Dicionário de Cultura Básica/Cinema

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Cinema


CINEMA (origem e evolução)

A oitava arte: a imagem em movimento

A palavra "cinema" é um termo médio, entre o inteiro e originário "cinematógrafo" e o moderno e abreviado "cine". Deriva do grego kinematos ("movimento"), substantivo formado do verbo kinéo ("mover", pôr em movimento) + grapho ("desenho"). O cinematógrafo é um aparelho capaz de nos dar a ilusão do movimento, projetando numa tela imagens fixas, previamente registradas numa película, a uma altíssima velocidade. Se a Pintura é arte da imagem fixa, do retrato, o Cinema é a arte da imagem em movimento. O cinematógrafo é de origem francesa: foram os irmãos Lumière que criaram uma máquina que atendesse às duas condições indispensáveis para o funcionamento daquela que passou a se chamar "a oitava arte": registrar o movimento e projetar filmes. A primeira película, "A chegada do trem à Estação", exibida em 28 de dezembro de 1895, para um público de 36 pessoas, causou um verdadeiro pânico: os expectadores saíram correndo do Salon du Grand Café, de Paris, com medo que o trem as atropelasse. As imagens se moviam, dando uma ilusão de realidade. Duas décadas depois, a partir do início do séc. XX, o cinema se torna uma indústria, uma máquina de fazer dinheiro. Na França, com o projeto Films d’ Art, a cinematografia começa a utilizar a Literatura e o Teatro: atores famosos passam do palco para os estúdios de cinemas, interpretando personagens extraídas de obras literárias clássicas, românticas e realistas. Nos Estados Unidos, após violentas brigas pelos direitos autorais, durante a chamada "guerra das patentes" (1897–1906), produtores independentes se refugiam na Califórnia, fundando Hollywood, que se torna a Meca do cinema. A Itália também passa a destacar-se como grande produtora de filmes. Estamos ainda na época do cinema mudo, influenciado pela Vanguarda européia, o movimento artístico antipassadista que, especialmente através do Surrealismo, empresta recursos técnicos à produção de películas. Luis Buñuel foi para o cinema espanhol, o que Salvador Dali foi para a pintura surrealista. Mas, com o estouro da I Guerra Mundial (1915–1918), a Europa fica paralisada do ponto de vista artístico, dando chance a Hollywood de afirmar-se como a capital mundial do cinema. É lá que se cria o Star System, baseado na popularidade dos atores através da uma poderosa montagem propagandística. Rodolfo Valentino (→ Adônis), até hoje, continua como mito da beleza masculina, do jovem sedutor irresistível.

Marilyn Monroe (1926–1962), a estrela hollywoodiana mais famosa, também foi mito do cinema por várias décadas, alimentando o imaginário masculino pela sua beleza e sensualidade, sendo amada por personalidades ilustres, inclusive pelo presidente Jonh Kennedy, segundo fofocas. Seu suicídio, aos 36 anos, ainda está envolto no mistério. Mas a figura mais importante da fase do cinema mudo é Charles Chaplin (1889–1977). Filho de artistas de music-hall ingleses, passou a maior parte de sua vida em Hollywood, onde foi sócio da United Artists, atuando como produtor, diretor e ator. Enquanto as maiores nações européias se massacravam, Chaplin produzia filmes e interpretava o personagem "Carlitos", o cômico mais humano, que o imortalizou. Apenas numa década, entre 1913 e 1923, já tinha feito e interpretado mais de 50 filmes. Em sua obra encontramos uma mistura de sátira social e política, pastelão, comédia e lirismo. Como ele bem disse, "No fim, tudo é uma piada". Entre suas películas mais geniais, apontamos na linha cronológica: Vida de cachorro (1918); o Garoto (1921); Pastor de almas (1923); Em busca do ouro (1925); O Circo (1928); Luzes da cidade (1931); Tempos modernos (1936); O Grande Ditador (1940); Luzes da Ribalta (1952); Um Rei em Nova York (1957); A Condessa de Hong Kong (1965).

