Dicionário de Cultura Básica/Adônis

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Dicionário de Cultura Básica por Salvatore D’ Onofrio
Adônis


ADÔNIS (o mito da sedução: Páris, Don Juan, Casanova, R.Valentino) → Narciso

Segunda a lenda mais antiga, que sofreu inúmeras variantes, Adônis nasceu de uma relação incestuosa entre o rei da Fenícia Cíniras e sua filha Mirra. A deusa Vênus se apaixonou pela beleza extraordinária do jovem, disputando seu amor com Prosérpina (Ceres → Terra), com quem Adônis passava um terço de cada ano (a estação da Primavera), conforme ordem de Júpiter. A paixão de Vênus pelo belo rapaz suscitou também o ciúme de seu amante Marte, deus da guerra, que, por vingança, induziu Adônis a cultivar a caça, sendo morto por um javali. De seu sangue nasceu a anêmona, flor efêmera da primavera. Um rio da Fenícia carrega seu nome, pois o sangue de Adônis teria colorido suas águas de areias vermelhas. O mito de Adônis perpassa a poesia, o teatro e as artes plásticas, ao longo de toda cultura ocidental, tendo como metáfora recorrente a imagem do broto que morre jovem para renascer em novas formas de beleza. Alguns títulos de obras inspiradas nesta lenda: Idílio XV e Epitáfio de Adônis (Teócrito); Metamorfoses (Ovídio); Égloga V (Virgílio); Adônis e Elegias (Ronsard); Adônis e Vênus (Lope de Vega); La Púrpura de la Rosa (Calderón); Adônis (Marino); Adônis (La Fontaine); Adônis e Vênus (Shakespeare); Endímion (Keats); Adonais: uma elegia sobre a morte de John Keats (Shelley); Tentação de Santo Antônio (Flaubert); O Martírio de São Sebastião (D’Annunzio).

Adônis, assim como Páris, Narciso, Dom Juan, Casanova, Rodolfo Valentino, passou a representar o protótipo do macho irresistível que povoa o imaginário feminino, da mesma forma que Vênus, Helena de Tróia, Cleópatra e outros mitos de mulheres sedutoras atiçam o desejo erótico dos homens. Ainda na mitologia greco-romana, a figura de Páris excede em beleza. Filho do rei de Tróia (→ Ilíada) e protegido por Vênus, a deusa do amor, está predestinado por seus encantos a conquistar o coração de Helena, a esposa do príncipe grego Menelau. A fuga dos dois amantes para Tróia causa a primeira grande guerra de que temos notícias na cultura ocidental e Páris, como Adônis, passa a configurar o ideal estético masculino: "parece um Adônis ou um Páris", diz-se de um belo jovem. Já o mito de Narciso simboliza a beleza masculina que se autocontempla.

Passando da Mitologia para a história, no séc. XVII, surge a figura de Don Juan, personagem construído no imaginário popular e artístico a partir de um fato real. Em 1630, sai publicada, na "Crônica de Sevilha", uma história de autoria de Tirso de Molina, intitulada El Burlador de Sevilha, que retoma um tema tratado numa obra anterior (1625) do mesmo autor, com o nome de O Convidado de Pedra. O protagonista é um belo jovem libertino, de nome Don Juan Tenório. O pai de uma moça por ele desonrada desafia o jovem sedutor para um duelo de espada. Dom Juan consegue vencer, mas a morte do chefe do regimento militar comoveu o povo, que erige uma estátua para lembrar o triste fato. Os monges do convento, onde estava enterrado o corpo do pai da moça, espalharam o rumor de que a estátua do comandante de Sevilha arrastara Don Juan, que viera insultá-lo em seu túmulo, para o Inferno. Segundo outra versão da lenda, Dom Juan, despudoradamente, desafiou a estátua para se mover e acompanha-lo numa festa. E ela compareceu e levou consigo o jovem para o outro mundo. A partir do texto de Molina, surgiram vária versões em diferentes artes. Na Comédia, temos o Don Juan, de Molière; na Poesia, é famoso o poema satírico de Lord Byron (→ Romantismo); na Ópera, temos o Don Giovanni (1787), de Mozart. No Cinema, a película Don Juan de Marco é considerada um clássico, consagrando a figura do herói, um jovem nobre e constantemente apaixonado-se por belas mulheres, vestindo capa, espada e uma máscara negra, que se vangloria de ter tido mais de mil amantes. E ao cinema pertence a perpetuação do mito do homem fatal. O ator que mais povoou o imaginário erótico feminino foi o italiano Rodolfo Valentino, de uma beleza ímpar, que morreu em Nova York, em 1926, com apenas 31 anos de vida e cinco de interpretação.

O mito de Don Juan oscila entre a construção de uma personalidade histérica, de um erotomaníaco compulsivo que sofre do complexo de Édipo, de um lado e, de outro lado, a representação de um jovem que sofre de um comovente romantismo eterno. Através das várias obras literárias, dramáticas e cinematográficas, o personagem Dom Juan passou de embusteiro e sedutor brutal a homem angustiado, em busca do absoluto. Em vista de que é impossível encontrar o amor ideal numa única mulher, o mito de Dom Juan apela para a ética da quantidade: os amores sempre variados ou renovados tornam a vida inesgotável. Mas tal amor é perigoso, podendo gerar a destruição e a morte. O Eros volta a se aproximar do Tânatos, retomando a antiga mitologia grega.

Mais de um século depois, surge outra figura de sedutor, desta vez italiano e com uma vida historicamente bem documentada. O novo representante da irresistível beleza masculina é o veneziano Giovanni Giacomo Casanova (1725–1798), que se tornou famoso após a publicação do seu livro História de minha vida (1789). Mulherengo incorrigível, apesar de padre, filho de uma dançarina e atriz, aperfeiçoou suas aptidões de sedutor durante as festas carnavalescas de Veneza que, nessa ocasião, se tornava uma cidade cosmopolita. Suas aventuras amorosas nas cortes italianas, francesas e de outros países europeus, por onde viveu viajando, encontram-se registradas na sua obra publicada em Paris.