Dicionário de Cultura Básica/Maomé

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Maomé


MAOMÉ (Profeta de Alá: Muçulmano, Islâmismo)

"Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá
e que Maomé é seu Profeta"

Mohammed ou Muhammad, chamado Maomé pelos europeus, nasceu na Meca em 570 (provavelmente) e morreu em Medina, em 632. Órfão e pobre, condutor de caravanas, casou com sua patroa, uma rica viúva quadragenária. No ano de 610, meditando numa caverna, afirmou ter ouvido a voz do arcanjo Gabriel que lhe transmitiu a mensagem de Deus (Alá ou Allah, em árabe), consagrando-lo como o terceiro grande Profeta, depois do judaico Moisés (→ Bíblia) e do palestino Cristo. Ele disse que "Deus deu a cada povo um profeta em sua própria língua". Sua pregação, recolhida no livro sagrado "Corão" (ou Alcorão, do árabe al-Qur’an = a leitura), encantou as classes desfavorecidas e provocou o ódio de judeus e cristãos ricos. Em situação crítica, Maomé foi obrigado a emigrar para Medina, em 622, iniciando, a partir daquela data, a Hégira, o calendário muçulmano. Diferentemente dos profetas bíblicos, Maomé se revelou um grande chefe político e militar, organizando um Estado em que os costumes tribais da Arábia foram substituídos pela Sharia (lei corânica) e pela Suna, conjunto de preceitos baseados nos hadith (ditos e feitos do Profeta). Nascia, então, um novo credo, a fé islâmica ("Islam" = obediência a Deus), professa pelos árabes que se separaram do Judaísmo (→ Jerusalém) e do Cristianismo. Proclamada a Guerra Santa (djihad), em 630, depois de uma luta sangrenta, Maomé conquistou sua cidade natal, sede da Caaba (templo da "Pedra Negra"). A Meca, então, passou a substituir Jerusalém, como centro religioso.

A doutrina islâmica está centrada sobre cinco pilares: 1) Chahada, a profissão de fé: "Eu testemunho que não há outra divindade além de Alá e que Maomé é seu enviado"; 2) Salat, a prece legal, cinco vezes por dia, na direção da Meca; 3) o Ramadã, o mês destinado ao jejum diurno; 4) hadjdj, a peregrinação à Meca pelo menos uma vez na vida; 5) zakat, o pagamento de esmola. Os lugares mais sagrados do Islamismo são Meca, cidade onde fica a Caaba (o templo da Pedra Negra), Medina, lugar de nascimento de Mohamed, e Jerusalém, cidade de onde o profeta ascendeu aos céus, levado pelo arcanjo Gabriel até o Paraíso, juntando-se a Moisés e Jesus Cristo. Os muçulmanos se dividem em dois grandes grupos principais: os sunitas (da palavra suna, o caminho) e os xiitas. Os sunitas são os seguidores da tradição do Profeta, continuada por All-Abbas, seu tio. Os xiitas (16% dos muçulmanos) também possuem sua própria interpretação da Sharia. Seu nome deriva da expressão "shi at Ali", partido de Ali, que foi marido de Fátima, filha de Maomé.

Atualmente, o Islã, na sua totalidade de seitas, constitui a segunda maior religião, depois do Cristianismo, com cerca 1,3 bilhões de adeptos. Seu período de esplendor se deu na mesma época em que a religião cristã condenara a Europa ao obscurantismo (→ Medievalismo). Devemos ao Islamismo a divulgação da cultura grega no Ocidente, pois os europeus nunca tiveram um contato direto com a língua de Homero. Enquanto os seis séculos da Baixa Idade Média Cristã (do séc. V ao XI), não produziram sequer um nome ilustre no campo da filosofia, das ciências ou das artes (constatação espantosa: seiscentos anos de paralisia cultural em todos os países europeus!), o Oriente Médio nos legou Alcuíno, filósofo e cientista (séc. IX); o pensador Alfarrabi (870–950), famoso pelos comentários à lógica aristotélica; Avicerna, o reformulador da ciência médica; Averróis, o grande tradutor de obras gregas para o latim; entre outros cientistas e artistas. Nesta época, os muçulmanos eram mais tolerantes que os cristãos, no que se refere aos costumes. Com as Cruzadas (início do séc. XII) e, logo depois, com o Renascimento, começou a inversão: as nações de civilização cristã tentaram impor sua cultura aos árabes muçulmanos. A decadência da religião islâmica se tornou evidente nos anos 50 do séc. XX, quando o presidente do Egito, Gamal Abdel Nasser, decidiu reformar o sistema de vida muçulmana, tentando separar o poder laico do poder religioso. Ele provocou um movimento de reação, dando origem ao que hoje chamamos de "Fundamentalismo". Adeptos fanáticos da doutrina de Maomé se aproveitaram do sentimento popular, ofendido pela tentativa de quebra de costumes tradicionais, e manipularam os dogmas da fé com finalidades políticas e econômicas. Há a tese de que, para o Islamismo, não pode existir uma sociedade islâmica sem um Estado islâmico absolutista. A religião muçulmana estimularia regimes autoritários, sendo a democracia incompatível com o mundo islâmico. Infelizmente, os fatos vêm confirmar a teoria: quase todos os Estados, onde predomina a religião muçulmana, são regidos por governos absolutistas, que limitam ao máximo a liberdade de pensar, de sentir e de agir. Os cidadãos que nascem sob o signo de Alá são obrigados a rezar cinco vezes por dia, a jejuar durante um mês, a pagar dízimos, a usar burca ou xador, a conformar-se com a pobreza e a injustiça social, a tolerar a poligamia e o machismo, a lutar até à morte para difundir o credo de Maomé. E os transgressores são castigados com penas terríveis. O pior é que a maior potência do mundo ocidental, os USA, tem apoiado várias dessas tiranias, quando o déspota se demonstrou "amigo", atendendo a seus interesses econômicos. Saddam Hussein, o soberano do Iraque, o ditador mais corrupto e cruel da modernidade, já foi cria do governo americano e teve como modelo para sua brutalidade os partidos nazista e comunista da Europa. Enfim, a insânia é generalizada, no Ocidente e no Oriente. Podemos apenas culpar a imbecilidade humana, a única capaz de nos dar a idéia do infinito, segundo o pensamento do historiador e místico francês Ernest Renan (1823–1892).