Dicionário de Cultura Básica/Machado

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Machado


MACHADO de Assis → RealismoRomanceContoIroniaLoucura

"Não tive filhos,
não transmiti a nenhuma criatura
o legado da nossa miséria"

(parágrafo final de Memórias Póstumas de Brás Cubas)

Machado de Assis (1839–1908) é o maior ficcionista da época do Realismo e de toda a Literatura Brasileira, figura de projeção internacional pelo caráter universalizante de sua obra. Os críticos costumam dividir sua vasta produção literária em duas fases. A primeira compreende as narrativas de inspiração romântica, a segunda, a da maturidade, abrange todas as obras-primas. A cavaleiro entre duas épocas — Romantismo e Realismo —, Machado não pode ser filiado a nenhuma escola literária, pois o verdadeiro gênio não segue, mas cria os cânones estéticos. Se quisermos encontrar influências literárias que contribuíram para a formação do estilo e da mundividência machadianos, mais do que aos escritores filiados à moda naturalista, devemos recorrer aos humoristas ingleses Swift e Sterne, ao francês Voltaire, o mestre da ironia, ao caricaturista brasileiro Manuel Antônio de Almeida, cujo único romance, Memórias de um sargento de milícias, embora historicamente pertencente à época do Romantismo, pode ser considerado realista antes do tempo, pois segue o filão da narrativa picaresca espanhola. A segunda fase machadiana inicia-se com Memórias póstumas de Brás Cubas (1881), romance original que se afasta da narrativa convencional, quer quanto ao plano da expressão (dedicatória irreverente, narrador-defunto, inversões temporais, estilo irônico, técnica da peripécia narrativa), quer quanto ao plano do conteúdo (novo modo de ver o mundo, longe da idealização dos românticos e do determinismo dos naturalistas: o adultério de Virgínia não é devido nem a uma paixão avassaladora nem a uma tara hereditária, mas apenas ao desejo de melhorar sua posição econômica). Em Quincas Borba (1891), Machado retoma assunto e personagens do romance anterior e, através da invenção da filosofia "humanitista", satiriza sutilmente a fé dos pensadores positivistas no progresso moral da sociedade. Dom Casmurro (1899) é o romance da dúvida que toma conta do espírito do personagem-título sobre a fidelidade de sua mulher. Capitu é descrita como mestra do fingimento, a mulher "de olhos de ressaca". Além de mais dois romances, Esaú e ]aço e Memorial de Aires, Machado escreveu também várias coletâneas de contos, focalizando problemas existenciais. Anotamos alguns mais famosos, indicando o tema tratado: A Cartomante (a impostura dos profissionais da adivinhação); O Enfermeiro (o crime compensa); O Alienista (a loucura generalizada); A Missa do Galo (a sedução); O Segredo do Bonzo (opinião vs realidade); A Igreja do Diabo (indivíduo vs sociedade); O Empréstimo (ambição); Pai contra Mãe (opressão em cadeia); A Segunda Via (antecipação do conhecimento); Singular Ocorrência (ato gratuito); A Causa Secreta (sadismo); Maria Cora (inconseqüência psicológica); Trio em Lá Menor (perfeição); Último Capítulo (caiporismo).

Quer nas narrativas longas, quer nas curtas, o grande escritor do Rio de Janeiro demonstra ser um excelente observador da alma humana e da sociedade urbana da então capital do país. Sem o moralismo próprio dos escritores naturalistas que, através de uma análise crua da realidade social, tencionavam reconditamente curar os males, apontando suas causas, Machado, com sua postura de humorista, acusa um profundo sentimento de ceticismo e de pessimismo. Distanciando-se de suas personagens, com um sorriso irônico, ele lhes examina as virtudes e os vícios, as aspirações e as lutas cotidianas para conseguirem migalhas de felicidade. O esforço do indivíduo embate-se contra a ironia do destino, que faz com que as ações humanas consigam um resultado contrário ao esperado. Para o estudo da principal característica estilística de Machado, veja-se o verbete → Ironia. Quanto à fortuna crítica e ao reconhecimento póstumo da ficção machadiana é dispensável qualquer comentário Suas obras foram e continuam sendo fonte de inspiração para escritores, dramaturgos, telenovelistas e diretores de cinema. Recentemente, em 2003, o cineasta Moacyr Góes retoma o tema do romance Dom Casmurro, no filme DOM, com Maria Fernando Cândido, no papel de Capitu, Marcos Palmeira, interpretando o personagem Bentinho e Bruno Garcia, cujo personagem Miguel é uma adaptação do Escobar do romance de Machado de Assis.