Dicionário de Cultura Básica/Conto

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Conto


CONTO (história ficcional curta) → Gênero literário → FábulaNarrativa

"A história está acabada e sua boca cheia de marmelada!"

Do latim "contare", a palavra conto significa a narração de uma história, tendo semelhanças com outras formas do gênero narrativo: romance, novela, crônica Tentando salientar as peculiaridades desta forma de narratividade, distinguimos, antes de tudo, o conto popular, de fada ou maravilhoso, de origem anônima e coletiva, do conto erudito, elaborado artisticamente por ficcionista profissionais.

I — Conto maravilhoso

Forma mais universal de transmissão da cultura de um povo, ainda na fase da oralidade, o conto popular ou feérico documenta usos, costumes, fórmulas jurídicas, folclore, etc. Reflete as inclinações do ser humano para o maravilhoso, como se este fosse natural, sonhando com a bondade, a justiça, a verdade, a beleza física e espiritual, o amor romanticamente vivido. Expressão da psicologia coletiva, tem como disposição mental uma ideologia conformista: as coisas se passam como nós gostaríamos que acontecessem, sempre com o triunfo do bem sobre o mal. O julgamento moral da massa popular é absoluto porque sentimental, em contraste com o mundo da realidade, que é trágico, porque o que deveria ser geralmente não é. Rompendo as barreiras do real, o conto popular desafia a própria morte: o casal de jovens apaixonados, após superar vários obstáculos, será feliz para sempre. E isso porque, se não morreu na história ficcional, é de se deduzir que ainda vive no desejo dos ouvintes, espectadores ou leitores.

Sob a denominação de conto popular, de fadas ou da carochinha, agrupam-se inúmeras narrativas de temas e motivos os mais variados. Apresentar uma classificação coerente é tarefa quase impossível. Uma tentativa que obteve certo êxito foi a do estudioso alemão Antti Aarne, cujo catálogo foi traduzido e aperfeiçoado pelo inglês Smith Thompson, no início da década de 1930. 0 método Aarne-Thompson individualizou 2 499 motivos, dividindo as narrativas em três grupos gerais com várias subdivisões: contos de animais; histórias populares; e gracejos e anedotas. No Brasil, um especialista do assunto, Luís da Câmara Cascudo, autor do famoso Dicionário do folclore brasileiro, apresenta uma outra classificação temática: 1) contos de encantamento, histórias de fadas, da carochinha e de magia, onde predomina o elemento sobrenatural; 2) contos de exemplo, com intenção moralística; 3) casos edificantes; 4) contos de animais: as fábulas; 5) contos religiosos, com a intervenção divina; 6) contos etiológicos, sobre a origem de objetos ou de costumes; 7) contos de adivinhações; 8) contos acumulativos, casos de intertextualidade, de contos de nunca acabar, de travalíngua; 9) facécias, anedotas e patranhas; 10) natureza denunciante: um ato criminoso é revelado por um elemento natural; 11) demônio logrado: a vitória sobre o princípio do mal; 12) ciclo da morte. Na Europa, o interesse pelo conto popular teve início com o neoclássico La Fontaine (→ Fábula). Além de retomar o gênero fabulístico da tradição greco-romana (Esopo e Fedro) e o gênero novelístico medieval da escola toscana (Decameron, de Boccaccio), ele reelaborou o belíssimo conto popular de "Amor e Psique", que se encontra no Asno de ouro, de Apuleio (→ Metamorfoses), dando-lhe o título de Histoire de Psyché. Mas trata-se de trabalhos realizados a partir de fontes eruditas. É com Charles Perrault (1628–1703) que o conto passa a ser estudado na sua origem popular. Ele coletou e redigiu as histórias para crianças contadas pelas amas (Contos de Mamãe Gansa). Na época do Romantismo, especialmente na Alemanha e em oposição ao Classicismo, foram valorizadas as forças vitais e a beleza própria da realidade popular nacional. Especificamente quanto ao conto popular, lembramos as pesquisas filológicas dos irmãos Grimm que, de forma semelhante à do francês Perrault, coletaram e redigiram um grande número de histórias para a infância e adolescência. Mas o pai da literatura infanto-juvenil européia é considerado o escritor dinamarquês Hans Christian com seus Contos, publicados entre 1835 e 1872. Numa sua narrativa encontra-se a passagem humorística que se tornou famosa: "Mas o Imperador está pelado", chorou a criancinha. Também contribuiu decisivamente para despertar o interesse pela literatura infanto-juvenil a tradução em línguas européias de coletâneas de contos orientais, a partir do início do século XVIII: As mil e uma noites, Aladím e a lâmpada maravilhosa, Símbad, o marujo, Ali Babá e os quarenta ladrões. No Brasil, neste gênero, sobressai a estraordinária figura de Monteiro Lobato.

