Dicionário de Cultura Básica/Roma

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Roma


ROMA ("A Cidade Eterna": românico, latino, itálico)

Todos os caminhos levam a Roma....
mas também saíram de Roma.

Anagrama da palavra "Amor", Roma, antiga Caput Mundi e atual capital da Itália, tem uma longa história, que coloca esta cidade ao centro da cultura ocidental. Toda a "latinidade" está centrada nela. O próprio nome "latino" vem de Latium, a região italiana onde Roma foi fundada. Como Roma está no centro da Itália, toda a península italiana pode ser considerada, histórica e geograficamente, uma extensão da sua capital E a Itália, por sua vez, pode ser vista como uma grande metáfora do mundo ocidental quer pela sua posição geográfica (a forma de uma bota que, circundada por três mares, se conecta ao Norte com a Europa Central e ao Sul, pela bacia do Mediterrâneo, com a Grécia, o Oriente Médio e a parte costeira da Ásia e da África), quer pela sua história. A cidade de Roma, destruída e reconstruída sete vezes, deixou sinais de várias civilizações, abrigando um terço do patrimônio arqueológico mundial, contendo em suas muralhas histórias e lendas, artes e ruínas, emoção e religião e abraçando o Papa e o Vaticano, o pequeno Estado da imensa Igreja Católica (→ CatolicismoCristo). Conforme um dos mitos sobre sua origem, Roma teria sido fundada pelo herói troiano Enéias que, fugindo de Tróia incendiada pelos gregos (→ IlíadaEneida), chegou na região italiana do Lácio, onde fundou a cidade de Lavínia (séc. XII a.C.). Seu filho Ascânio (ou Julo, pois teria dado origem à gens romana "Júlia") fundou a cidade de Alba, o primeiro núcleo da futura Roma. A cultura latina seria, portanto, uma continuação da cultura troiana. Da costa da Ásia Menor, onde se situava Tróia, a civilização antiga chegou até Roma e de lá, pelas sucessivas conquistas do Império Romano, que subjugou a Grécia, o Egito, o Oriente Médio e a Europa ocidental, se estendeu até Constantinopla, na Turquia, centro do Império Romano do Oriente (Helenismo). A partir do Renascimento, através das Grandes Navegações e dos Descobrimentos de novas terras, a antiga cultura romana se espalhou pelas regiões colonizadas por europeus. Outra lenda acerca da fundação de Roma está centrada sobre a figura mítica de Rômulo (753–717? a.C.). Narra ao mito que o deus Marte teve um caso amoroso com a vestal Réia Sílvia, filha de Numitor, rei de Alba. Frutos deste amor proibido, pois híbrido, os dois gêmeos Rômulo e Remo foram jogados na correnteza do rio Tibre, salvos por uma loba que tirou a cesta das águas e amamentou os bebês, até serem recolhidos por um pastor. Rômulo, homem valentão e assaltante, decidiu fundar uma cidade ao redor do monte Paladino, traçando um sulco para demarcar seus limites. E matou o irmão que desobedecera à sua ordem. Ele e outros bandidos, para poderem povoar a cidade, foram a uma festa de uma cidade vizinha e raptaram as mulheres sabinas. Pais, maridos e irmãos das moças raptadas demoraram em organizar a vingança e, quando começou a luta entre romanos e sabinos, as mulheres se interpuseram, pedindo que fizessem as pazes, pois já estavam grávidas de seus raptores.

A cultura latina, assim como a de quase todas as nações, teve um período arcaico ou das origens, um período áureo ou de apogeu e um período de decadência. A fase arcaica ocupa, aproximadamente, o séc. II a.C., apresentando rudimentos de poesia autóctone, relacionados com o cultivo da terra (Carmina fratrum arvalium), os prazeres da mesa (Carmina convivalia), a exaltação das vitórias bélicas (Carmina triunphalia) e as lamentações fúnebres (Nenia). Mas o contato com as cidades da Magna Grécia, fortemente helenizadas, logo leva os romanos à imitação de suas formas estéticas e dos assuntos históricos e mitológicos. A influência da civilização grega sobre a Roma antiga se acentua com a conquista militar. A dependência da cultura latina é reconhecida pelo testemunho insuspeito do maior poeta romano, Horácio:

"Graecia capta ferum victorem vicit
et artes intulit agreste Latio"

(A Grécia, conquistada pelos romanos, por sua vez, conquistou
seu vencedor, introduzindo as artes no Lácio selvagem).

