Dicionário de Cultura Básica/Dança

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Dança


DANÇA (clássica, moderna, de salão, sapateado, discoteca) → BiodançaMúsica

Uma úlcera é uma dança não dançada,
uma aquarela não pintada,
um poema não escrito
(Jonh Ciardi)

O étimo é do antigo francês dancier, atual danser, enquanto os termos afins baile e balé derivam do verbo latim ballare. Os gregos usavam o verbo orkeomai , cognato do substantivo "orquestra", para indicar a ação da dança que, na sua essência, é a linguagem do corpo, resultando da soma de duas artes: Coreografia e Música. Mas ela estabelece relações com outras artes também: com o Teatro , pela representação cênica (o dramaturgo sueco Strindberg intitula uma sua peça A dança da morte, em que põe em cena o "vai-vem" monótono da vida conjugal, que torna marido e mulher dois adversários mesquinhos e sórdidos); com o Cinema, especialmente os filmes musicais, dancings, sapateados; com o show artístico e folclórico, com a Pintura (o quadro mais famoso com o título "A Dança" é de Henri Matisse), a Escultura (o modelo em gesso, de Jean-Baptiste Carpeax, também chamado "A Dança"). Fora do campo das artes plásticas, a dança estabelece uma relação profunda com a Religião, especialmente nas suas formas primitivas e rituais dos grupos tribais e nos cerimoniais sagrados orientais.

A dança é uma das artes mais presente nas manifestações culturais de todos os povos e em todos os tempos. A universalidade do uso da dança talvez encontre sua explicação no inconsciente coletivo, simbolizado pelos gregos através do mito do andrógino: o irresistível desejo da volta à primordial conjunção do ser masculino e feminino, separados por vontade de Júpiter. Na dança, especialmente em suas modalidades mais sensuais, o homem e a mulher se entrelaçam, tentando reconstruir a perdida unidade. Nos povoados primitivos a dança, praticada muito mais do que nas sociedades civilizadas, funciona como uma espécie de terapia ocupacional, uma fuga da monotonia do cotidiano e, sobretudo, um aprendizado, pois ritos, ritmos e coreografias servem como iniciação nos mistérios da vida, representando fertilidade, casamento, guerra, morte. Mesmo nas sociedades aculturadas, a prática da dança, especialmente a de salão, tem seu aspecto educativo. Algumas décadas atrás, anteriormente à moda da música de discoteca, os adolescentes escolhiam seu par em bailes de salão organizados por clubes ou igrejas. Nestes bailes, as moças acabavam conhecendo o caráter dos futuros maridos pelo modo como o jovem conduzia a parceira, planejava o rumo dos passos, lidava com o fracasso, quando um pisasse no pé de outro. O olho no olho, o carinho do toque, o cheiro da pele, o romantismo da música e das letras estimulava a atração física e espiritual.

A dança, como qualquer outra atividade humana, evidentemente, evoluiu ao longo dos tempos, adquirindo várias denominações: primitiva, religiosa, folclórica, de salão, de corte, latina, caribenha, carnavalesca etc. Ela é praticada por diferentes ritmos e movimentos, nas várias modalidades. Uma importante divisão é feita entre dança "clássica" e dança "moderna". Até o início do do século XX, paralelamente às formas populares de bailado, era cultivada a chamada dança clássica, de escola ou de salão, rigorosa quanto aos ritmos, à coreografia, aos calçados e às vestimentas; até que a dançarina norte-americana, de origem irlandesa, Isadora Duncan (1878–1927), revolucionasse o conceito de dança, libertando esta arte das amarras dos modelos rígidos ensinados especialmente nas escolas francesas de "La Belle Époque". Duncan, retomando o modelo da dança primitiva da Grécia, vestida com uma simples túnica, descalça, movimentava-se ao som de músicas que não tinham sido compostas especificamente para a dança. Nascia, então, a dança "livre" ou moderna, sem nenhuma regra fixa quanto a ritmo, movimento ou coreografia. Portanto, a tipologia contemporânea da dança apresenta três macro-gêneros, cada qual com suas variadas espécies: l) a dança popular ou folclórica; 2) a dança clássica; 3) a dança moderna. Evidentemente, tal divisão, como qualquer classificação, é apenas didática, nunca rígida, podendo-se encontrar formas intermediárias ou misturadas. Eis uma pequena revista dos principais ritmos de danças e bailados:

Sapateado: dança de origem espanhola, mas que chegou à glória máxima nos EUA (tap-dance) com o teatro de vaudeville, o showbiz e o cinema de Fred Astaire. Sua característica é marcar o ritmo musical com a ponta e o salto dos sapatos, às vezes munidos com chapas metálicas. Um personagem do filme de Fellini Ginger & Fred afirma, com uma boa dose de sarcasmo, que a origem do sapateado está no sistema de comunicação entre os escravos que trabalhavam nos algodoeiros americanos. Eles usavam as batidas dos pés como uma linguagem secreta, uma espécie de alfabeto Morse, para não serem entendidos pelos patrões, fazendo do sofrimento um show.

Habanera: de Havana, era um bailado afro-cubano que, com seu compasso binário, tendo o primeiro tempo fortemente acentuado, influenciou a maioria das danças populares dos países ibéricos e hispano-americanos, especialmente o maxixe (dança carioca da década de 1870–1880, substituída pelo samba), a milonga e o tango.

