Dicionário de Cultura Básica/Pintura

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Pintura


PINTURA (arte e técnica de aplicar tintas)

A pintura é uma poesia muda
e a poesia é uma pintura cega
(Leonardo da Vinci)

Do latim pictura, a pintura é a arte de aplicar linhas e cores sobre uma superfície previamente preparada, com a finalidade de construir uma imagem, utilizando vários materiais (água, cola, goma, resina, óleo) com resultados diferenciados: têmpera, afresco, aquarela, guache, óleo sobre tela. Sua origem, como a de outras artes, se perde ao longo dos tempos, não existindo nenhum agrupamento humano que não cultivasse técnicas de desenho e de representação de objetos, respondendo à necessidade do "útil" (a imagem de um animal selvagem numa pintura rupestre funcionava como alerta ao perigo) e do "agradável" (o prazer estético de os indígenas colorirem partes do corpo). Assim, a História da Arte registra a presença de formas e técnicas pictóricas na pré-história das culturas mais antigas da Indonésia, Oceania, América e África. As figurações melhor elaboradas são encontradas no Oriente Médio, remontando à civilização mesopotâmica e egípcia, com início no terceiro milênio a.C. A Antiguidade Clássica da Grécia e de Roma nos deixou apenas fragmentos, especialmente de pintura de vasos, representando temas da mitologia. É que a ação do tempo prejudicou muito mais a arte pictórica do que a escultura e a estatuária por motivos evidentes. Por isso, realmente, a História da Pintura no Ocidente começa com a iconografia e os mosaicos bizantinos, chegando ao apogeu com os pintores italianos que viveram entre o fim da Baixa Idade Média (→ Medievalismo) e do começo do Renascimento. A cidade de Florença pode ser considerada o berço da pintura da Europa moderna e Giotto (1266–1337) seu primeiro grande artista, pois levou a termo o processo de "humanização" da arte de pintar, superando a tradição bizantina das formas rígidas, hieráticas. Fra Angélico (1400–1455), também chamado de "Il Beato Angélico", formado no estilo gótico, já apresenta os primeiros traços de naturalismo, que irá distinguir a arte humanista da medieval pela importância das formas corpóreas. O florentino Botticelli (1445–1510) sente fortemente os influxos dos ideais renascentistas, estabelecendo uma conexão com a antiga arte greco-romana. Sob o patrocínio da família dos Médici, deixou-nos uma vasta obra pictórica, destacando-se A Primavera, Minerva e o Centauro, O nascimento de Vênus, Adoração dos Magos, Madonna do Magnificat. E é na Florença da família dos Médici que se desenvolve o maior gênio da pintura renascentista: Leonardo da Vinci. A este homem, considerado o maior inventor da humanidade pela sua cultura enciclopédica, que ficou mais conhecido pela sua atividade de pintor, especialmente como o autor do quadro Mona Lisa, chamado também "La Gioconda", a obra de arte mais visitada do Museu do Louvre, dedicamos um verbete à parte.

Rafael (Raffaello Sanzio: 14831520) já pertence mais especificamente à fase romana da Renascença italiana. Discípulo de Leonardo, sua arte amplia os horizontes da pintura, aproximando-a da Arquitetura, de que ele também foi mestre. Entre seus quadros mais famosos, assinalamos: A Escola de Atenas e O Triunfo de Galatéia. Outros pintores famosos do segundo Renascimento na Itália: Tintoretto (1518–1594) e Ticiano (1489–1576), pertencente à escola veneziana. A Pintura do séc. XVII (→ Barroco) confere uma maior emoção e dramaticidade às telas, aumentando os volumes e os elementos decorativos. O italiano Caravaggio, o belga Rubens, o holandês Rembrandt e o espanhol Velásquez são os maiores representantes do novo estilo. A pintura da época romântica intensifica os valores da intuição, da emoção e da imaginação. Já com a estética do Realismo, a pintura volta seu olhar para a natureza. O pai do movimento realista na pintura foi Gustave Courbet (1819 —1877). Ele afirma que "a pintura é essencialmente uma arte concreta e tem de ser aplicada às coisas reais e existentes". Mas nesta época já aparece a escola do Impressionismo, a ponte de passagem entre a arte clássica e a moderna, com as obras geniais de Manet, Monet, Renoir, Degas. Nos alvores do séc. XX, dá-se a rebelião consciente da arte no campo da pintura, chefiada por Henri Matisse. Um grupo de jovens artistas plásticos expõe seus quadros no Salão de Outono, em Paris, chocando a sensibilidade da elite que ainda confiava no status quo, na manutenção da estabilidade política, social e estética herdada do século anterior. Eles abriram o caminho para uma nova arte visual, em que irão predominar a cor pura, a liberdade do volume e das formas, adquirindo vários ângulos de percepção. Essa nova estética produzirá um gênio da pintura, que se tornará o ícone e símbolo da própria arte do séc. XX: Picasso! Com os movimentos estéticos da Vanguarda, a arte da pintura passa do Realismo para o Cubismo, do Impressionismo para o Expressionismo, do Figurativismo para o Abstracionismo → Surrealismo.