O conto popular tem em comum com as demais formas simples de narratividade as características de antigüidade, oralidade, anonimato e persistência. O que distingue essa forma narrativa de outras é o caráter de internacionalidade. O mistério da presença das mesmas histórias em países geograficamente muito distantes, em épocas anteriores à descoberta da imprensa e com meios de comunicação muito precários, é um desafio à inteligência dos estudiosos do assunto. Trata-se de transmigração ou devemos pensar na existência de um fundo arquetípico universal? A história de Chapeuzinho Vermelho, por exemplo, é contada para as crianças da Itália, da Alemanha, da Rússia, da China, do Brasil. Embora existam variantes regionais devido à diferença do ambiente mesológico (flora e fauna), da linguagem e de usos e costumes, o conteúdo temático permanece o mesmo. As semelhanças genéricas e as diferenças específicas das narrativas feéricas encontram-se analisadas na obra Morfologia do Conto, do formalista russo Vladimir Propp (→ MitoFunçãoNarrativa).

Quanto à sua estrutura, a narrativa popular apresenta peculiaridades inerentes às suas características de anonimato e de oralidade. Além de não conhecermos o nome do autor e do narrador, também as personagens que vivem os fatos são inominadas. São identificadas por uma competência interiorizada, pela função que exercem ou por atributos: o príncipe, o caçador, a fada madrinha, a bruxa, cinderela, o lobo. Tal indeterminação atinge também as categorias do tempo e do espaço. Não aparece o nome dos países ou das cidades onde os fatos acontecem. A fórmula "Era uma vez...", além de assinalar a entrada no mundo mágico da ficção, remete a um tempo indefinido, eterno, que pode ser o pretérito, o presente ou o futuro, pois o passado mítico se renova constantemente, tornando-se paradigmático. O processo da enunciação dá-se in praesentia: o contador de histórias dirige-se diretamente aos ouvintes, usando não apenas o código lingüístico, mas também o cinético (movimentos corporais miméticos), o dramático (encenações), o fonético (variedade de entoações). De outro lado, o receptor participa ativamente da transmissão da mensagem através de perguntas e comentários ou fica tão atento que interrompe as atividades mais elementares, como a de comer. Um conto infantil alemão termina assim: "a história está acabada e sua boca cheia de marmelada"!