O avanço tecnológico proporcionou verdadeiras revoluções na técnica cinematográfica. Em 1927, o filme começa a falar, evitando as horríveis legendas e obrigando os atores a tomar aulas de dicção. Com a crise econômica de 1929, o cinema sonoro de Hollywood encontra uma forma de escapismo nos gêneros épico, fantástico, musical e western, quando surgem grandes diretores, como Cecil B. de Mille, Lubitsch, Capra, John Ford, entre outros, e astros que se tornaram mitos: Marlene Dietrich, Greta Garbo, Gary Cooper, Clark Gable, Errol Flynn, Humphrey Bogart. Em 1935 é a vez do filme a cores, que chega a sua magnitude com a película de Victor Fleming "E o vento o levou" (1939). Mas já estamos no início da II Guerra Mundial: Walt Disney produz outra forma de cinema escapista com seus desenhos animados, que encantam especialmente o público juvenil, enquanto Hitchcock e Orson Welles (Cidadão Kane, 1941) se tornam os mestres do filme de suspense. Com o fim da guerra, a Itália, destruída pelos bombardeios aéreos dos Aliados e pelo terrorismo da retirada nazista, encontra na arte cinematográfica a melhor forma de representar aquele momento histórico: surge o cinema "neo-realista" italiano, feito com poucos recursos técnicos, mas com muita arte e humanidade, de grande sucesso mundial. Películas imortais são: Roma, cidade aberta (1945), de Rossellini; Ladrões de bicicletas (1946), de Vittorio De Sica; A terra treme (1947), de Visconti. Na década de 50, o avanço tecnológico e econômico dos norte-americanos se, de um lado, melhorou a produção fílmica com a invenção do Cinerama e do Cinemascope, de outro lado, apresentou um forte concorrente: a Televisão! Mas a diminuição do número de espectadores nas salas de cinema foi compensada pela produção de filmes feitos especificamente para serem projetados nos aparelhos televisivos. E o cinema, assim, penetrou dentro do lar de bilhões de cidadãos em todos os cantos do mundo. Aparecem novos mitos que contestam os padrões de comportamentos sociais convencionais, como Marlon Brando, James Dean, Marylin Monroe. Na década de 60, o cinema italiano retoma sua primazia com diretores de primeira linha que abordam problemas psicológicos e conflitos existenciais, aproximando o cinema da poesia: Antonioni, Pasolini, Bertolucci, Visconti, Fellini. A partir dos anos 80, o cinema foi "reinventado" pelo gênio de Steven Spielberg com seus filmes espetaculares, usando apurada tecnologia e criando surpreendentes "efeitos especiais". A película E.T, que trata da amizade de um extraterrestre com uma criança, se tornou um clássico do gênero. Outros cineastas também aderiram ao cinema-espetáculo, produzindo filmes em séries, imitando a técnica televisiva de contar uma história dividida em vários capítulos: Jornada nas Estrelas, em dez episódios; Guerra nas Estrelas, em cinco episódios; Tubarão, em quatro episódios; Sexta-Feira 13, em dez episódios; A Hora do Pesadelo, em sete episódios; o seriado de Harry Potter: Pedra Filosofal (2001), Sociedade do Anel (2001) e Câmara Secreta (2002). Todos os filmes desses seriados tiveram grande sucesso, mas o campeão de bilheteria, até agora, foi a película de James Cameron Titanic (1997), com as estrelas Leonardo de Caprio e Kate Winslet. Outros sucessos estrondosos foram Parque dos Dinossauros (1993), Independence Day (1996) e Homem-Aranha (2002). E o cinema continua cada vez mais vivo, pois explora algo que é substancial ao ser humano: o espírito da curiosidade. Como afirma Brian de Palma, outro diretor norte-americano de primeira linha,

"o cinema é uma arte de voyeurismo,
que espiona as pessoas que estão espiando quem está à sua volta".

Mais importante é observar que o cinema se tornou o meio mais utilizado atualmente para a divulgação do nosso patrimônio cultural. Grandes obras literárias são reestudadas e adaptadas ao mundo moderno para a realização de filmes de idéias. Citamos, apenas como exemplo, o recente filme Cold Montain (USA,2003) do diretor inglês Anthony Minghella, estrelado por Nicole Kidman, Jude Law e Renée Zellweger. Trata-se de uma versão cinematográfica de um romance do norte-americano Charles Frazier que, por sua vez, adapta o mito de Ulisses e Penélope ao mundo moderno: o jovem Inman é obrigado a deixar seu grande amor para se arrolar no exército sulista e lutar contra os ianques na sangrenta Guerra Civil americana para acabar com a escravidão dos negros. Durante os três anos de ausência, os dois jovens, a bela Ada, nas neves da montanha, e ele, no fogo da guerra, curtem o sentimento amoroso de um modo intenso, cada qual obedecendo a um voto íntimo e inconfessado de fidelidade, até o reencontro final. Enfim, a arte cinematográfica cria um mundo de imaginação e de sonho, que encanta o público espectador. Alfred Hitchcock, o grande mestre do suspense, põe em releve o poder ilusionista do cinema:

"Se eu filmasse Cinderela,
a platéia pensaria que deveria haver um cadáver na carruagem".

O cinema, por ser a forma de arte mais nova, aproveita de todo o passado cultural, estabelecendo relações não só com mito, literatura e teatro, mas também com a música e a dança. Suas trilhas sonoras utilizam músicas de árias de Ópera ou de canções populares. Os filmes "musicais" expressam ações e sentimentos pela linguagem do corpo e pelo ritmo de instrumentos sonoros. Neste tipo de arte tornaram-se famosos artistas como Fred Astaire, Ginger Rogers, Genne Kelly. Este último imortalizou a melodia Singing in the rain ("Cantando na chuva"→ Dança). O cineasta italiano Federico Fellini, em 1986, com o filme Ginger & Fred, dá nova vida ao teatro de variedades italiano, calcado no sapateado americano.