com a jovem Leni, esperando seu apoio; vai visitar outro hipotético ajudante, o pintor Tintorelli, agüentando o sótão sufocante, a malcriação impudica das meninas e as telas horríveis. Enfim, "os outros" começam a existir para ele. Mas seu esforço é inútil. Seu coração frio e vazio, sua vida de celibatário e de burocrata, sua indiferença à família, à amizade e ao amor, impedem que se integre no mundo em que vive. E a realidade exterior paga-lhe com a mesma moeda. O mundo da justiça se apresenta a ele como um labirinto sem saída e cheio de segredos indevassáveis; a religião se associa à ação vingativa da sociedade civil; o colega do banco está à espreita de sua desgraça para tomar-lhe o lugar; a jovem Bürstner vira-lhe as costas; a janela que dá para a pedreira se fecha e ele é morto "como um cão". A única personagem que demonstra nutrir verdadeira afeição pelo protagonista é a doméstica do advogado, a bela Leni. Mas esta simpatia se relaciona não com a pessoa de K. mas com a sua condição de acusado. Com efeito, ela acha bonitos todos os indiciados que procuram o doutor Huld e de todos se torna amante. Parece que a beleza que se estampa no rosto dos acusados deste misterioso tribunal, onde, por ser quase nula a possibilidade de defesa, todos os indiciados serão inevitavelmente condenados, é um reflexo da próxima dissolução do corpo, da morte iminente, do afastamento definitivo do mundo da existência. O que Leni realmente sente não é amor, mas compaixão pela triste sorte dos acusados. A relação sexual praticada por ela deve ser entendida, portanto, apenas como um meio efêmero e casual de conseguir a derradeira participação do indivíduo no grupo social. O pecado capital do herói kafkiano é a exclusão do paraíso, da terra de Canaã. O mito do judeu errante (→ Jerusalém) é transposto para a existência humana, na sua generalidade. O homem é condenado a errar no deserto do mundo, numa luta incessante e patética, porque sem esperança, contra a indiferença e o alheamento. O ser humano sente-se um estrangeiro no seu próprio habitat, porque é incapaz de compreender a existência e de se adaptar aos absurdos do viver social. O drama de Joseph K., que é um pouco o drama de todo o homem lúcido, reside na consciência de que não pode viver só e não consegue intimamente conviver com os outros. À margem dessa nossa leitura de O processo, é preciso ressaltar que o estudo da temática kafkiana, que se encontra um pouco em todas as obras do escritor tcheco e que pode ser definida como "o desespero do homem ante o absurdo da existência", tem ensejado várias interpretações. Fazemos referência às mais importantes:

a) Interpretação psicanalítica: partindo da constatação de que traços autobiográficos se encontram dispersos em todas as obras de Kafka, a crítica psicológica viu no tribunal de justiça um símbolo do autoritarismo paterno. A imagem do pai austero, intransigente, perfeccionista, de espírito prático, insensível à necessidade de afeto, teria criado na criança Franz Kafka um complexo de inferioridade e de culpa com relação ao pai, personificado no motivo literário do juiz inatingível, que vive no labirinto da corte de justiça e que condena o protagonista sem que este tenha nenhuma culpa aparente. As outras personagens do romance também seriam figuras criadas a partir do subconsciente kafkiano: a senhora Grubach, expressão artística da mãe de Franz, que com seu afeto e doçura procurara mitigar o sofrimento do jovem pela injustiça de que é vítima; Leni e as outras mulheres desenvolveriam o papel de protetoras, como as irmãs e as amantes do escritor. Enfim, o protagonista de O processo, como o de outras narrativas kafkianas, vive numa atmosfera de pesadelo, misturando elementos da vida real com figuras provenientes de seu subconsciente de artista e carregando de angústia existencial os acontecimentos corriqueiros da vida.

b) Interpretação sociológica: a obra de Kafka seria a representação artística da luta constante e inútil do indivíduo contra a máquina burocrática da vida social. O bancário Joseph K., ao ser perseguido por um tribunal misterioso, acusado de uma culpa desconhecida, denuncia o absurdo do aparelho judicial e a corrupção de seus funcionários. Mas seu grito se perde no labirinto das instituições sociais. Todos sabem que ele é acusado, embora ninguém saiba do que; todos estão dispostos a ajudá-lo, embora ninguém possa fazer nada por ele. A organização social destrói a individualidade: quem acusa, quem julga e quem condena K. não é um ser determinado, mas o sistema como um todo. Enfim, o romance kafkiano pode ser interpretado como a representação artística de qualquer crime que um grupo ou uma classe social, civil ou religiosa, possa injustamente perpetrar contra a pessoa humana.

