Dicionário de Cultura Básica/Marte

Wikisource, a biblioteca livre
< Dicionário de Cultura Básica
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Marte


MARTE (Ares, na Grécia: deus da Guerra)

"A Guerra é a Mãe e a Rainha de todas as coisas"
(Anaxágoras)

Do latim mars, martis, Marte é o nome de uma divindade, de um planeta e de um mês do ano. Com o nome grego Ares, filho de Júpiter e de Juno, Marte era o deus da guerra e da violência. É representado como um soldado barbudo, com pesadas armas, que tem no abutre seu animal preferido. Seu cortejo era constituído pelos filhos "medo" (Dêimos) e "terror" (Fobos), pela Discôrdia (Éris), pela divindade guerreira Belona e pelas Queres, as três filhas da Noite, que sugavam o sangue dos mortos e dos feridos nos campos de batalha. Por causa de sua crueldade e pelo ódio que inspirava, Marte não era muito querido nem pelos outros deuses do Olimpo, nem pelos gregos civilizados, que preferiam invocar Minerva por acumular às prerrogativas de deusa da guerra e da vitória os poderes da inteligência e da perspicácia. Em compensação, o culto de Marte teve muito sucesso em Roma, que fez dele seu deus preferido. É sintomático o fato de que, na Ilíada, encontramos Ares lutando ao lado dos troianos, enquanto Minerva sempre protege os gregos. Da relação amorosa de Marte com a vestal Réia Sílvia, filha de Numitor, rei de Alba Longa, nasceram Rômulo e Remo, os fundadores míticos da cidade de Roma. A evolução do mito do deus Marte acompanha, passo a passo, a transformação do povo romano, que de agricultor e pastor se torna guerreiro e dominador. O mito de Marte foi inventado pelos gregos para personificar a força bruta, a violência gratuita, o assassinato em massa, nem sempre com motivo justo. Mas Ares é também o deus da primavera: no mês de março é forte o impulso da expansão da seiva e é a época em que os príncipes saem para guerrear ou caçar, após a paralisia do inverno europeu. Fragmentos de um Hino, cuja autoria é duvidosamente atribuída ao poeta Homero, atestam a importância do culto que gregos e romanos prestavam a Ares/Marte:

"Ares soberanamente forte...
coração valoroso...
pai da Vitória, que dá às guerras um final feliz,
sustentáculo da Justiça..."