E, na verdade, os romanos foram os grandes admiradores da civilização grega, tentando assimilá-la: a maioria dos pedagogos das famílias nobres era composta por escravos gregos. Além disso, os soldados latinos helenizaram todas as regiões por eles ocupadas. Os romanos procuraram adaptar à sua realidade quase todas as formas artísticas inventadas pelos gregos. Mas, no período arcaico, apenas o Teatro, na forma da Comédia, alcança um nível artístico relevante. Peças de Plauto e Terêncio são representadas até hoje. A importância do teatro em Roma, como em Atenas, deve-se ao fato de que era a única diversão pública do povo, antes de se difundir o espetáculo da luta dos gladiadores na arena. O circo, então, por ser mais emocionante, passa a substituir o teatro na preferência popular. A expressão "panem et circenses" tornou-se antológica: nos períodos de crise, para evitar revoltas populares, os governantes romanos ofereciam, gratuitamente, trigo e espetáculos circenses.

Período áureo da cultura romana (101 a.C-14 d.C)

Os estudiosos costumam dividir o Período Áureo da literatura latina em duas fases: a época de César (101–44 a.C.) e a época de Augusto, que vai da morte de César (44 a.C.) até a morte de Augusto (14 d.C.). A razão desta divisão prende-se às profundas mudanças políticas e sociais que se verificaram na passagem da primeira para a segunda metade do século e que tiveram decisiva importância no desenvolvimento cultural. Na época de César, Roma e a Itália são conturbadas pelas inúmeras lutas externas e internas. O dissídio entre o partido democrático e o partido aristocrático provoca uma longa guerra civil, que leva ao assassinato de Júlio César. Aristocratas como Cícero, Pompeu, Bruto, Cássio, ciosos dos ideais republicanos, não viam com bons olhos a ascensão política dos democratas Catilina, César, Marco Antônio, que propunham reformas sociais, lutando contra os latifúndios e planejando a divisão das terras e a doação de pequenos sítios aos ex-combatentes. Júlio César entendera que a vastidão do Império Romano e as graves crises sociais internas exigiam um governo forte e austero, que acabasse com as oligarquias senatoriais, que fomentavam a corrupção política e social. Ele pagou com a vida sua tentativa de reestruturação política de Roma, mas sua luta, por ser uma necessidade histórica, foi retomada pelo sobrinho César Otávio Augusto, que, diplomática e gradativamente, conseguiu pôr em prática alguns planos de César. Pacificadas as correntes políticas adversas e evitado qualquer conflito com o exterior, Otávio começou a árdua tarefa da reforma dos costumes políticos, sociais, religiosos e morais, sob a égide da pax romana, também chamada de "paz de Augusto". Roma, em contato com a refinada civilização grega e oriental, importara costumes exóticos, divindades estranhas, ritos orgíacos, bens de consumo ou de valor luxuosos e supérfluos; tudo isso levou à lassidão dos costumes e ao desejo desenfreado de prazeres novos. O novo modus vivendi helenístico suplantara os costumes austeros do antigo povo itálico. Augusto se propôs restaurar os valores religiosos e éticos da primitiva tradição romana, condenando a prática de costumes orientais e o ideal de vida epicurista. Foram editadas várias leis em proteção do casamento, da família e de outras instituições sociais. Mas Otávio não desejava uma reforma apenas de superfície, imposta pela força das leis; seu sonho era provocar uma verdadeira "palingenesia", um renascimento fundamentado não só na mudança de comportamento, mas também de mentalidade. Para tanto, era necessário lançar bases ideológicas, o que implicava solicitar a colaboração dos intelectuais da sua época. Com o auxilio do amigo e conselheiro Mecenas, rico patrício romano, que se tornaria o protótipo dos protetores de poetas e artistas, Augusto conseguiu a adesão das mais belas inteligências do seu tempo, entre as quais se destacavam os poetas Horácio e Virgílio. Ele teve consciência de sua boa administração, ao afirmar: "Encontrei Roma como uma cidade de tijolos e a deixei como uma cidade de mármore".

Período Imperial: de 14 a 476 d.C

É a fase da decadência da cultura romana. Com a morte de Otávio Augusto, em 14 d.C., acaba o regime republicano em Roma e os sucessivos Imperadores (Tibério, Calígula, Cláudio, Nero etc.) sufocam qualquer liberdade de expressão. Ao mecenatismo sucede a clientela e os poucos intelectuais que recusam sujeitar-se ao servilismo e à adulação são eliminados sumariamente ou amargam um duro exílio. Nessas condições, é impossível qualquer floração artística relevante. Evidentemente, a literatura continua existindo, mas amordaçada, sem espontaneidade. Os escritores cultivam quase todos os gêneros literários já tradicionais, mas pouquíssimos têm alguma relevância (o dramaturgo Sêneca, o satírico Juvenal, o epigramista Marcial, entre outros). O gênero literário mais original desta época e que teve bastante repercussão posteriormente foi o romance satírico-picaresco de Petrônio (Satíricon) e de Apuleio (Metamorfoses)