c) Interpretação religiosa: sempre relacionando o protagonista com o autor, alguns estudiosos de Kafka insistem no simbolismo religioso desta obra. Como judeu, Kafka acredita no dogma do pecado original, pelo qual todos os homens são acusados de uma culpa que não cometeram, mas herdaram. Em face deste pecado, o único meio de salvação é a graça divina; mas Deus, simbolizado no juiz supremo da corte de justiça, é um ser misterioso, que ao homem não é dado conhecer diretamente. Seus intermediários, representados pelos juízes, advogados e funcionários da corte de justiça, são seres corruptos e ineptos, incapazes de conseguirem sua absolvição. Ao homem é concedido o livre-arbítrio (a possibilidade de K. continuar sua vida normal e defender-se como quiser), mas é fatalmente condenado porque, não havendo possibilidade de comunicação direta entre a divindade e a humanidade, a graça não pode ser alcançada. A revolta de K. no tribunal simboliza a revolta do ser humano contra Deus, que, absurdamente, além de acusar o indivíduo de uma culpa que não cometeu, nega-lhe, pela sua incomunicabilidade, o direito do esclarecimento e da defesa e a possibilidade de salvação.

d) Interpretação racial: O processo, junto com outra obra kafkiana, Na colônia penal, pode ser considerado como uma antecipação poética, uma visão profética da explosão do anti-semitismo alemão, que se dará alguns anos depois da morte do escritor judeu. O regime nazista, como a corte de justiça do romance, acusara os judeus da única culpa de pertencerem à religião hebraica e, sem possibilidade de defesa, os condenará aos campos de concentração e ao genocídio pelas câmaras de gás.

e) Interpretação existencial: num sentido mais geral, a culpa de Joseph K. reside no simples fato de existir, de estar no mundo das coisas, da realidade, em que as instituições sociais, que deveriam zelar pela afirmação dos valores ideológicos da justiça (tribunal), da fé religiosa (catedral), do amor (casamento), têm por representantes seres corruptos e insensíveis. Como na bela parábola narrada pelo capelão, a porta da lei (imagem simbólica da verdade) está guardada por uma sentinela que impede o homem de perscrutar o mistério da vida. A culpa do homem, sempiterno Adão, é seu anseio de querer comer dos frutos da árvore do conhecimento do bem e do mal, e assim comparar-se a Deus. É impossível querer compreender a existência humana porque ela é simplesmente absurda: os homens se reúnem em sociedades, criam instituições civis, militares e religiosas para sua proteção material e espiritual e são essas mesmas instituições que esmagam os homens que as criaram.

II— A Metamorfose

"Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranqüilos,
encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso"

