Dicionário de Cultura Básica/Classicismo

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Classicismo


CLASSICISMO (Cânone social e artístico)

O que não se parece a nada não existe
(Paul Valéry)

A etimologia do termo "clássico’’ vem do latim classis, que significava uma classe social (a classe dos senadores, dos cavaleiros, dos magistrados etc.) a que um cidadão romano pertencia e que o distinguia da grande massa do povo (os "desclassificados’’, a plebe). A este sentido sociológico está ligada a idéia de preeminência, de excelência. Com referência às letras, o classicus scriptor era o autor que se distinguia da maioria pela correção lingüística e pela beleza das imagens poéticas. Assim, Homero, César, Virgílio, Horácio, Cícero eram considerados escritores clássicos, porque constituíam "modelos" a serem seguidos e suas obras eram estudadas nas classes das instituições escolares. Esta conceituação de clássico como excelente, modelar, exemplar, ainda hoje persiste e pertence à linguagem cotidiana: falamos de um clássico do cinema ou de uma disputa esportiva. O crítico norte-americano Harold Bloom (O Cânone Ocidental) usa o termo "canônico", em lugar de clássico, para selecionar os homens que ele considera os criadores da cultura ocidental. O critério que usa é a fortuna que os gênios tiveram ao longo dos tempos. O metro da vitalidade de um autor é o fato de ter sido imitado por outros artistas ou cientistas a ele posteriores. Assim, por exemplo, o poeta grego Homero é considerado um autor canônico ou clássico, por ter sido imitado pelo escritor romano Virgílio e este é também clássico por ter sido o modelo de Camões, Ariosto, Tasso e outros poetas da Renascença européia. E Camões é também um autor canônico por ser o modelo em que se inspiraram vários poetas líricos e épicos de língua portuguesa que o sucederam. Para Bloom, os dois maiores autores canônicos de todos os tempos foram Dante Alighieri e William Shakespeare. O poeta italiano é o mestre da poesia lírica, épica e simbolista, enquanto o vate inglês constitui o pilar da dramaturgia ocidental. Dante enfatiza a imutabilidade do que é sagrado, enquanto Shakespeare afirma a transitoriedade e a introspecção do que é humano. Segundo o poeta e crítico inglês T.S. Eliot, a Divina Comédia é uma outra Escritura Sagrada, um mais Novo Testamento, que completa a Bíblia cristã canônica, enriquecendo-a com a filosofia de vida medieval. Já Shakespeare, homem da Renascença inglesa, pelas suas peças, escreve uma descontínua "Comédia Terrena", sem transcendência alguma, pois seus personagens são a encarnação artística dos vícios e das virtudes humanas.

A partir da Renascença, o termo Classicismo começa a adquirir uma conotação estética, tornando-se uma doutrina que ensina que a criação poética deve imitar os modelos artísticos construídos pelos autores greco-romanos. Junto com o preceito da imitação de modelos, a estética clássica apresenta outros princípios, tais como a verossimilhança, a conveniência, o gosto pela perfeição formal, a necessidade de observar regras, o largo uso da mitologia pagã, a intemporalidade da beleza artística. Esta concepção estética dominará a cultura ocidental ao longo de mais ou menos quatro séculos, até chegarmos à época do Romantismo, quando se dará a viragem, a ruptura. A estética romântica surgirá em franca oposição à poética clássica, dando início a um novo ciclo cultural, com uma diferente concepção de vida e de arte. Mas, a longa época do Classicismo apresenta relevantes variações no tempo e no espaço, a que se deram nomes peculiares: Renascença, Maneirismo, Barroco, Neoclassicismo, Preciosismo, Rococó, Arcadismo. Em verdade, a cultura clássica não se desenvolveu de modo uniforme em toda a Europa. Basta notar que o fenômeno da Renascença, quando começa seu declínio na Itália, a partir da década de 1530, inicia sua ascensão na Espanha, chegando lá ao apogeu na época chamada barroca. Na França, os valores renascentistas são cultuados sós a partir da segunda metade do século XVI, com os poetas da Plêiade, culminando, no início do século seguinte, no chamado Neoclassicismo francês, a forma mais rígida e ortodoxa, quando o poeta e teórico Nicolas Boileau ditará definitivamente as normas da estética clássica. Além do princípio da imitação (→ Mimese), apontamos outros pressupostos que governam a arte inspirada nos modelos greco-romanos:

Verossimilhança interna e externa

O princípio da verossimilhança foi estabelecido por Aristóteles quando, na sua Poética, afirma: "Com efeito, não diferem o historiador e o poeta por escreverem em verso ou em prosa [...] diferem, sim, em que diz um as coisas que sucederam e o outro as que poderiam suceder’’. A obra de arte, por não estar diretamente relacionada com um referente do mundo exterior, não é verdadeira, mas possui a equivalência da verdade, a verossimilhança, que é a característica indicadora do ‘‘poder ser" ou do "poder acontecer". Distinguimos uma verossimilhança "interna" à própria obra, conferida pela conformidade com seus postulados hipotéticos e pela coerência de seus elementos estruturais: a motivação e a causalidade das seqüências narrativas, a equivalência dos atributos e das ações das personagens, a isotopia, a homorritmia, o paralelismo etc.; e uma verossimilhança "externa", que confere ao imaginário a caução formal do real, pelo respeito às regras do bom-senso e da opinião comum. Se faltar a verossimilhança interna, dizemos que a obra é incoerente ou aloucada, aproximando-se do não-sentido; se faltar a verossimilhança externa, entramos no domínio do gênero fantástico, definido por Todorov como uma "hesitação" entre o estranho e o maravilhoso, entre uma explicação natural e uma explicação sobrenatural dos acontecimentos evocados. Os textos literários da época clássica seguem, de um modo geral, o princípio da verossimilhança interna, pois apresentam uma grande coerência formal e semântica. Quanto à verossimilhança externa, o recurso ao fantástico, quando acontece, tem sempre uma explicação de ordem religiosa ou mágica. Por exemplo, em As Metamorfoses, do escritor latino Apuleio, a transformação de Lúcio em asno é explicada pelo fato de que o jovem protagonista tomou uma bebida preparada por uma feiticeira; já na Metamorfose, do escritor moderno Franz Kafka, que não se preocupa nem um pouco com o cânone da verossimilhança, não é fornecida nenhuma explicação pela repentina transformação de Gregor Samsa num inseto hediondo.

