Dicionário de Cultura Básica/Dante

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Dante


DANTE, Alighieri (poeta símbolo da Itália: A Divina Comédia) → Épica

Lasciate ogni speranza voi che entrate

"Deixai qualquer esperança, vós que entrais": este famoso verso se encontra na porta de entrada para o Inferno, a primeira parte de La Divina Commedia, a obra-prima de Dante, da literatura italiana e da cultura da Idade Média. Apesar do nome "Comédia", e do sentido de "Epopéia", a obra não faz parte do gênero dramático e nem do épico, sendo um longo poema "didático-alegórico", por ter uma finalidade educativa e porque os ensinamentos são ministrados por uma cadeia de "símbolos", isto é, signos materiais que remetem à espiritualidade. Mas, se a obra máxima de Dante não é propriamente a epopéia de um homem ou de um povo, ela se configura como o epos de toda a humanidade, na busca do caminho da justiça social e da perfeição moral. A grandeza do poeta italiano reside em ter conseguido elevar à categoria da universalidade os problemas seus e de sua terra natal, através da força transformadora da arte. É por isso que seu poema parece ser sempre atual ao leitor de qualquer tempo e de qualquer lugar. De outro lado, é evidente o estrito parentesco da Divina Comédia com a poesia épica greco-romana. Virgílio, junto com o próprio Dante e a amada Beatriz, é uma das três personagens principais do poema. O autor da Eneida é escolhido como mestre e guia espiritual e poético. A idéia central da obra dantesca, expressa através da imagem da vida como longa peregrinação em busca das origens divinas do homem, já se encontra na Odisséia e na Eneida: Ulisses, que volta para sua terra natal, e Enéias, que chega à terra de seus ancestrais, são os protótipos de Dante, que, exilado, não conseguindo retornar a sua Florença, torna-se cidadão do mundo, imaginando voltar para o seio de Deus (Paraíso), de onde a humanidade emanou, após uma longa viagem de sofrimento (Inferno) e de purificação (Purgatório). Além do motivo central da viagem, Dante deve a Homero e a Virgílio uma série de topos próprios da poesia épica. Enumeramos os mais importantes: a descida ao inferno e a subida aos campos Elíseos; o recurso aos personagens da mitologia greco-romana; o uso da invocação às musas; a predestinação do herói; a profecia dos eventos futuros; o recurso dos sonhos e da sua interpretação simbólica. Mas, em Dante, toda a herança da cultura clássica é transubstancializada pela cosmovisão da Idade Média (→ Medievalismo). Nele, o antagonismo do espírito pagão e do espírito cristão é superado pela síntese das duas posturas perante a vida. A divina comédia se constitui no compêndio da civilização medieval: nesta obra se condensam e revivem em forma de arte dez séculos de concepção filosófica e religiosa, de instituições políticas e sociais, de cânones estéticos e morais. Podemos considerar a obra de Dante como a "suma" poética da Idade Média, comparável às "sumas" filosófica e teológica de Tomás de Aquino, a fonte doutrinal do poema dantesco, enquanto o poeta latino Virgílio foi sua fonte estética. A motivação, que determinou a colocação da enorme bagagem cultural de Dante em forma de arte, foi a realidade histórica e social. A divina comédia é a "história de um homem" que viveu seus últimos vinte anos de vida no exílio, peregrinando de uma cidade para outra, vivendo quase de esmolas, vítima de ódios políticos. É também a "história de um povo", do povo italiano do fim da Idade Média, dividido em várias cidades-Estado em contínuas lutas pela sobrevivência política, cada qual recorrendo à ajuda estrangeira, quer do poder imperial, quer do poder papal. Mas este aspecto particular, que faz parecer o poema de Dante quase como uma "crônica" da Florença de sua época, é sublimado pelo poder da arte, que confere universalidade a episódios contingentes. Por isso que A divina comédia é, sobretudo, "a história da humanidade toda", pois seu protagonista assume o papel simbólico de cidadão do mundo, que sofre e luta para alcançar os ideais cívicos da união, da justiça e do amor nesta terra e a fé num mundo melhor no além.