Pela leitura desse primeiro parágrafo do texto kafkiano, o leitor já sente o impacto de um acontecimento completamente insólito, que foge a qualquer possibilidade de explicação racional. Estamos em face do tipo mais puro de fantástico, pois, além da impossibilidade de uma explicação científica, falta também a eventualidade de uma explicação de ordem religiosa ou mágica, como acontece na literatura fantástica anterior a Kafka (→ Fantástico). O protagonista do conto A Metamorfose é um sujeito paciente e não agente, porque apenas sofre as conseqüências de uma fatalidade: a mudança da forma de homem para a de um inseto monstruoso. Ele possui a tipicidade de um herói trágico, porque é vítima da crueldade do destino, que o submete a um processo de degradação, a sua revelia e sem que ele tenha culpa alguma Esse contraste de um destino trágico atribuído a um homem comum é ainda mais surpreendente se considerar que a metamorfose sofrida é um ato gratuito, pura obra do acaso, sem nenhuma motivação, nem sequer de ordem divina, como, por exemplo, a ação do Fado na tragédia grega que determina que tal coisa tem de acontecer, independentemente da vontade humana. Na situação inicial da trama, o sujeito Gregor encontra-se numa situação de "dano", segundo o modelo funcional de V.Propp, da espécie de insetização, uma variante do processo de animalização, sem que se saiba a causa da desgraça. Tal dano, porém, não é total porque Gregor Samsa ainda goza dos semas humanos do pensar e do sentir. É por isso que pode se perguntar: "o que aconteceu comigo?" Gregor descarta a hipótese do pesadelo ou alucinação porque reconhece o seu espaço vital: as paredes de seu quarto, os móveis, as amostras de fazendas. Mas o desejo de que aquela deformação seja passageira o persegue por um bom lapso de tempo: olhando os minutos que passam no despertador, esforça-se em sair da cama para apanhar o próximo trem, que o conduziria ao trabalho habitual. Ele sente o orgulho de ser o único sustento de sua família, composta dos pais e de urna irmã de dezessete anos, que toca violino. A finalidade de sua vida é acabar de saldar uma dívida contraída pelo pai e pagar o conservatório da irmã Grete. O emprego de vendedor de urna firma de tecidos permite-lhe alcançar tal objetivo; por isso está apegado a ele com extrema devoção. Funcionário exemplar, sempre dera o melhor de si e nunca atrasara sequer um minuto no exercício de sua função. Daí sua mágoa quando, naquela fatídica manhã, por ter atrasado menos de uma hora, o inspetor chegara a sua casa e, por não ter aberto a porta de seu quarto imediatamente, o chamara de relapso, lançando inclusive a suspeita de ladrão, pois a firma lhe havia confiado um lote de amostras de fazenda. E quando Gregor, após esforços dolorosos, conseguiu sair da cama, abrir a porta e revelar sua nova forma de inseto enorme, eis que o inspetor fugiu atemorizado e nunca mais a firma onde trabalhava se interessara por ele, abandonando-o completamente ao seu destino. A atitude de sua família não é muito diferente. O pai, a pontapés, o obriga a voltar para seu quarto, fechando a porta pelo lado de fora. A mãe passa semanas sem ver seu filho, mais por falta de coragem do que de afeto. Apenas a jovem Grete sente compaixão pelo irmão desgraçado e, duas vezes por dia, entra em seu quarto para fazer a limpeza e dar-lhe comida. Gregor, para tornar menos repugnante o trabalho da irmã, toda vez que percebe sua chegada, esconde-se de baixo do sofá. Grete retribui a delicadeza do irmão tentando descobrir a espécie de comida de que Gregor gosta mais. Mas essa relação afetiva entre os dois irmãos dura pouco tempo, deteriorando-se por causa da falta de comunicação. Gregor compreende tudo o que se passa ao seu redor, mas não consegue fazer-se entender. A irmã, por sua vez, nem sequer imagina que aquele inseto descomunal possa ter inteligência e sentimentos humanos. Assim, na tentativa de se ajudar, acabam se desentendendo e magoando-se mutuamente. Grete, percebendo que Gregor gosta de subir pelas paredes e pelo teto do quarto, começa a remover móveis e quadros com a intenção de aumentar o espaço livre. Mas isso desagrada Gregor, que vê alterado seu hábitat. Para que a irmã entenda seu desapontamento, sai do quarto e vai para a sala. Mas seu aparecimento nesse ambiente acaba apavorando a mãe, que desmaia. O pai chega e, furioso, encurrala o filho outra vez para o quarto, lançando-lhe maçãs, como se fossem pedras. Uma maçã se lhe incrusta no pescoço e lá acaba apodrecendo. Gregor sente-se cada vez mais rejeitado e abandonado pelos familiares. Em face de sua desgraça, os integrantes da família Samsa são obrigados a providenciar o próprio sustento, dando um novo ordenamento à economia doméstica: o pai, que, após uma falência, acontecida anos atrás, vivia sem fazer nada e constantemente adoentado, consegue um emprego de guarda num banco; a mãe intensifica seus trabalhos manuais; a irmã começa a trabalhar de garçonete; uma parte da residência é alugada para três hóspedes. A constatação de que a família pode prescindir de seu auxílio, até então o único esteio da casa, faz com que Gregor passe a se sentir inútil, e sua presença naquela família torna-se perfeitamente dispensável. Esse motivo, aliado ao abandono a que é relegado devido ao trabalho da irmã e à ocupação de parte da casa pelos inquilinos, aos quais deve ser escondida a existência daquele inseto asqueroso, provoca em Gregor um vazio existencial: passa a recusar a comida quase sistematicamente. E quando, além de inútil, começa a se considerar também nocivo a sua família, ele se entrega à morte. Com efeito, é encontrado falecido na manhã seguinte ao desagradável acontecimento de sua entrada na sala de visitas para ouvir a música tocada pela irmã. Também com referência a esse episódio, a intenção da ação de Gregor era a melhor possível, mas seu resultado é catastrófico. Uma noite, tendo a empregada esquecido de trancar a porta de seu quarto, Gregor vai até o corredor para ouvir Grete tocar violino. Ao perceber que os três inquilinos faziam pouco caso da irmã, fumando e conversando durante a execução da partitura, ele avança até a sala e chega perto da irmã para lhe demonstrar sua solidariedade, querendo que ela entenda que seu irmão, pelo menos, está adorando a música. Mas o resultado é o contrário do esperado: os hóspedes, ao perceberem a presença daquele inseto medonho e sujo na residência, revoltam-se contra o dono da casa e vão embora sem pagar a pensão. Tal peripécia constitui a gota d’água que faz transbordar o copo das relações de Gregor com seus familiares. A própria irmã, até então a mais compassiva em relação à terrível desgraça acontecida a Gregor, não compreendendo as boas intenções da atitude do irmão, decide que não vai suportá-lo mais. Consome-se, assim, a tríplice degradação a que é submetido, sucessivamente, o protagonista do conto: a degradação física, pela deformação de seu corpo; a degradação funcional, pela perda do emprego; a degradação afetiva, pelo completo abandono a que o relega a família. No dia seguinte ao repúdio da irmã, a empregada encontra Gregor morto e dá um jeito naquele inseto estranho e repugnante. A família recupera sua tranqüilidade e os três podem, finalmente, sair juntos a passeio, sem preocupação alguma, fazendo planos para um futuro melhor.

