Dicionário de Cultura Básica/Função

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Função


FUNÇÃO (ação integrada) → NarrativaFormalismoMito

Num texto literário tudo é funcional, pois significativo,
e tudo é significativo, pois é funcional

Do substantivo latino functionem, função é uma ação, a execução de um encargo visando alcançar um objetivo. Neste sentido amplo, o termo é usado por quase todas as áreas do conhecimento humano, evidentemente com sentidos peculiares (funções matemáticas, físicas, biológicas, decorativas etc.). No campo da Lingüística, o estudioso russo Roman Jakobson encontra uma estreita relação entre os fatores da Comunicação e as funções da Linguagem, estabelecendo seis correspondências: l) ao fator "remetente", o eu que fala, corresponde a função emotiva, a expressão subjetiva de uma idéia ou sentimento; 2) ao fator "destinatário" está correlata a função conativa, que tem o fim de atingir o receptor; 3) o fator "contexto" tem como correspondente a função referencial da linguagem, que indica o dito ou o feito e suas circunstâncias; 4) ao fator "contato" está relacionada a função fática, que visa estabelecer a comunicação entre emissor e receptor; 5) ao fator "código" corresponde a função metalingüística, que estabelece o meio de comunicação a ser usado; 6) o fator "mensagem", em fim, está relacionado com a função poética da linguagem, que atua sobre as próprias palavras, dando a elas multivocidade e sentidos conotativos.

Já o conceito de função usado por outro estudioso russo, o formalista V. Propp (→ Formalismo), diz respeito não à Lingüística, mas à Narratologia, ao estudo dos contos de fada, especialmente à estrutura do plano do enunciado, ao conjunto dos fatos que ocorrem numa obra do gênero narrativo. A publicação de sua obra, Morfologia do conto, em 1928, constitui um marco fundamental na história da análise do texto literário, substituindo a abordagem externa pela interna. Estudando um corpus de cem narrativas populares, encontrou elementos comuns e invariáveis, ao lado de outros variáveis e peculiares de cada conto. Os primeiros, que ele denomina "funções", ligados entre si pela relação causa / efeito, constituem o arcabouço da fábula de qualquer obra do gênero narrativo. Para Propp, função é "a ação de uma personagem, definida do ponto de vista de seu significado no desenrolar da intriga". Deduz-se, então, que toda função é uma ação, mas a recíproca não é verdadeira porque, para ser considerada uma função, a ação de uma personagem deve estabelecer relações de causa ou de efeito com outras ações distribuídas ao longo do eixo sintagmático de um romance, de um conto ou de um poema épico. O formalista russo inventariou 31 funções, que são as ações-chave relacionadas entre si, encontráveis em todos os contos populares, nas narrativas escritas para as massas, que gostam de uma história linear, que tenha um começo, um meio e um final feliz. As funções principais são: o afastamento; a proibição, que leva à transgressão; o dano, que leva à reparação; a luta; a vitória; o castigo do vilão; o prêmio do herói.

Analistas e críticos literários posteriores alteraram o modelo funcional de V.Propp para adaptá-lo ao estudo de narrativas mais complexas, uns reduzindo o número das funções, outros ampliando o conceito de função. O semioticista francês AJ.Greimas reduz o número de funções a 20, através do acasalamento: operando sobre o caráter binário das funções, acopla em duplas todas as funções que possuem uma interação, que se implicam mutuamente. Exemplos: interdição/violação, luta/vitória, partida/retorno etc., operando mais sobre o eixo paradigmático (usando o princípio da similaridade, o chamamento à distância) do que o sintagmático (a contigüidade das funções). Outra contribuição importante de Greimas ao modelo proppiano é o arranjo das funções em três categorias: as funções contratuais, as que dizem respeito ao estabelecimento ou à ruptura do contrato entre o indivíduo e o grupo social (ordem/transgressão; reparação do dano/prêmio); as funções performanciais, as que compreendem as três provas a que o herói é submetido: a prova "qualificante" (funções: tarefa/resolução) tem como conseqüência o recebimento de uma ajuda para enfrentar o inimigo, a prova "principal" (luta/vitória) leva à reparação do dano e a prova "glorificante" (tarefa/êxito) permite o reconhecimento do herói e a sua premiação; enfim, as funções disjuncionais estão relacionadas com o deslocamento no espaço, o ir e vir das personagens e a alienação, seguida da reintegração na sociedade, do objeto-valor que estava na posse do inimigo. Já Roland Barthes, na sua reelaboração do modelo funcional de Propp, segue uma démarche oposta à de Greimas. Enquanto este se inclina para a condensação, Barthes está interessado na expansão do conceito de função. Partindo do princípio de que numa narrativa tudo é funcional, na medida em que tudo significa por ser tudo correlato, o estruturalista francês considera a alma da função como seu germe, susceptível de fecundar e dar seus frutos. Ele alarga o conceito de função, atribuindo funcionalidade não só às ações das personagens, mas a qualquer elemento narrativo que, por sua correlação com outro elemento, possa tornar-se significativo. Junto com outro estruturalista russo enraizado na França, T.Todorov, Barthes redefine assim a função: "a significação (isto é, a função) de um elemento da obra é sua possibilidade de entrar em correlação com outro elemento desta obra e com a obra inteira". Acrescenta, então, uma nova classe de funções à inventariada por V.Propp, estabelecendo dois grupos: l) as funções "distribucionais", subdivididas em núcleos (ações principais) e catálises (ações secundárias), correspondentes às definidas por Propp, distribuídas no eixo sintagmático conforme o princípio da contigüidade e a figura retórica da metonímia, indicando o "fazer" das personagens; 2) as funções "integrativas", subdivididas em índices (elementos paramétricos com investimento semântico) e informações (elementos dispensáveis cuja função principal é apenas conferir um aspecto de realidade à ficção). Os índices são unidades que remetem a outros elementos no eixo paradigmático, estabelecendo chamamentos à distância. Não precisa dizer que os estudos desses formalistas e estruturalistas são de importância fundamental para a análise e a interpretação do texto narrativo → Crítica.