Enfim, os homens imaginaram a existência de uma Divindade que justificasse o brutal instinto, a tendência natural para o domínio de uns sobre outros. E não apenas na guerra, mas também nos esportes, nos jogos, na conquista amorosa, nas atividades profissionais. A tendência natural para a competição acompanha o homem do nascimento à morte, em todos seus atos. Daí a sabedoria grega afirmar que "a guerra é a mãe e a rainha de todas as coisas". Aristóteles deve ter pensado neste sentido positivo da guerra, quando afirmou que "o objeto da guerra é a paz". Já o revolucionário comunista Lênin definia a paz como uma "trégua para a guerra". O instinto bélico é, muitas vezes, camuflado pela hipocrisia: quando começa um confronto, a primeira vítima é quase sempre a verdade! Geralmente, encontra-se algum pretexto para atacar os outros. O mais antigo é a destruição de Tróia pelos gregos, tendo como pretexto a reconquista da bela Helena, raptada pelo troiano Paris. O mais recente é a teimosia do Presidente dos USA, George W.Bush, em invadir o Iraque, com o pretexto de encontrar "armas de destruição em massa", que lembra a fábula do lobo e do cordeiro, do escritor romano Fedro: querendo comer o carneiro, o lobo, apostado na parte superior do rio, acusa o carneiro de sujar-lhe a água. "Mas como pode, responde o cordeiro, se a água vem de cima para baixo?" "Então foi seu pai", disse o lobo, saltando sobre o carneiro. Se Bush pai não conseguiu acabar com Saddam Hussein, vai ser Bush filho a inventar outro pretexto para se apossar do petróleo do Iraque e para vingar o orgulho americano maculado pelo afronta terrorista islâmica do 11 de setembro de 2001, ato terrorístico bárbaro e covarde que derrubou as duas Torres Gêmeas, símbolo do poder econômico de Nova York e do capitalismo ocidental, matando milhares de gente inocente. Entre essas duas guerras, houve centenas de outras, podendo afirmar-se que a Humanidade viveu e vive em constante estado bélico, com uma intensidade de violência maior ou menor em lugares e tempos diferentes. Lembramos apenas os maiores conflitos do século passado. A I Guerra Mundial (1914–1918) foi o primeiro conflito de proporções globais que opôs, de um lado, a Tríplice Aliança (Alemanha, Itália e Áustria-Hungria) e, de outro, a Tríplice Entente (França, Rússia e Reino Unido). O motivo principal foi o choque de interesses das nações colonialistas européias. A Tríplice Aliança foi derrotada e o Império Austro-Húngaro ruiu. A II Guerra Mundial (1939–1945): no início de setembro de 1939, logo após a invasão germânica da Polônia, Grã-Bretanha, França e nova Zelândia declararam guerra à Alemanha, dando início à chamada "Grande Guerra", o maior conflito armado da humanidade. Em 1940, a Alemanha recebeu ajuda da Itália e do Japão, formando-se o Eixo Berlim/Roma/Tókio. Os Aliados do outro lado beneficiaram-se do apoio substancial da União Soviética, invadida pelas tropas nazistas, e dos Estados Unidos da América do Norte, que quiseram se vingar do bombardeio japonês sobre as bases navais americanas de Pearl Harbour, enseada das Ilhas Havaí, em 7 de dezembro de 1941. Mais nações, inclusive o Brasil, juntaram-se aos Aliados, que tiveram a vitória declarada em 1945, após o bombardeio atômico sobre o Japão. Guerra do Vietnã (1965–1975): a luta interna pela unificação da região, dividida entre o governo comunista da parte do Norte e o governo democrático do Sul, acabou se tornando um conflito de proporção gigantesca pela intervenção militar dos EUA a favor do Vietnã do Sul. Os norte-vietnamitas, usando técnicas de guerrilhas aprendidas nas anteriores lutas contra japoneses e franceses, opuseram uma férrea resistência à tecnologia militar norte-americana, conseguindo a vitória, após uma década de lutas sangrentas que vitimaram mais de cinqüenta mil soldados norte-americanos e de um milhão de vietnamitas. Enfim, há povos, especialmente em regiões do Oriente Médio e da África, para os quais a guerra e o ódio fazem parte de sua própria cultura: as crianças aprendem na escola o uso de armas para lutarem contra tribos rivais. Infelizmente, o mito de Marte continua sendo cultuado. O homem ainda não aprendeu que a guerra é nociva para todos e que é preciso canalizar o instinto da violência, sublimando-o na competição esportiva, intelectual e artística que estimula o progresso. Com a queda do muro de Berlim, símbolo da unificação das duas Alemanhas, anteriormente divididas pelo ódio político, e o fim da guerra fria entre Capitalismo e Comunismo, parecia que o Mundo fosse rumar para a convivência pacífica, o convívio harmônico entre Nações, respeitando credos religiosos e interesses recíprocos. Mas o orgulho e o egoísmo de alguns países, valendo-se do poderio econômico e tecnológico, fizeram surgir outros muros da vergonha: o cordão sanitário na fronteira do México com os EUA, a cerca de arame farpado da Coréia do Norte e, o mais recente e mais vergonhoso, o muro que está separando o Estado de Israel da comunidade palestina. Quem sabe, um dia o homem irá aprender que mesmo o terrorismo, o tipo de violência mais covarde, não se combate com outra violência. Os antigos romanos já diziam vis vim gerit (a violência gera a violência); o sábio Cícero observou que "em meio às armas, as leis emudecem" . Os psicólogos explicam que a prepotência produz o ódio e este a vingança: qualquer pessoa ou povo, por mais poderoso que seja, pode sempre sofrer uma reviravolta e ser punido pelo mal cometido. Prova disso é o mito bíblico do gigante Golias, abatido pelo pequeno Davi, ou as monumentais Torres Gêmeas de Nova York, destruídas pelo estratagema de fanáticos revoltados contra o Império Americano; ato de terrorismo este que está alimentando uma guerra de vingança de proporções incalculáveis pelo choque entre duas culturas poderosas: a judaico-cristã e a islâmica. Como bem observou Nicolau Maquiavel,

"a guerra é feita no momento que se quer;
mas só é terminada quando se pode".

O pior é que os que declaram a guerra não entram em campo de batalha, mas ficam protegidos em seus escritórios com ar condicionado, e os que vão para a luta não sabem bem contra quem nem porquê está sofrendo. O poeta Valéry assim define o ato bélico: "a guerra é um massacre entre gente que se desconhece, para o proveito de gente que se conhece, mas não se massacra". Qualquer forma de violência, russa ou americana, de esquerda ou de direita, não tem justificativa alguma, a não ser a infinita estupidez humana. Ultimamente, o mundo está assistindo, estarrecido e impotente, à brutalidade inexplicável do banho de sangue, cujas vítimas são, muitas vezes, seres inocentes e até crianças. À prepotência das nações fortemente armadas os povos escravizados respondem com guerrilhas e atos de terrorismo, assim no Vietnã, como no Afeganistão, no Iraque e na Chechênia. O pior é que os massacres acontecem em nome de um ideal, capitalista ou comunista, que, por ter o poder absoluto da força, dá o direito à posse de uma verdade absoluta e incontestável. Mata-se em nome de deus, da liberdade, da democracia, quando, na verdade, a violência é praticada por inconfessáveis interesses econômicos. É a lei da selva ou do mais forte!