Notícias sobre o autor e a época

As principais fontes biográficas de Dante Alighieri são suas obras, pois em todas elas temos referências explícitas à sua vida. A diferença que hoje se costuma estabelecer entre o "autor", pessoa do mundo real, e o "narrador", personagem do mundo imaginário, em Dante quase se anula, devido ao cunho autobiográfico que ele quis infundir em seus trabalhos literários. A própria Divina Comédia, a ficção mais fantástica que o gênio humano foi capaz de produzir, está impregnada de um profundo realismo. A maioria de seus personagens pertence ao mundo de Dante, sendo seus contemporâneos, que ele apresenta em seus traços verdadeiros, confirmados pelo testemunho de historiadores. E, o que é mais importante, o 'eu" que narra não é diferente do "eu" que vive os fatos e do "eu" que escreve a história. Como já fizera Apuleio, no Asno de ouro (→ Metamorfoses), e como fará mais tarde Cervantes, no Dom Quixote, o autor da Divina Comédia se apresenta na obra com sua pessoa física, referindo-se à sua realidade existencial. No poema, a amada Beatriz chama-o pelo nome verdadeiro:

Dante, porque Virgílio vai embora,
não chore ainda, ainda não chore;
pois chorar te convém por outra dor.

Dante Alighieri nasceu em Florença, no mês de maio de 1265, de uma modesta família guelfa. O conflito entre o partido dos Guelfos e dos Guibelinos, que assolou a Itália por vários decênios, teve nome e origem na Alemanha, onde a casa nobiliar dos Wolf, que defendia os direitos dos pequenos Estados feudais, entrou em luta com a casa dos Wibling, que apoiava o imperador em suas pretensões de domínio. Na Itália, o partido dos Guelfos estava a favor do poder papal, enquanto o dos Guibelinos defendia o direito do imperador germânico. É de se lembrar que a Itália só adquiriu unidade e independência política no século XIX, após o movimento romântico, que deu origem ao "Risorgimento" italiano, cujos principais heróis foram Mazzini (com suas progressistas idéias filosóficas e políticas) e Garibaldi (com sua ação militar). Antes, a pátria de Dante viveu por longos séculos desmembrada em vários pequenos Estados. A Florença da época de Dante, minúscula república opulenta por ser um centro de comércio, de pequenas indústrias e de artesanato, tornara-se o centro da cultura italiana, sendo o berço de poetas e artistas. Mas sua vida política era perturbada pelas lutas externas (com outros principados) e internas. O partido dos Guelfos que, na época de Dante, governava a cidade, estava dividido em duas facções: uma, chefiada pela família dos Donati, representava a nobreza tradicional; outra, comandada pelo clã dos Cerchi, era formada pela burguesia que, enriquecida pelas suas atividades industriais e comerciais, aspirava a uma participação efetiva no governo da cidade. De um conflito entre famílias da vizinha cidade de Pistoia, as duas facções tomaram o nome de "Bianchi" (de Bianca Cancellieri) e de "Neri" (Negros, em oposição). Os primeiros constituíam, por assim dizer, o partido democrático, ciosos como eram de suas liberdades cívicas; os segundos, o partido tradicional e aristocrático, favorável à tutela e à intervenção do papa nos negócios internos de Florença. Saliente-se que a briga entre famílias poderosas pelo governo de um pequeno Estado era comum na Itália do fim da Idade Média. Lembramos a rivalidade das famílias Montecchi e Capuleto, em Verona, que originou a imortal história de Romeu e Julieta. Apesar deste clima de lutas, a infância de Dante foi tranqüila. Recebeu a primeira formação intelectual no convento de Santa Cruz dos padres franciscanos, completando os estudos literários, retóricos e filosóficos com o mestre Brunetto Latini e nas universidades de Bolonha e de Paris. Ainda quando tinha nove anos, ficou deslumbrado ao defrontar-se, numa festa, pela primeira vez, com Beatriz Portinari, um ano mais nova, menina de uma beleza angelical. A visão de Beatriz marcou profundamente a psique do futuro poeta. Mas este amor puro não lhe impediu de ter relações amorosas com outras senhoras. Beatriz morreu em 1290, e Dante, já há tempo órfão, acabou contraindo matrimônio com Gemma Donati, com quem teve três filhos. Sua tranqüilidade teve fim quando começou a participar da vida pública, inscrevendo-se na corporação dos médicos. Ocupou cargos importantíssimos como membro do Conselho dos Cem, várias vezes embaixador e um dos seis priores, que constituíam o poder executivo da cidade. Sua ação política visou sempre a apaziguar as facções rivais, não escondendo todavia sua simpatia pela causa dos Bianchi, o partido mais humilde. Seu parecer de expulsar da cidade os homens mais violentos das duas greis foi aprovado pelo Conselho dos Cem, mas, na execução da ordem, os mais atingidos foram os Neri, entre os quais se encontrava o poeta Guido Cavalcanti, o maior amigo de Dante. Este fato atirou sobre o poeta o ódio do partido, que pediu a ajuda do papa Bonifácio VIII. Este solicitou a intervenção do rei da França, Felipe o Belo, que enviou a Florença seu irmão Carlos de Valois para punir a facção dos Bianchi. Com a ajuda do papa e da casa da França, em fins de 1301, os Neri expatriados retornaram a Florença e perpetraram a vingança, depondo os Bianchi do poder e saqueando suas residências. Era a vez de os Bianchi serem exilados. Dante, durante a viagem de regresso de Roma, onde fora em embaixada para evitar a intervenção papal, tomou conhecimento da vitória dos Neri e de sua condenação a uma multa de cinco mil florins e ao exílio por dois anos. O poeta, sem dinheiro, indignado pela injusta sentença e temeroso de enfrentar seus inimigos exacerbados pelo ódio, ficou na vizinha cidade de Siena. O não-pagamento da pena pecuniária provocou outra sentença bem mais rigorosa: o confisco dos bens e o exílio perpétuo, com a pena de morte, caso voltasse à cidade natal. De 1302 a 1321, ano de sua morte na cidade de Ravenna, Dante peregrinou por vários Principados do centro e do norte da Itália, tentando sempre em vão o almejado retorno a Florença e vivendo da compreensão dos nobres italianos, que começavam a admirar seu gênio poético. Esta frase sintetiza a vida atribulada do poeta:

"não há dor mais profunda do que se lembrar do tempo feliz quando se está na miséria"

Composição da obra

A Divina Comédia é composta de três partes, chamadas de cânticos: "O Inferno", "O Purgatório" e "O Paraíso". Cada cântico se compõe de trinta e três cantos, com exceção do primeiro que contém trinta e quatro, pois inclui o primeiro canto, que é introdutório ao poema todo. A obra é constituída, portanto, de cem cantos. Cada canto, com uma média de cento e trinta versos, é composto de um número variável de tercetos, de versos decassílabos e de rima alternada. A primeira coisa que impressiona, ao estudar A divina comédia, é a capacidade de estruturação de seu autor. O número três, que na Idade Média era considerado mágico, acusa sua presença constante ao longo da obra: três cânticos, três vezes trinta e três cantos, estrofes de três versos, três feras no primeiro canto, três senhoras no segundo, nove "círculos" no inferno, nove "patamares" no purgatório, nove ceus no paraíso. Apenas mais uma particularidade da estrutura rígida da obra: as três partes terminam todas com a palavra "estrelas". Poderia se pensar que esta organização rigorosa, que torna A divina comédia a obra mais "fechada" de que temos notícia, pudesse prejudicar a inspiração poética de seu autor. Isso não acontece porque o gênio artístico de Dante não conhece separação entre estrutura e poesia. Ele soube estabelecer um equilíbrio perfeito entre os conteúdos ideológicos de seu mundo e a forma artística apta a expressá-los. A leitura da obra dá-nos a impressão de que Dante não pensou primeiro no conteúdo para, em seguida, dar-lhe forma, mas que os versos, com suas rimas, metros e acentos, iam saindo espontaneamente de seu espírito poético. Nenhum elemento do metaforismo estético do poema, repleto de imagens, comparações e símbolos, em momento algum, parece ser artificial e forçado. O halo da poesia que brota de seu espírito supera e sublima os esquemas estruturais e os modelos da cultura medieval.

Quanto à configuração espacial do mundo dantesco, o poeta italiano imaginou o Inferno formado por uma profunda voragem, em forma de funil, provocada pela queda do anjo rebelde Lúcifer quando, derrotado por Deus, foi lançado no centro da terra, nas proximidades de Jerusalém. Dante, evidentemente, acreditava no sistema ptolemaico, vigente na época, que considerava a terra o centro do Universo, ao redor da qual giravam os astros. Na cratera, composta de nove círculos, sempre mais estreitos na medida em que se desce, estão distribuídas as almas dos pecadores condenados às penas do inferno. O Purgatório é representado como uma montanha formada pelo deslocamento da massa de terra provocado pela queda de Lúcifer: o solo, empurrado pelo anjo rebelde, elevou-se do outro lado da terra, no hemisfério austral, aos antípodas de Jerusalém. Também o Purgatório se divide em nove partes: na base da montanha, o antipurgatório; ao longo da encosta, sete patamares, de forma circular, parecendo terraços; no topo, o paraíso terrestre. As almas, na medida em que se purificam, vão subindo a montanha. Como se pode perceber, o espaço do poema dantesco é "vertical", sendo que, no Inferno, a direção é para baixo, enquanto que, no Purgatório, a direção é para cima. O Paraíso, imaginado acima do Purgatório, é composto de nove céus, que regem os planetas Lua, Mercúrio, Vênus etc. Sobre os nove céus está colocado o "empíreo", composto de pura luz, onde vivem a Santíssima Trindade, a Virgem Maria e as almas santificadas, envolvidas pelos nove coros angélicos, que irradiam sem parar as ondas luminosas da graça de Deus. Aqui, o movimento não é nem ascendente, nem descendente, mas circular, a indicar a comunhão constante da visão beatifica de Deus.

