Dicionário de Cultura Básica/Texto

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Texto


TEXTO (estudo da obra literária: intratexto, intertexto, extratexto) → Crítica

A palavra "texto" deriva do termo latino textum, cujo radical tec deu origem a vários cognatos (tecido, têxtil, textura, tecelagem), significando um produto composto pelo entrelaçamento de uma multiplicidade de fios ou um conjunto de elementos entrelaçados, intrigados. No campo da linguagem escrita, a palavra texto passou a indicar um conjunto de palavras relacionadas entre si para produzirem um sentido, podendo compor uma frase, um trecho ou um livro inteiro. Enfim, qualquer escrito é um texto: uma carta de amor, um documento, um anúncio de propaganda, um artigo, um livro etc, podendo-se falar de texto histórico, jurídico, científico, jornalístico, literário (Romance, Conto, Drama, PoemaPoesia).

O primeiro estudioso do texto poético foi o sábio grego Aristóteles, que se debruçou sobre as obras de arte literária, até então produzidas (poesia épica, lírica e dramática), tentando descobrir os elementos estruturais de cada gênero. Referindo-se especificamente à Tragédia, que é a obra mais abrangente, pois utiliza os recursos de várias artes, no seu tratado Poética, ele individualiza seis elementos estruturais considerados como os componentes de qualquer objeto artístico: 1) Mythos, o Mito ou a fábula, que é a história ficcional, o conjunto dos fatos narrados, as ações; 2) Éthos, o caráter da Personagem que vivem a história contada; 3) Diánoia, o pensamento reflexivo do narrador principal ou de outras personagens que manifestam seu ponto de vista sobre os acontecimentos; 4) Léxis, que é a elocução, o discurso, a linguagem usada pelas personagens para expressar idéias e sentimentos; 5) Ópsis, de onde vem "ótica", o elemento visual, o espetáculo que nos proporciona a mise-en-scène da peça teatral; 6) Melopéia, de onde veio "melodia", o acompanhamento musical e canoro, que era o principal ornamento da tragédia grega, ainda hoje observável na execução de uma Ópera. A reflexão sobre esses seis elementos constitutivos da tragédia grega possibilita o descobrimento de seis níveis para a análise interna de qualquer tipo de texto:

Nível fabular: o estudo do mito, da fábula, da história ou conjunto dos fatos narrados, estabelecendo a diferença entre situação e ação, núcleo fabular e catálise, índice e informação, tipologia de seqüências narrativas.

Nível atorial: o estudo da personagem que vive a história, quer no que diz respeito ao seu " fazer" (a função que ela exerce na narrativa, determinada por suas ações e relacionada com o fazer das outras personagens), quer ao seu "ser" (as qualificações que ela recebe e que nos fornecem seu perfil biopsíquico).

Nível reflexivo: os comentários tecidos pelas personagens sobre o sentido dos fatos que estão acontecendo ou considerações gerais sobre a vida humana ou os fenômenos da natureza.

Nível discursivo: além de estudarem-se os vários sujeitos do discurso que aparecem ao longo do texto literário (o problema do "foco narrativo"), analisam-se também as figuras de estilo, os desvios que a linguagem poética opera em relação à linguagem comum.

Nível descritivo: a apresentação do cenário onde as personagens realizam suas ações, envolvendo as categorias estruturais do tempo e do espaço. As descrições podem ser de ordem exterior (paisagens, decorações de ambientes, vestuários etc.) ou interior (características psicológicas).

Nível fônico: é o estudo dos elementos sonoros que podem aparecer num texto: o exame desse nível é fundamental nas obras compostas para serem representadas (teatro da Ópera) ou cantadas (canções populares) e nas formas poemáticas de esquemas fixos, como o soneto, por exemplo, em que podemos relevar os elementos do estrato fônico: rimas, aliterações, onomatopéias etc.

Em qualquer texto literário podemos encontrar os seis elementos apontados acima que, intrigados, compõem sua estrutura. As diferenças genéricas e específicas de um texto para outro estão relacionadas com a predominância de alguns elementos constitutivos em detrimento de outros. Assim, por exemplo, enquanto um romance apresenta acentuadamente o nível fabular e atorial (a riquezas de ações exercidas por muitas personagens), um poema é mais rico em elementos sonoros e em intensidade semântica. Mas isso não quer dizer que num poema, mesmo pequeno, não possamos encontrar, embora de uma forma diminuta, todos os elementos estruturais descritos acima: o nível fabular (a história de um sentimento), o nível atorial (o sujeito do enunciado e sua amada), o nível discursivo (o eu poemático como sujeito da enunciação e as figuras de estilo: metáforas, metonímias etc.), o nível reflexivo (considerações sobre um estado de alma), o nível descritivo (elementos espaciais e temporais), o nível fônico (rimas, acentos etc.). Por isso, é lícito afirmar que um poema é um romance condensado e, vice-versa, um romance é um poema diluído. Outros estudiosos distinguem num texto o "plano da enunciação" ou do discurso, referente ao emissor e ao receptor da mensagem (Discurso → Narrador), do "plano do enunciado" ou da história, os fatos acontecidos (Mito → Personagem). Quanto ao aspecto da "intertextualidade", veja-se o verbete → Crítica.