II — O Conto erudito

Duas características principais distinguem o conto literário, que denominamos erudito ou culto, do conto popular: ele é produzido por um autor historicamente conhecido e refere-se a um episódio da vida real, não verdadeiro porque ficcional, mas verossímil, ou seja, o fato narrado não aconteceu no mundo físico, mas poderia acontecer. Embora seja possível apontar exceções de contos fantásticos, com recurso ao sobrenatural, escritos por autores famosos (Hoffman, E.A.Poe e outros), a regra do conto erudito é ater-se ao real, não fugindo do principio da verossimilhança, pois a atitude mental que dele se depreende não é idealizar, mas contestar os valores sociais. O conto erudito distingue-se do romance e da novela por ser uma narrativa curta. Com muita propriedade, a língua inglesa denomina o conto de "short story". Ele possui todos os ingredientes do romance, mas em dose diminuta. O foco narrativo geralmente é único: centrado ou no narrador onisciente ou numa personagem. A fábula é reduzida apenas a um episódio de vida. As personagens são pouquíssimas, três na maioria dos casos, constituindo o famoso triângulo amoroso. A categoria do espaço está reduzida a um ou dois ambientes. O tempo da fábula também é muito limitado. As descrições e reflexões, quando existem, são muito rápidas. A diminuição dos elementos estruturais confere ao conto uma grande densidade dramática. Enquanto no romance o conteúdo textual encontra-se diluído na multiplicidade de ações, personagens, espaços, tempos, descrições, reflexões, no conto temos uma condensação do sentido que se revela ao leitor de uma forma mais rápida e surpreendente. O contista tem uma idéia fundamental a expressar. Inventa, então, uma pequena história vivida por algumas personagens cujo desfecho leva o leitor a deduzir a parcela de sentido do mundo que a narrativa encerra. O conto erudito tem uma larga tradição cultural. Sem falarmos dos episódios das Sagradas Escrituras (→ Bíblia) que podem ser considerados contos (filho pródigo, Salomé, Judite, etc.) e limitando-nos apenas à literatura ocidental, encontramos exemplos contidos nas obras de escritores latinos, especialmente Petrônio (Satíricon) e Apuleio (O asno de ouro ou Metamorfoses), cujos protagonistas, Encólpio e Lúcio, respectivamente, têm a história de suas vidas intercalada pela narração de histórias secundárias encaixadas na principal. Lembramos, como exemplo, o conto "A Matrona de Éfeso", inserido no contexto do Satiricon: uma viúva inconsolável acaba preferindo o amante vivo ao corpo do marido morto. Na Baixa Idade Média, além do Decameron do florentino Boccaccio, avultam os contos satíricos e licenciosos do inglês Chauser: Canterbury Tales. Exemplos esparsos podem ser encontrados em alguns autores da Renascença, do barroco e do arcadismo. Mas, é a partir da época romântica que o conto erudito, desvinculando-se do romance e da novela, adquire o estatuto de gênero literário à parte. O criador da moderna short story pode ser considerado o norte-americano Edgar Allan Poe, cuja lucidez mental o levara a preferir a história curta, forma mais apta a expressar a intensidade dramática. Ele foi o inventor do conto policial, cuja protoforma é a antológica narrativa Os crimes da rua Morgue. A época do realismo consagra definitivamente o sucesso da narrativa curta, apresentando contistas mundialmente famosos: Maupassant, Tcheckov, Eça, Machado. Na modernidade, o conto é a forma narrativa mais cultivada, porque melhor responde à exigência da rapidez, própria da era da máquina: poucos leitores, hoje em dia, solicitados pelos atuais meios de comunicação cultural (rádio, televisão, videocassete, cinema, teatro, internet), têm a paciência de ler um longo romance. Quanto à tipologia do conto, ela não difere muito da classificação do romance. Dependendo do tamanho, falamos de romance ou de conto policial, de romance ou de conto de terror, etc. Entendido, porém, que a diferença entre o conto e o romance não é apenas quantitativa: a brevidade ou a extensão de uma história ficcional importa nas diferenças estruturais já apontadas acima. Em última análise, podemos considerar o conto como um romance condensado e o romance como um conto diluído. Um exemplo dessa verdade "acaciana" nos é fornecido pelo imortal escritor português Eça de Queirós: depois de ter escrito o conto Civilização, resolveu desenvolver a mesma história numa narrativa longa, criando o romance A cidade e as serras. Aliás, a intercomunicabilidade entre várias formas de arte é um fato corriqueiro hoje em dia: um romance é transformado em filme, uma peça teatral em novela de televisão ou vice-versa, um conto numa tela de pintura ou numa estátua.