Dicionário de Cultura Básica/Egito

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Egito


EGITO (a grande civilização antiga do Oriente Médio)

"O Egito é um dom do Nilo" (Heródoto)

Atualmente, o Egito é uma República Árabe do nordeste da África, deitada ao longo do rio Nilo, que deságua no mar Mediterrâneo, tendo apenas duas cidades importantes: o Cairo (Capital) e a histórica Alexandria. Como a Grécia, o Egito é um país que vive do passado. Das Sete Maravilhas do Mundo Antigo (a Estátua de Zeus, em Olímpia; o Colosso de Rodes, o Farol de Alexandria, o Mausoléu de Halicarnasso, os Jardins Suspensos de Babilônia, o Templo de Artemisa, em Éfeso), apenas as Pirâmides do Egito venceram as barreiras do tempo, permanecendo quase intactas até hoje. E é este monumento de Arquitetura antiga, junto com a beleza dos remanescentes Templos faraônicos, encontráveis nas duas margens do sagrado rio Nilo, que, explorado cultural e turisticamente, proporciona ao Egito a principal fonte de riqueza. A civilização do Egito foi a mais importante do Oriente Médio, anterior à cultura grega. Os estudiosos distinguem, além da pré-história, várias fases de civilização: o Egito faraônico, helenístico, romano, bizantino, muçulmano e moderno.

Egito faraônico. Ao redor do Terceiro Milênio antes de Cristo, o rei Narmer unificou os dois reinos então existentes: o do Alto Egito (coroa branca) e o do Baixo Egito (coroa vermelha). Até o ano de 331 a.C., quando foi dominado pela Macedônia, contam-se 30 dinastias de Faraós. Neste longo período de civilização egípcia, os historiadores distinguem três Impérios (Antigo, Médio e Novo), além de uma "Baixa Época". No Império Antigo (2800–2160) dominaram as primeiras dez dinastias, sendo Mênfis a capital. Nesta época, foram construídas as famosas pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerino, passando o Faraó a ser considerado o filho de Rá, o deus-sol que dá a vida. No Médio Império (2160–1600), com a XI dinastia, centrada em Tebas, uma cidade do Alto Egito (não confundir com a Tebas grega da região da Beócia), começou a se desenvolver o culto de Osíris, deus do rio Nilo e da vegetação sempre renascente. O Farão se identificou como o "bom pastor" do povo, associando o poder cívico e o religioso. Mas foi durante o Novo Império (1580–1085) que Tebas se tornou a capital do Egito, distinguindo-se a "Cidade dos Vivos", na margem oriental do Nilo, com palácios e templos monumentais (Luxor e Karnak), da "Cidade dos Mortos", a necrópole da margem ocidental, o famoso "Vale dos Reis", que abriga sepulturas e conjuntos funerários das mais antigas dinastias de faraós. Os sacerdotes eram encarregados de preservar a "vida" dos defuntos: a sobrevida do corpo era garantida pela mumificação. O antigo deus Rã de Mênfis adquiriu as feições do tebano Amon e grandiosas construções foram erguidas em honra de Amon-Rã. Durante a chamada Baixa Época (1085–333), aos poucos foi se enfraquecendo o poder central pelas lutas intestinas, dando origem a duas soberanias: a de Tebas e a do Delta, com inúmeras dinastias estrangeiras, sendo o país invadido por tropas da Líbia, do Sudão, da Assíria, da Pérsia e, em fim, da Macedônia, na época de Alexandre o Grande, que acabou com o domínio dos Faraós.