Razão e labor

A concepção do ato criador como esforço lúcido, que disciplina os impulsos da imaginação e do sentimento, é outro postulado da estética clássica. Uma verdadeira obra de arte é fruto da conjugação de dois elementos fundamentais: um dom natural, que chamamos de aptidão, engenho ou inspiração, e um elemento adquirido, que é a técnica ou arte. Entre o poeta "inspirado", de que fala Platão, e o poeta ‘artífice’’, segundo a concepção de Aristóteles, a estética clássica confere uma maior importância ao segundo elemento, pois a criação artística é o resultado de um longo trabalho de estruturação formal. O artista deve deixar-se guiar pela razão, entendida como bom-senso, equilíbrio, medida. A lucidez intelectual, aliada à prática de uma longa aprendizagem, confere à obra de arte clássica um caráter objetivo, imutável e universal. A beleza clássica, definida como ‘‘harmonia de formas", tem um valor absoluto, independentemente do tempo e do espaço, porque se consegue alcançar o que há de essencial na natureza cós-mica e na psicologia humana. Daí a sua inteligibilidade: os elementos formais e os conteúdos ideológicos da obra clássica são facilmente compreensíveis por um receptor, desde que tenha uma cultura geral razoável. O fator "racionalidade" foi bem identificado pelo codificador do Classicismo, o poeta francês Boileau, ao dizer: "antes de escrever, aprenda a pensar".

Observância de regras

Para disciplinar o ato criador, o poeta clássico segue normas técnicas ditadas pela tradição da composição literária. Assim, por exemplo, o gênero dramático deve seguir a lei das três unidades: de ação, de tempo e de lugar. O assunto de uma peça teatral deve concentrar-se numa única ação importante, que não ultrapasse a duração de um dia, representada num único cenário. A longa narrativa do gênero épico deve começar in medias res, isto é, deve-se focalizar em primeiro plano e no começo da obra um episódio fundamental e, a partir de lá, através do processo técnico da retrospecção, contar o que aconteceu antes. Essas e outras regras de composição, embora arbitrárias e definidas a posteriori, têm a finalidade de estabelecer as coordenadas para caracterizar o estilo dos gêneros literários. É preciso entender que as tão criticadas regras da estética clássica têm um valor mais didático do que prescritivo, servem mais para a compreensão do que para a criação do texto literário. Sem elas seria difícil individualizar a grandiosidade do estilo épico, a intensidade da ação dramática, a íntima comoção do gênero lírico.

Conveniência e decência

O termo pan-românico "obsceno", etimologicamente significa ‘‘fora da cena’’, isto é, tudo aquilo que não pode ser apresentado no palco perante o público. A estética clássica proíbe a representação ou a descrição de ações que possam ferir a sensibilidade do receptor da mensagem artística. O texto clássico evita tudo o que é chocante, hediondo, grosseiro, vulgar. A tragédia grega, por exemplo, apesar de tratar de crimes monstruosos, não apresenta nenhuma cena de sangue: as ações violentas acontecem fora do palco e os espectadores são informados pela fala dos atores e do coro. O respeito para com o público, que os franceses chamam de bienséance, faz com que os autores clássicos evitem atos indecorosos, cenas repugnantes e uma linguagem de baixo calão.

Essas regras, codificadas por Boileau na sua obra L’Art poétique, dominaram na cultura européia durante a segunda metade do séc. XVII e a primeira metade do séc. XVIII, tendo como centro de irradiação a França. O chamado "neoclassicismo" francês produziu obras maravilhosas nos vários gêneros literários, imitando os escritores clássicos greco-romanos e renascentistas. Veja-se a tragédia de Corneille e Racine, a comédia de Molière, a fábula de La Fontaine. A Itália renascentista e barroca cultivou mais o gênero cômico do que o trágico. La Mandragola, de Nicolau Maquiavel, é o primeiro exemplo de comédia "burguesa" da era moderna. Carlo Goldoni, o maior comediógrafo do Setecentos italiano, reagiu contra os vulgares estereótipos da "Comédia de Arte", tentando reaproximar o teatro da realidade humana, seguindo os moldes clássicos e o exemplo de Molière. Na Espanha, em plena época barroca, surgem dois dramaturgos de projeção internacional: Lope de Vega e Calderón de la Barca. Em Portugal, é relevante o teatro de Gil Vicente. Mas o maior poeta dramático do Neoclassicismo (e talvez de todos os tempos) é o inglês Shakespeare. É bom lembrar, com o dramaturgo Eugène Ionescu, que "todo verdadeiro criador é clássico".