Ecos da minh'alma/Minha estrela

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Minha estrela
por Adélia Fonseca
Poema publicado em Ecos da minh'alma.


Eu a vi, mas passando apressada,
Qual meteóro brilhante a luzir;
Eu a vi, e estampada em minh′alma
Se ficou para emquanto existir.
               A. F. Colim.

Eras tu, eras tu, qu'eu sonhava,
               A. Herculano.



Houve um tempo em qu’eu buscava,
No firmamento estrellado
A estrella, á que ligado
Meu destino Deus pozéra;
Mas logo as vistas baixava,
Desanimada, abatida;
Que o astro da minha vida
Luzir não via na esphéra.

Meu pobre coração louco
Em vão tentava animar-me,
E nova esperança dar-me,
Que não podia durar;
Sim em vão; que dentro em pouco
Os quadros, que a phantasia,
Risonhos, pintado havia,
Vinha o pranto desbotar.

Assim via ir-se escoando
O meu viver ′n este mundo,
E com desgosto profundo
Irem-se as noites no céu...
Essas noites que, passando,
Uma após outra, arrancavam
As esp′ranças, que brotavam
No puro coração meu.

Mas elle, sempre teimoso,
Co′a maior perseverança
Plantava nova esperança,
Pensando colher-lhe a flôr!
Não sabia o desditoso
Que ás sévas leis da má sorte —

Da terra o poder mais forte
Não ousa obstaculos pôr!

Em vão pretendia a mente
Ao meu doudo coração
Os conselhos da razão
Fazer attento escutar;
Em vão dizia ao imprudente
Que teima tão prolongada,
′N esta vida limitada,
Era insano delirar.

A nada ouvidos prestava,
E, na mais louca porfia,
Logo que a noite estendia
Sobre a terra o immenso véu,
Ancioso elle procurava
Ver o seu astro radiante
Entre o cortejo brilhante,
Que passeiava no céu.

E ia assim consumindo
′N esse cansado desejo,

Triste, mesquinho sobejo
De vida tão gasta já;
De vida que, á luz eu vindo,
′N este oceano de dores,
′N um de seus impios rigores
Fadára-me a sorte má.

Mas um dia em que assomando,
Tinha a noite desdobrado,
Nitido manto esmaltado
Todo d′estrelaas mimosas,
A minha não divisando
Entre o concilio luzido,
Que do meu paiz querido
As noites faz tão formosas,

«É impossivel — dizia —
«Que Deus se lembre de mim,
«E minh′alma deixe assim
«Curtir tamanho pezar!
«Deus, que as dôres allivia
«Com seu influxo divino,
«Porque, vendo o meu destino,
«Não quer a minha abrandar?

«Todos teem a sua estrella
«Mais formosa, ou menos bella;
«Podem conversar com ella,
«E admirar-lhe o fulgor;
«Mas a minha onde está?.. onde?...
«Porque me foge e s′esconde?...
«Porque meiga não responde
«Ao meu reclamo de amor?

«Deixa, meu Deus, qu′eu a veja,
«Inda que um instante seja,
«E que tão risonha esteja,
«Qual tenho-a visto a sonhar;
«Que possa, de hoje em diante,
«A lembrança d′esse instante,
«′N um dôce enlevo constante;
«A minha vida aditar.

«Ah! Senhor! tem piedade,
«Por tua summa bondade,
«D′esta cruel anciedade,
«Que me tortura o viver!
«Si te move meu tormento,
«Deixa, se-quer um momento,

«Que eu possa no firmamento
«Minha estrella amada ver!»

Depois triste, desolada,
Amargo pranto vertia,
Que, mais que a vóz, exprimia
Minha aguda, intensa dôr...
E essa pena exacerbada
Vendo lá do santo Empyreo,
Deus ao meu longo martyrio
Quiz piedoso termo pôr.






Sim — o pranto caudal, que dos olhos
Pela angustia brotava arrancado,
Conseguiu que o Senhor derogasse
Os decretos crueis de meu fado.

Atravéz da torrente de lagrimas,
Que turvava o cansado olhar meu,
Vi, mais linda que as outras estrellas,
Minha estrella luzindo no céu.

Eu a vi como a tinha sonhado,
Como a tinha pedido ao Senhor,
Um composto de mimo e doçura,
Um esmero intenso de amor.

Um instante somente durára
Tão suave, tão grata visão...
Apagou-se, bem como se apaga
Do relampago o breve clarão!

Mas qu′importa que Deus a deixasse
Um instante somente luzir,
Si eu a vi, e estampada em minh′alma
Me ficou para enquanto existir?

Que m′importa, que os olhos do corpo
Não n-a possam no céu avistar,
Si co′os olhos d'est'alma eu a vejo
Dentro em meu coração fulgurar ?

Sím — qu′importa, si eu sei qu′ella existe
Si eu a vi me sorrir com ternura?
Si da nuvem opáca, que a cobre,
Minha mente atravessa a espessura,

E a vê, qual eu tinha sonhado,
Qual eu tinha pedido ao Senhor,
Um composto de graça e doçura,
Um esmero mimoso de amor?!...

Sou feliz, porque guardo a lembrança
De seu meigo, encantado sorrir,
Que me deixa zombar d′essa nuvem,
Que a meus olhos a quer encobrir!


7 de Fevereiro de 1852.