A fábula de Gregor Samsa é contada por um narrador onisciente que fala em terceira pessoa, situando-se o foco narrativo "por detrás" dos personagens, especialmente do protagonista. Tal focalização, embora volta e meia modificada pela fala dos personagens que se exprimem pelo discurso direto, constitui a perspectiva principal dessa narrativa, que apresenta os episódios de um ponto de vista objetivo, como se a metamorfose de Gregor não fosse um fato ocorrido na imaginação, mas algo que realmente aconteceu. Tal impressão é reforçada pelo aspecto descritivo desse conto kafkiano. As descrições do ambiente e das características físicas e espirituais das personagens, especialmente do protagonista, são tão precisas e minuciosas que apresentam a ficção fantástica como se fosse pura realidade. Veja-se, por exemplo, a descrição da nova forma corporal de Gregor Samsa:

"Estava deitado sobre suas costas duras como couraça e,
ao levantar um pouco a cabeça, viu seu ventre abaulado,
marrom, dividido por nervuras arqueadas, no topo do qual a coberta,
prestes a deslizar de vez, ainda mal se sustinha.
Suas inúmeras pernas, lastimavelmente finas,
Em comparação com o volume do resto do corpo,
Tremulavam desamparadas diante de seus olhos"

Efetivamente, o que mais impressiona na ficção de Franz Kafka é a apresentação de um fato absolutamente absurdo descrito com a maior naturalidade. Perante a inexplicável transformação de um homem num inseto descomunal, os familiares, a empregada doméstica os hóspedes da casa, o próprio sujeito da metamorfose, ninguém, enfim, se pergunta como tal acontecimento foi possível. Pelo contrário, o fato é aceito naturalmente, como se se tratasse de uma doença comum, de uma desgraça qualquer. É que para Kafka o absurdo não é estranho, nem extraordinário, porque faz parte integrante da própria existência humana. Vivemos num mundo absurdo, esmagado pela burocracia das instituições sociais, pelas leis que não podem ser cumpridas, pela incomunicabilidade entre as pessoas. E é esse absurdo que Kafka tenta expressar em forma de arte, através do recurso a símbolos e a parábolas. Otto Maria Carpeaux considera Kafka como "um dos maiores criadores de símbolos". Outro estudioso do escritor checa, Günther Anders, especifica a peculiaridade do simbolismo kafkiano: "O que ele traduz em imagens não são conceitos, mas situações. As pessoas que Kafka faz entrar em cena são "arrancadas" da existência humana. Muitas, de fato, não são outras coisas senão funções: um homem é mensageiro e nada mais que isso; uma mulher é uma "boa relação" e nada mais que isso. Mas este "nada mais que isso" não é uma invenção kafkiana; tem seu modelo na realidade moderna, na qual ele "é" sua profissão, na qual a divisão do trabalho o torna mero papel especial". E o que representa Gregor Samsa senão um homem engolido pela sua profissão de caixeiro-viajante? Sua redução a inseto é o símbolo, a imagem poética, do esmagamento do indivíduo pelas forças sociais. O contraste entre a consciência do protagonista da Metamorfose de que ele é indispensável ao sustento da família e o fato prático que demonstra que ele é perfeitamente dispensável acabam desferindo um golpe mortal à tradição literária do herói salvador, o homem poderoso que defende os valores ideológicos. O herói kafkiano é essencialmente um homem comum, um ser insignificante, mais vítima passiva das instituições ético-sociais que agente capaz de modificar uma situação injusta e desagradável. Mais ainda: quando o indivíduo se sacrifica em benefício de um grupo social, tomando apenas para si funções que deveriam ser distribuídas entre todos, sua ação chega a tornar-se prejudicial ao progresso do grupo. É o que acontece com Gregor Samsa que, ao assumir sozinho o encargo de sustentar a família, acaba determinando a acomodação dos pais e da irmã, que viviam todos às custas do seu trabalho. Com a desgraça de Gregor, tal situação se modifica, pois seus familiares são impulsionados à ação, saindo do torpor em que estavam. O pai assume um emprego simples, mas que lhe dá orgulho e satisfação, fazendo-o inclusive rejuvenescer. A irmã aparece aos olhos dos pais não mais como uma menina, mas já uma moça à espera de marido, em virtude da nova função que está exercendo. Eles agora não dependem mais da vontade de Gregor: podem planejar a mudança para um outro apartamento, menor, mas mais moderno e melhor localizado. Tal inversão de perspectiva, pela qual a pessoa que ajuda acaba, sem querer, prejudicando as pessoas que ama, é altamente irônica. Lembramo-nos da famosa expressão de Pirandello: "Se nos fosse dado prever todo o mal que pode nascer do bem que pensamos fazer!". Aliás, o tema da ironia na obra de Franz Kafka mereceria um estudo à parte, porque, subliminarmente, quase toda a ficção kafkiana é profundamente irônica, visto que a maioria das personagens de seus contos e romances é constituída por seres postos em face de situações inexplicáveis e impossíveis de serem resolvidas.

