Dicionário de Cultura Básica/Inferno

Wikisource, a biblioteca livre
< Dicionário de Cultura Básica
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Inferno


INFERNO (Hades, Tártaro, Plutão, espaço do sofrimento transcendental) → Dante

"L’ Enfer sont les autres"
(Sartre)

O mundo infernal era imaginado pelos gregos como situado no interior da Terra: a palavra latina infernus é composta a partir do prefixo infra ("abaixo"), a entrada sendo localizada em Cumas, região vulcânica perto do golfo de Nápoles. Para passarem do mundo dos vivos para o mundo dos mortos, as almas deviam atravessar, na barca de Caronte, o Aqueronte, um dos cinco rios infernais (os outros eram Estige, Cocito, Flegetonte e Lete). A porta do inferno era guardada por Cérbero, cão com três cabeças e com serpentes envolvendo seu pescoço. O deus do inferno era Plutão (Hades, na Grécia), filho de Saturno (→ Cronos) e de Cibele, sua irmã e esposa e mãe de Júpiter, que reinava sobre os mortos, tendo como auxiliares várias divindades menores: Hécate (deusa da feitiçaria); as três Fúrias (Erínias), Alecto, Tisífone e Megera, forças misteriosas, vingadoras dos crimes contra a família ou a sociedade; as Harpias, aves com cabeça de mulher, que raptavam tudo, especialmente crianças e almas; a Morte (→ Tánatos); o Sono (→ Hipnos); as Górgonas, três irmãs das quais a mais famosa era a Medusa, monstro com cabeça enorme e cabeleira de serpentes. Plutão raptou e desposou Prosérpina, contra o consenso da mãe Ceres (→ Terra). Além de deus da morte e da destruição, Plutão, com aparente contraste, era também venerado como deus da vida e da reprodução, pois protegia as sementes ocultas embaixo da terra. Ele julgava as almas que chegavam no Inferno e enviava as más para o Tártaro, lugar de sofrimento, e as boas para os Campos Elíseos, lugar de gáudio. Os protagonistas dos poemas épicos A Odisséia, A Eneida e A Divina Comédia descem até o fundo do inferno para conhecerem o passado e terem a premonição do futuro. Plutão, príncipe da riqueza e das trevas (o sarcasmo dos opostos!), simboliza as profundidades do mundo interior, os mistérios da psique humana, "recalcada" por pecados atávicos ou pessoais, conscientes ou inconscientes. O Tártaro é o senhor impiedoso, cruel, que não dá trégua a nenhuma vítima caída no abismo eterno, representando a derrota definitiva (pois irremediável) de uma existência. A essência íntima do Inferno é a crença em pecados atávicos, no sentimento de culpabilidade, pelo qual as religiões e as ideologias vivem atormentando o ser humano. Daí o poeta existencialista francês, Jean-Paul Sartre, exclamar na sua peça Entre quatro Paredes: "O Inferno são os outros!". A palavra "Inferno" é, também, o título do terceiro cântico (os outros são "Purgatório" e "Paraíso") do famoso poema alegórico de Dante Alighieri, A Divina Comédia, onde o poeta italiano descreve o sofrimento das almas que pecaram neste mundo, já no contexto da religião cristã (→ Cristo).