Dicionário de Cultura Básica/Fábula

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Fábula


FÁBULA (história ficcional, gênero literário) → MitoContoNarrativa

"O que você fez durante o verão?
— Eu cantei! —
— Então, agora dança!"
(diálogo entre a cigarra e a formiga)

Do homônimo latino, o termo "fábula" corresponde ao grego mithos como história ficcional, uma lenda de origem anônima e coletiva. Neste sentido, a palavra "mito" ou fábula foi usada pelos Formalistas russos, em oposição à "trama", intriga ou entrecho. A fábula seria a história na sua ordem cronológica, enquanto a trama é a história na sua ordem artística, os fatos sendo narrados com inversões temporais, dizendo antes o que irá acontecer depois ou vice-versa., lançando mão da figura retórica da anacronia com suas variações. Assim, fala-se de nível "fabular" quando são analisadas as ações de uma narrativa na sua ordem cronológica. Mas é preciso distinguir a fábula como elemento estrutural de uma narrativa e a fábula como gênero literário à parte. Para o primeiro sentido, remetemos ao verbete Mito. Aqui vamos examinar o termo fábula como gênero literário. Entende-se por "fábula" uma narração alegórica, cujos personagens são animais, apresentando no final uma lição de ética comportamental ("moral da fábula"). O gênero fabulístico, embora de origem oriental, tem longa tradição ocidental. Foi cultivado na Grécia por Esopo (ao redor do séc. VI a.C.), continuou em Roma com Fedro (séc. I d.C.) e chegou ao apogeu no Neoclassicismo francês com La Fontaine. Esopo é uma figura mais lendária do que histórica, pois não sabemos quase nada sobre o local e a data de seu nascimento, não tendo deixado nenhum escrito. A tradição lhe atribui a autoria de mais de 400 fábulas, transmitidas oralmente e colocadas em escrita por ficcionistas posteriores. Por exemplo, o filósofo grego Aristóteles, em 330 a.C., relata que Esopo, para defender um político corrupto, inventara a fábula da raposa e o ouriço (mamífero roedor e espinhoso): o animalzinho perguntou à raposa se podia ajudá-la a remover as pulgas que estavam infestando seu corpo; e a raposa respondeu: "não", argumentando que aquelas pulgas já estavam cheias e não sugavam tanto sangue, e complementando: "se você as tirar de mim, novas pulgas, mais famintas, virão me atormentar"! Viva, portanto, a reeleição dos políticos! Já do outro fabulista, que escreveu em língua latina, temos dados históricos. Fedro foi um escravo macedônico alforriado por Augusto, que acrescentou o nome da família Júlia: Caius Julius Phaedrus (10 a.C. – 54 d. C.). Ele enriqueceu a poesia latina com o gênero novo, escrevendo 123 fábulas inspiradas no grego Esopo. Famosa é a sua fábula O Lobo e o Cordeiro, onde ensina que contra a força não há argumento. Eis o resumo: um lobo estava tomando água num rio, quando viu um cordeiro e lhe disse:

"Você está sujando minha água"!
"Como é possível isso? —--respondeu o cordeiro---se a água desce de você para mim?"
"Mas o ano passado você falou mal de mim", retrucou o lobo.
"Como pode ser? —-— disse o cordeiro--— se eu ainda não tinha nascido?"
"Então foi seu pai que me ofendeu"!
Dito isso avançou no cordeiro e o comeu.

Mais célebres são as Fábulas do poeta francês Jean de La Fontaine (1621–1695), que popularizou esse gênero literário na Idade Moderna. No Prefácio de sua primeira coletânea das Fábulas, La Fontaine torna bem explícita a intenção com que escrevera tais estórias, destinadas não apenas ao filho do Rei e às crianças da corte da França, mas a todos os virtuais leitores:

"Sirvo-me de animais para instruir os homens.
Procuro tornar o vício ridículo,

por não poder atacá-lo com braço de Hércules...
Algumas vezes oponho, através de uma dupla imagem,

o vício à virtude, a tolice ao bom senso.
Uma moral nua provoca o tédio:

o conto faz passar o preceito com ele.
Nessa espécie de fingimento, é preciso instruir e agradar,
pois contar por contar, me parece coisa de pouca monta".

A fábula mais conhecida de sua autoria é a da Formiga e da Cigarra: a formiga trabalha arduamente, debaixo de um calor arrasador, durante todo o verão, construindo a sua casa e armazenando mantimentos para agüentar o frio inverno europeu, enquanto a cigarra caçoa dela, vivendo numa boa. Chegada a neve, a formiga está confortavelmente instalada no seu buraquinho e bem alimentada, quando recebe a visita da cigarra enregelada, pedindo abrigo. A cigarra, então pergunta:

"O que você fez durante o verão?"
"Eu cantei", responde a cigarra.
"Então agora dança", retruca a formiga.

Na "versão moderna", a cigarra, reclamando seus direitos mas esquecendo-se de seus deveres, convoca uma conferência de imprensa para denunciar a situação em que vive, pretendendo saber por que razão é permitido à formiga estar bem aquecida e alimentada, enquanto outros sofrem com frio e fome. É sempre assim: exige-se a igualdade no gozo dos bens, mas não no sofrimento do trabalho para conseguí-los. As fábulas do autor francês são textos alegóricos, que denunciavam misérias, desequilíbrios e injustiças de sua época. Embora tenha alterado ou enriquecido substancialmente os argumentos e o espírito das fábulas que retomou de Esopo e de Fedro, La Fontaine não tocou no caráter ou na simbologia que seus antecessores atribuíram aos animais. Na década de 1940, teve muito sucesso a obra A Revolução dos Bichos, de George Orwell, que retoma o gênero fabulístico: animais oprimidos pelo dono da Granja do Solar derrubam o governo e implantam um novo sistema, comandado pelos próprios bichos. Mas o novo governo, na prática, é mais opressor do que primeiro.