III — O Castelo

"Quem sou eu pois"

No romance O Castelo, o agrimensor K. chega uma noite num vilarejo governado por um senhor que vive num castelo sobre a colina. O protagonista do romance quer estabelecer-se nas terras do senhor e lá exercer sua profissão. Mas é impedido pela hostilidade dos moradores do burgo e dos burocratas do castelo, que lhe dificultam a chegada até o dono. K. seduz a jovem Frieda, amante do poderoso funcionário Klamm, com a intenção de penetrar nos meandros da vida da burocracia castelana. Mas a moça se desinteressa por ele e K. se sente outra vez sozinho e sem forças para chegar até o dono do castelo. Ele acaba perdendo até a noção da própria identidade. Simbolicamente, o romance representa a luta do indivíduo na tentativa de integrar-se numa comunidade; ou do judeu que quer ser bem-aceito pelo povo que o hospeda; ou do homem comum que luta para obter um trabalho e um lar, condição indispensável para tentar a escalada até Deus. O tema da xenofobia predomina nessa obra kafkiana, onde a incomunicabilidade humana, provocada pelo egoísmo grupal, é a causa maior da angústia existencial.

O agrimensor K de O Castelo apresenta muitas semelhanças com o bancário Joseph K. de O Processo e com o caixeiro-viajante Gregor Samsa da Metamorfose. Estes três protagonistas nos fazem captar a peculiaridade do fantástico de Franz Fafka, que reside na descrição artística do desespero do homem ante os contrastes irredutíveis da existência. Para uma definição tipológica, poderíamos chamar o fantástico kafkiano de "fantástico absurdo", pois as situações em que ele coloca suas personagens são física, lógica e eticamente inexplicáveis, visto que a própria vida, o comportamento inter-humano é um mistério incompreensível, uma estupidez logicamente insustentável: os homens, que se agrupam em sociedade para tornar sua vida mais confortável, tomados pelo egoísmo individual ou de grupo, tentam por todos os meios oprimir os outros, sem refletir sobre o fato de que ninguém pode ser feliz no meio de uma desgraça comunitária. No dizer do crítico Otto Maria Carpeaux: "o inefável é símbolo de um irrealizável, da integridade moral da personalidade humana. A Lei não pode ser cumprida: somos culpados e fatalmente condenados. Aquele mundo demoníaco é nosso mundo, o mundo das ruas e casas misteriosas da Praga gótica de todas as cidades, regido por uma lógica estranha de motivos e de acontecimentos; lógica que parece absurda por fora, mas que é por dentro de uma coerência absoluta que nos assusta como a inevitabilidade do destino humano. Eis o assunto das parábolas de Kafka". O adjetivo "kafkiano", passou a indicar, na maioria das línguas ocidentais, algo de estranho, de apavorante, de ilógico, de burocraticamente tortuoso.