No Brasil, os grandes pintores estão ligados, de alguma forma, à estética exaltada na Semana de Arte Moderna (→ Modernismo). Destacamos: Di Cavalcanti (1897–1976), o mulatista-mor da pintura brasileira, definido por Mário de Andrade como o "analista do Rio de Janeiro noturno, satirizador odioso e pragmatista das nossas taras sociais". Ficou dois anos em Paris (1923–1925), assimilando técnicas de pintura da Vanguarda européia (Expressionismo, Cubismo e Surrealismo). Entre suas telas mais importantes assinalamos Colombina, Mesa de Bar, Cinco Moças de Guaratinguetá, Pescadores, Moças com Violões, Mulata com Leque, Nascimento de Vênus, Onde eu estaria Feliz (no meio de mulatas, é claro!). Tarsila do Amaral (1890–1973), autora da tela Abaporu, a pintura emblemática do Modernismo brasileiro. Também ela viveu um tempo na Europa, absorvendo as modas estéticas das duas primeiras décadas do séc. XX. Em 1922, ano da famosa Semana de Arte, juntou-se a Mário e Oswald de Andrade, a Anita Malfatti e a Menotti Del Picchia, formando o "Grupo dos Cinco". Além de Abaporu, lembramos outras obras onde emergem todas as questões caras à arte moderna no Brasil (a estruturação da superfície conforme o Cubismo, as cores locais, a temática nacional, o conteúdo social): A negra, Operários, 2ª Classe, A gare, As costureiras e toda a série da Antropofagia. Portinari (1903–1962): paulista de Brodósqui, filho de imigrantes italianos, Cândido Torquato Portinari é um dos mais famosos artistas brasileiros. Familiarizou-se com a arte da pintura desde criança, quando ajudava na restauração de quadros da igreja de sua cidade natal. Em 1928, recebeu um prêmio que lhe possibilitou passar uns anos na Europa, onde conheceu a pintura renascentista italiana e aprendeu a arte da Vanguarda européia. Elevado à condição de "pintor nacional" durante o governo de Getúlio Vargas (1930–1945), foi professor de Pintura da Universidade Federal de Brasília e exerceu outros cargos públicos, representando a arte brasileira em muitos congressos e pavilhões no Exterior, onde ganhou vários prêmios. Sua arte de pintor encontrou seu vulto peculiar na confecção de "murais", seguindo a moda do muralismo mexicano. Os murais mais famosos de Portinari são: "Monumento Rodoviário" na Via Dutra; "Pavilhão do Brasil" na feira Mundial de Nova York; "Fundação Hispânica" na Biblioteca do Congresso, em Washington; Painéis e Azulejos da Igreja da Pampulha, em Belo Horizonte; "Tiradentes" no Memorial da América Latina, em São Paulo; "Guerra e Paz" na Sede da ONU, em Nova York. Entre suas telas mais famosas, lembramos Café (1935, Museu da Arte Moderna no Rio de Janeiro, prêmio do Carneige Institute, de Nova York) e a série Emigrantes (1944, MASP).