Egito helenístico: o domínio do império macedônico no Egito durou três séculos. Alexandre Magno levou menos de dois anos (332–331) para ocupar o Egito, arrogando-se o papel de libertador. Fundou Alexandria, deitada no Mediterrâneo, que se tornou o novo mercado marítimo e o centro de expansão da cultura helênica. Após sua morte (323 a.C.), a satrapia do Egito foi ocupada por Ptolomeu que, filho do nobre Lagos, deu origem à dinastia dos Lágidas, que reinou de 305 a 30. A última grande soberana da dinastia lágida foi Cleópatra VII, que se juntou ao cônsul romano Marco Antônio para salvar seu reinado. Mas o "sacrifício" foi inútil pois, com a vitória do rival Otávio em Actium (31 a.C.), o Egito foi anexado a Roma. Alexandria, depois de Atenas (→ Grécia) e antes de Roma, foi o centro difusor da cultura helenística, famosa pela escrita em "papiros" e pelo Museu-Biblioteca, onde se reuniam os maiores sábios de todo o mundo grego: Arquimedes, Teócrito, Calímaco, Apolônio de Rodes. Foi neste lugar do Egito Antigo que foram preservadas as obras mais importantes da Ciência, da Filosofia, da Literatura e das outras Artes, e daí se difundiram pelo mundo todo, chegando até nós (→ Alexandre).

Egito romano: de 30 a.C. a 395 d.C, o Egito foi uma colônia romana, perdendo seu fulgor e se tornando rapidamente cristã. Lá se desenvolveram novas formas de vida religiosa, todas privilegiando a vida contemplativa: monge, anacoreta, eremita, freira. Famosas foram as querelas sobre a identidade de Jesus. O presbítero de Alexandria, Ário, negou a divindade de Cristo, dando origem à heresia ariana. Mas ele foi logo excomungado, sendo posteriormente condenado pelo Concílio de Nicéia, em 325. Os egípcios de cultura pagã fundaram uma escola neoplatônica onde lecionaram Orígenes e Plotino. Mas a violência da multidão cristã provocou seu fechamento, em 415.

Egito bizantino (→ Helenismo): de 395 a 642, o Egito passou a fazer parte do Império Romano Cristão do Oriente, até o advento do Islamismo. A conquista muçulmana foi fácil, pois, quando os árabes invadiram o Egito, o ódio aos gregos a ao poder imperial de Constantinopla estava no auge. Com efeito, os habitantes do Egito sempre consideraram gregos e romanos como povos exploradores, repudiando a cultura bizantina que, em nome da unidade da fé, impunha teorias e práticas que contrastavam os costumes coptas. O patriarca de Alexandria, Dióscoro, encampou a heresia monofisista que, em nome do Monoteísmo, negava a humanidade de Cristo. O monofisismo foi condenado pelo Concílio de Caldedônia, em 451, mas o clero e os monges do Egito foram induzidos a separar-se da Igreja de Constantinopla.

Egito muçulmano: após o advento de Maomé, ao longo de muitos séculos (de 642 a 1805), vários hordas de árabes se encarregaram da islamização do Egito. Em 969, uma dinastia xiita fundou a cidade do Cairo. Mas logo os sunitas voltaram a predominar no Egito. A dinastia curda, fundado por Saladino, se apoderou da maioria dos Estados do Levante, tomando a cidade de Jerusalém, em 1187. Os mamelucos, uma oligarquia de escravos-soldados da Turquia, governaram de 1250 a 1517, até o Egito tornar-se uma província do império otomano, governado por um paxá, nomeado anualmente. Com a expedição de Napoleão Bonaparte (1798–1801), o Egito caiu nas mãos dos franceses.

Egito moderno: em 1805, Mehemet Ali, chefe de um contingente albanês, desembarcou no Egito e derrotou as forças napoleônicas, proclamando-se paxá vitalício, reinando até 1848. Seus sucessores contraíram dívidas enormes, especialmente para a construção do canal de Suez (de 1859 a 1869), ligando o Mediterrâneo Oriental ao mar Vermelho. Para compensar a dívida não paga, o governo egípcio precisou indicar para os postos-chave da sua economia diplomatas e técnicos franceses e ingleses, até que, em 1914, a assistência britânica se transformou em Protetorado, colocando um fim à soberania otomana. Com o tratado anglo-egípcio de 1936, o partido nacionalista conseguiu a independência. Em 1945, o Egito chefiou a Liga Árabe, que invadiu o recém-formado Estado de Israel (→ Jerusalém). A Guerra Árabe-Israelense desmoralizou o regime monárquico, reforçando o movimento nacionalista. Em 1952, o coronel Gamal Agdel Nasser depôs o rei Faruk I e o Egito adotou o regime republicano.