Quanto às determinações temporais, o tempo da enunciação (→ Discurso) corresponde, de um certo modo, ao tempo empregado pelo autor na composição da obra: Dante escreveu A divina comédia durante o exílio, no último decênio de sua existência (1310–1321). Muito mais curto é o tempo do enunciado (→ Mito). Dante imaginou fazer sua viagem no mundo ultraterreno em uma semana: da noite da Sexta-Feira Santa, dia 8 de abril, até quinta-feira da semana seguinte, no ano de 1300. O motivo da escolha desta data prende-se ao fato de ser o primeiro "Ano Santo" da história do Catolicismo: o papa Bonifácio VIII determinou que o primeiro ano do novo século fosse considerado "jubilar", concedendo indulgências dos pecados a todos os peregrinos que fossem rezar em Roma (note-se a semelhança com a obrigação dos muçulmanos visitarem a Meca, capital do Islamismo). Quanto ao título do poema, Dante chamou sua obra de "comédia", por dois motivos: por ser a história de uma viagem que começa com a tristeza (inferno) e termina com a alegria (paraíso) e por utilizar o estilo simples e a linguagem popular. Essas características distinguiam as duas formas literárias mais tradicionais naquela época: a tragédia, de assunto e de estilo mais elevado, e a comédia, que era a representação da vida cotidiana. Evidentemente, Dante chama sua obra de "comédia" por um sentimento de humildade. O adjetivo "divina" foi acrescentado pelo poeta Boccaccio, anos depois.

Sentido do poema dantesco

A viagem imaginária de Dante nos três reinos do mundo do além-túmulo, assim como concebidos pela religião cristã, é uma alegoria da peregrinação do homem em busca da perfeição espiritual. Esta, evidentemente, só pode ser conseguida no contexto de uma estrutura social onde reine a justiça, a paz e o amor. Daí o fato de ter a obra dantesca por finalidade não apenas a salvação espiritual do indivíduo, mas também o aperfeiçoamento das instituições políticas e sociais. O Inferno é a representação poética do "extravio" e da perversão humana, cuja causa é a "alienação" da comunidade. O homem dedica-se à violência, à usura, à inveja, a todos os pecados, enfim, apenas se e quando rompe os laços de amor que o deveriam ligar a seus semelhantes. A maior culpa do homem é seu egoísmo e este tem sua origem na desordem político-social, que priva o ser humano de qualquer ideal cívico (→ Cultura). A própria Igreja, traindo sua função espiritual, persegue bens materiais, sendo representada como uma prostituta. Esta idéia de falta de união social, que leva à degradação humana, é expressa artisticamente por vários componentes poemáticos:

1) Personagens: os atores que povoam as regiões infernais não têm nenhum sentimento de caridade ou de compaixão com seus companheiros de sofrimento, mas acusam-se e denigrem-se mutuamente. A galeria dos tipos de condenados e os lugares e os modos de seu penar são descritos de modo a pôr em evidência o ódio que invade as almas dos que vivem no isolamento espiritual. O fim do sistema de vida feudal que, através da vassalagem ascendente e descendente, unia, de uma certa forma, a sociedade humana, provoca, pela passagem para o sistema de Comunas, Senhorias e Principados, a desagregação política. O preço das liberdades cívicas é o egoísmo dos indivíduos, dos clãs familiares, das classes sociais.
2) Espaço: o verticalismo, no Inferno, assume a direção para baixo. Quanto maior for a culpa do condenado, mais inferior e mais intenso é seu lugar de sofrimento. E quanto mais se desce, mais o ambiente é fétido e oprimente. Além disso, contraposto ao movimento circular e harmonioso do Universo, o espaço infernal é representado como uma voragem, dirigida do exterior e por uma força cega, símbolo da falta de orientação do espírito.
3) Tempo, representado pela eternidade das penas, é negada sua transitoriedade. A perda da esperança da salvação faz com que o Inferno simbolize tudo aquilo que é irremediavelmente fixo, o espessamento espiritual. Dante tenta resolver a grande contradição da religião crista, que consiste no contraste entre a infinita misericórdia de Deus e o dogma da condenação perpétua dos pecadores, sugerindo que a punição eterna não reside na vontade de Deus, visto como justiceiro, mas na auto-obstinação dos condenados, na falta de um querer penitenciar-se e melhorar-se. Com efeito, a suprema forma de degradação espiritual é fornecida por Lúcifer (→ Satã representado enrijado no gelo, privado de qualquer movimento, visto como símbolo da insensibilidade. Enquanto a eternidade é a fixação no tempo, a estaticidade é a fixação no espaço. Ambas as noções estão ligadas à idéia da morte, ao passo que o dinamismo indica a vida. Ainda com relação à categoria do tempo, é bom lembrar que a viagem de Dante no Inferno se realiza de noite, representando as trevas, o extravio e a impossibilidade do encontro do equilíbrio existencial. Enquanto o Inferno é o reino da fixidez eterna, no Purgatório predomina o "movimento" que acusa o caráter de transitoriedade desta parte da viagem, indicando a "passagem" do sofrimento para a felicidade.

O verticalismo, sentido espacial próprio da estética medieval (vejam-se as catedrais góticas, por exemplo), aqui adquire a direção para o alto: Dante sobe a montanha do Purgatório, em sua caminhada rumo ao céu. A escalada do monte, evidentemente, é o símbolo da ascese espiritual. Esta é expressa plasticamente pelo apagamento, a cada patamar, de um dos sete p (pecados), impressos na fronte do poeta. Mas o p é também a letra inicial de "peso": o princípio da gravidade, que puxa para baixo e dificulta a subida da montanha. O sentido espiritual desta subida material é a "purificação" da alma humana, que se realiza pela passagem das trevas da ignorância (pecado) para a luz da verdade (virtude). O sentido da "visão" que predominará no Paraíso, onde tudo é luz brilhantíssima, já marca sua presença no reino do Purgatório, em oposição ao espaço infernal, completamente escuro. E sintomático o fato de que a viagem pelos sete patamares só se realiza de dia. Ao cair da noite, Dante e Virgílio interrompem a caminhada, pois sem a luz do sol (a inteligência), não é possível o progresso espiritual do homem. O mesmo sono (inconsciência e morte) é vivificado pelo sonho: Dante, durante as várias noites que passa no Purgatório, tem visões que iluminam seu subconsciente. O conhecimento da profundeza da miséria humana, adquirido pela viagem no Inferno, coloca o protagonista em condição de poder "purgar-se" de suas culpas. É o princípio da Psicanálise (→ Psiquê): somente a descoberta da origem do complexo pode propiciar a cura da doença espiritual. Ao individualismo egoísta e ao ódio recíproco que caracterizam as almas que vivem no Inferno, opõe-se o sentimento de compreensão mútua que irmaniza as almas do Purgatório. A passagem do espírito individual ao espírito coletivo e comunitário é expressa através dos diálogos, dos cantos litúrgicos corais e das cerimônias religiosas. A comunhão abrange não apenas as almas que habitam o Purgatório, mas se estende a criaturas que vivem na terra e no céu. Muitos espíritos pedem a Dante que, quando de sua volta junto aos mortais, solicite a seus parentes preces e obras de bem para a diminuição das penas. A instituição da "indulgência" é uma forma de estabelecer uma ligação amorosa entre o mundo dos vivos, o mundo dos mortos e o mundo dos santos. Reciprocamente, as almas do Purgatório (e do Paraíso) não são insensíveis à sorte dos mortais. Se o Inferno é a epopéia do passado, a descrição do que já foi, do imutável, o Purgatório é a epopéia do futuro, da "esperança" de felicidade, que se dá pelo término do sofrimento presente. A esperança de dias melhores não é apenas das almas penadas, mas também dos homens que vivem sobre a terra. Perante sua cidade e sua península, dilaceradas por guerras intestinas, fomentadas pelo ódio e pela cobiça, Dante, colocando-se acima de seus problemas pessoais, sonha com o advento de um imperador enviado por Deus, que possa governar a Itália e a Europa com justiça e ordem. Este seu desejo é compartilhado pelas almas do Purgatório e do Paraíso, que predizem uma era de paz e amor. Mas, diferentemente do que acontece nos outros poemas épicos, onde todas as profecias se efetuam, porque já são realidades no tempo da enunciação, as profecias de A divina comédia não ultrapassam o plano do desejo de seu autor. Por isso, a profecia, mais do que uma predição, é uma exortação aos italianos para que, deixando de cultivar ódios e egoísmos, criem as condições necessárias ao estabelecimento de um governo justo. A finalidade educativa e moralizante da profecia dantesca está evidente na insistência de Beatriz (e de outras almas) para que Dante não se esqueça de referir a seus patrícios exatamente o que ele viu e ouviu:

Toma nota: e assim como as expressei
estas palavras transmita aos vivos,
cujo viver é um correr para a morte.

Em verdade, o futuro, antes de ser predito, quer ser "provocado", pois a teologia do Purgatório é toda voltada para o conseguir a "conversão", a mudança de direção, a renovação de mentalidade, quer no plano individual-espiritual, quer no plano coletivo-social. O sentido mais profundo do Purgatório reside na consideração de que a culpa humana está no apego aos bens materiais que são alienantes, enquanto os bens espirituais (o amor, a fé, o ideal da pátria) promovem a harmonia social e o progresso civilizacional. A harmonia sonhada por Dante se realiza na última parte do poema, no Paraíso. Antes de tudo, este é o reino da "harmonia cósmica". Com base na ordem astrológico-teológica, assim como concebida na Idade Média, Dante constrói sua visão do Universo. Este é regido por Deus, o motor imóvel que tudo move: sua luz, criadora e fecundadora, é transmitida aos céus e, através destes, à Terra. Os céus, ao rodarem incessantemente, irradiam luz e emitem sons melodiosos que extasiam as almas que os habitam. O espaço celeste não tem o sentido de verticalidade, mas de "circularidade", envolvendo todos os elementos criados, pois nada pode estar fora da esfera da influência de Deus. Junto com o concerto cósmico, é preciso salientar a "harmonia social". Os espíritos do Paraíso, apesar de ocuparem céus diferentes e de gozarem, portanto, de uma maior ou menor proximidade com Deus, todos vivem igualmente felizes, não havendo possibilidade de inveja, pois cada qual recebeu a parcela de glória proporcional aos seus méritos e à sua capacidade de gáudio. Esta estrutura paradisíaca expressa, alegoricamente, o desejo de Dante de ver construída uma sociedade civil em que se realizasse a unidade da comunidade na diversidade das vocações e dos ofícios. Estamos próximos do ideal de vida comunitária, do sonho do estabelecimento de um Estado em que cada homem, sem inveja e sem egoísmo, ocupando o lugar a que suas qualidades naturais e sua formação profissional o habilitem, trabalhe para o bem-estar e o progresso da coletividade.

O Paraíso é ainda o reino da harmonia individual. Sendo o homem a primeira célula da sociedade, é evidente que esta só pode ter vida harmoniosa se seus membros conseguirem conquistar a perfeição moral. Para tal fim, são necessários três elementos: 1) a luz da inteligência humana (o "saber"), personificada por Virgílio: sem a faculdade de discernimento, que propicia uma clareza intelectual, é impossível o início do progresso espiritual do homem; 2) a vontade do sujeito (o "querer"), personificada pelo protagonista da narrativa, o próprio Dante: se é preciso saber o que se quer, também é necessário desejar ardentemente o objeto procurado, pois na origem de toda busca existe sempre um ato de amor; 3) a ajuda necessária para o conseguimento do objeto (o "poder"), fornecida por Beatriz, símbolo da graça divina. É a posse cumulativa dessas três modalidades (saber + querer + poder) que fornece ao homem a "competência", a capacidade da realização do ato. Para o homem medieval, o fator mais importante para se conseguir a "performance" da perfeição espiritual era, sem dúvida, a graça divina. Antes do querer humano, deve existir o querer divino que predestina o indivíduo ao conseguimento da salvação. É Deus, por intercessão de Beatriz, o destinador da redenção espiritual do poeta. No Paraíso, os olhos de Beatriz são constantemente apresentados como fonte de luz e de amor. É neles que Dante encontra a solução de suas dúvidas metafísicas e morais, além da força, sustentada pelo sentimento amoroso, para levar a termo sua viagem. A mulher amada, segundo os padrões estéticos e ideológicos da poética trovadoresca (→ Trovadorismo), é o único refúgio, o porto de salvação, quando a nau da vida é balançada pelas procelas das paixões, que provocam a dor de existir.