Bolero: dança e canto de origem castelhana, tradicionalmente acompanhada de castanholas, guitarras e tamborim. Na sua versão mexicana, o bolero começou a ser cultivado em toda América Latina, a partir do início do séc. XIX. Na da década de 20, com o surgimento da primeira fábrica de discos, o bolero mexicano invadiu o mercado da música latino-americana.

Forrô: o étimo mais aceito é do inglês for all ("para todos"). No Nordeste brasileiro, os donos de engenhos e outros ricaços estrangeiros, após suas festas, liberavam os terreiros para os escravos e outros serviçais se divertirem, bailando ao ritmo da sanfona, zabumba e triângulo O ritmo popular, dançado nos pés-de-serra, se urbanizou e do Nordeste se espalhou pelo país todo, sendo hoje em dia a música mais tocada nos bailes de salão, especialmente durante as festas juninas.

Mambo: do zulu im-amba ("cobra"), o mambo é uma dança de origem cubana. O ritmo é mistura de rumba (outra dança cubana de origem africana) e de swing ("balanço"), também chamado de soltinho, uma qualidade rítmica do jazz norte-americano em voga na década de 40, chamada a "era do swing", tocado pelas big bands. Neste tipo de bailado bem sensual, o compasso de 2/4 é realçado pela percussão e pelo jogo dos quadris, alternando o lado.

Milonga: o étimo é de origem africana, a língua falada pelos Quimbundos, indígenas de Angola, que chegaram na baia do rio de La Plata, nos fins do século XIX, morando nos subúrbios de Buenos Aires e Montevidéu. O sentido primitivo de milonga é "palavra", daí a expressão em língua portuguesa "deixa de milongas", de palavreado longo, vazio, mentiroso. Mas milonga significa também um canto platino dolente ao som do violão e uma dança em ritmo binário, uma mistura de habanera e tango andaluz que, embora ofuscado pelo tango argentino, ainda tem seus cultores.

Tango: em suas origens, a palavra "tango" indica um tambor africano e a dança executada ao som desse instrumento musical. Em fins do séc. XIX, surgiu nos subúrbios de Buenos Aires, o famoso "tango argentino", que se tornou uma das mais famosas e duradouras dança de salão sul-americana. A perfeição de sua configuração rítmica e coreográfica, em suas múltiplas variantes, foi conseguida pela convergência de várias danças anteriores: a cubana habanera, a africana milonga, o tango andaluz e outros ritmos populares europeus, além do candomblé brasileiro. Dança muito sensual pelo forte entrelaçamento dos corpos do casal, no começo era praticada por mulheres levianas que, na zona do porto do rio de La Plata, proporcionavam diversão aos marinheiros e viajantes. Mas, aos poucos, começou a ser aceita pela sociedade, tornando-se dança de salão, sendo ensinada e praticada nas mais importantes cidades da Argentina e da América do Sul, ultrapassando inclusive as fronteiras continentais.

Tarantela: do italiano Tarantella, nome topográfico da cidade siciliana Taranto, é uma dança popular do Sul da Itália. De ritmo bem alegre, a música é acompanhada de tambor ou de castanholas e, geralmente, também pelo canto coral. Esteve na moda entre o fim do século XVIII e o início do XIX. Atualmente faz parte do folclore da Itália Meridional. No Brasil, a Tarantela ainda é cultivada por grupos de origem italiana e por simpatizantes, dançada durante festas a caráter.

Valsa: do alemão walzer, do verbo walzen ("girar"). É uma dança de salão padronizada, em três tempos, caracterizada pelo rodopio dos casais. De origem austríaca, passou a substituir o minueto nas festas da alta burguesia euopéia. Além da valsa-dança, temos a "valsa de concerto", que teve muitos cultores na música sinfônica. Famosa é a valsa vienense, de ritmo bem vivo e rápido, cujos clássicos foram Haydn, Mozart, Beethoven, Schubert, Weber, Chopin, Liszt e os três irmãos Strauss (Johann, Joseph e Eduard). No Brasil, a valsa costuma ser tocada e bailada em ocasiões especiais e solenes, como festas de formatura e de aniversários. A valsa passou a identificar o bailarino: é chamado "pé-de-valsa" quem dança bem.

A dança contemporânea: a partir dos anos 50, quer os ritmos latinos, quer os norte-americanos, apresentam a tendência a separar os casais, prestigiando a dança solta, individual ou em grupo, embalada pelo ritmo frenético do saxofone, das trombetas e dos instrumentos de percussão. Uma série de modas se sucede: swing, salsa, calipso, cha-cha-cha, twist, rock-and-roll, hully-gully, iê-iê-iê, jazz. Nas discotecas, as novas gerações se divertem acompanhando o ritmo dos metaleiros com movimentos livres, improvisados, sem condução do parceiro, cantando numa língua que a maioria não conhece. É uma pena que a percussão esteja matando a melodia e a dança não entrelace mais homem e mulher, que é a melhor configuração artística da conjunção do masculino e do feminino! Mas, felizmente, ainda há gente de bom gosto (especialmente adultos) que prefere o som harmônico da dança de salão à barulheira da discoteca.

À Biodanza dedicamos um verbete específico.