Egito republicano: a República foi proclamada em 1953 e Nasser, dissolvendo todos os partidos da Irmandade Muçulmana, se outorgou poder absoluto. Equipou seu exército com a ajuda de países socialistas e financiou a construção da barragem de Assua junto à antiga URSS. Engajou-se numa política pan-árabe, visando assegurar a hegemonia egípcia. Mas, após a derrota da Guerra dos Seis Dias (1967), Nasser foi obrigado a aceitar as condições da ONU. Foi assassinado em 1981, vítima de ações violentas praticadas por grupos da Irmandade Muçulmana. Seus sucessores no governo da República egípcia têm adotado uma política pacifista, apoiando tentativas de acordo entre palestinos e judeus.

Importância do rio Nilo e da cultura egípcia

Já o historiador grego Heródoto dizia que "o Egito é um dom do Nilo". Com efeito, são as águas do rio que, inundando as margens, tornam as terras férteis. Sem o Nilo, o Egito seria apenas uma parte árida do deserto do Saara. Sua cheia chega mais forte no verão, quando o vento que desce dos planaltos da Abissínia provoca as enchentes. A cheia e suas riquezas são representadas pelo deus Hápi, de ventre repleto e seios pendentes. Anteriormente à construção da barragem de Assuan, o Nilo depositava nas terras cultiváveis, em média, um milímetro de lodo por ano. A prosperidade do Egito nasce da ação conjunta do rio Nilo e do astro Sol (→ Hélios), ambos elevados pelos egípcios à categoria de deuses. O rio impregna os campos de uma água carregada de aluviões extremamente férteis. O sol provoca o renascimento da vegetação. Uma cheia muito fraca não alimenta bem a terra e muito forte devasta os campos. Sem o transbordar das águas o sol seria devastador e, sem o sol, a cheia seria inútil. O povo egípcio reza para que haja equilíbrio entre os dois elementos da natureza. Ao longo das duas margens do rio, os egípcios criaram uma rica civilização, exaltando suas divindades e seus governantes com palácios e templos majestosos. Eternizaram sua memória pela construção de Pirâmides, que ainda hoje suscitam a admiração dos visitantes. Na cidade de Gizé, perto do Cairo, a pirâmide de Quéfren é guardada por uma Esfinge, a mais antiga do Egito, construída ao redor do ano de 2500. Ela é representada como um leão deitado, cuja cabeça é a mesma do faraó. Ela está lá, como símbolo do mistério do além túmulo. Os gregos herdaram dos egípcios o culto da Esfinge. Na cidade grega de Tebas, ela devora o forasteiro que não consegue decifrar seu enigma. Apenas Édipo conseguiu desvendar seu mistério. Mas a civilização egípcia não está presente apenas na cultura grega e helenística. Ela deixou sua marca em todo o mundo ocidental. Somente para apresentar um exemplo, lembramos Aída, Ópera em quatro atos do compositor italiano Guiseppe Verdi, encomendada pelo governo do Egito para marcar a inauguração do Canal do Suez, encenada no Cairo em fins de 1871. Aída narra a história de amor entre o guerreiro Radamés e a escrava Aída, bem como da paixão da princesa Amneris por Radamés, no Egito antigo. A escrava Aída é, na verdade, filha de Amonasro, rei da Etiópia, capturada numa das guerras. Ela ama sua pátria, mas se apaixona por Radamés, escolhido pelos sacerdotes para liderar o exército contra os invasores etíopes. O príncipe egípcio vence a batalha e, entre os prisioneiros capturados, Aída vê o pai. Com a vitória, a Radamés é ofertada a mão da princesa Amneris. O herói pede que os prisioneiros sejam libertados, o que acontece, com exceção do Rei etíope. Aída conversa com o pai e este a convence a descobrir por onde entrará o exército na Etiópia. Radamés revela o segredo a Aída. Os sacerdotes descobrem a traição e Radamés é capturado. Durante o julgamento, Radamés não aceita trocar o casamento com Amneris pela liberdade e é condenado à prisão na cripta, onde percebe que Aída se havia escondido para morrer com ele. Amneris canta sobre a cripta o amor perdido.