Encarnação (José de Alencar)/III

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Encarnação por José de Alencar
Capítulo III

Aquela casa de São Clemente foi para os noivos o ninho do amor e da felicidade; mas o ninho perene, sem estações, sem primavera, sem lua-de-mel.

Essa ardente efusão de duas existências durava desde o primeiro instante, não tinha lapsos nem desmaios. Hermano aproximava-se dos trinta anos, e vivera muito nesse tempo. Julieta aos vinte anos não conhecia o mundo; e seu coração virgem era um manancial de ternura.

Que diálogo inefável entre aquela inteligência pródiga e essa inocência ávida de saber, rica de afeto?

O passado de Hermano, desde a primeira infância até o casamento, Julieta queria vivê-lo, dia por dia, hora por hora, se fosse possível, para amar seu marido em cada um desses momentos anteriores a ela. O presente não lhe bastava. nem o futuro. Carecia de remontar-se à origem dessa existência que lhe pertencia, para soldá-la ainda mais intimamente a si, de modo que não lhe fosse possível marcar a época de sua união. Então o casamento teria sido apenas a consagração social do vínculo de duas almas gêmeas Por seu lado Hermano sentia também a necessidade de vazar no coração ingênuo e casto da esposa, como em um crisol, os seus pensamentos, as idéias de que a sociedade o imbuíra; e assim apurar sua consciência naquela chama celeste.

Sua individualidade, escoimando-se da liga mundana, apagando os traços de uma mocidade fácil, identificava-se de mais em mais com o espírito puro e imaculado da moça; e embebia-se nele como o raio do sol que se infunde na seiva da árvore e gera a flor.

Hermano e sua mulher freqüentavam a sociedade onde os chamavam suas relações. Iam, porém, aos divertimentos unicamente para se desobrigarem de um dever de cortesia e posição; ou talvez para certificarem-se de que nada faltava à sua felicidade.

Depois de uma ou duas horas passadas no teatro ou nos salões, recolhiam-se pressurosos à sua casa e ao seu amor.

Duas vezes por mês reuniam as famílias de sua amizade. Essas longas noites, em que se deviam a seus convidados, eram uma ausência, uma separação para eles. Tinham o mundo entre si. Que saudades não sentiam um do outro nesses momentos; e com que anelos encontravam-se de novo na sua querida solidão?

Amália era então uma criança de nove anos. No dia do casamento tinha vindo do colégio passar o domingo com a família. À noite vira a chácara vizinha iluminada e os noivos que chegavam com grande acompanhamento de carros.

Reparando na elegância e garbo do par que subia as escadas de pedra alcatifadas de fino tapete, a menina pensou no dia de seu casamento; e desejou que seu noivo fosse tão lindo como aquele. Nos outros domingos que passava em casa, quando chegava à janela, via os noivos sempre juntos passeando no jardim, ou sentados em um banco à sombra dos bambus.

Um dia ardeu-lhe a curiosidade de espiar os aposentos da noiva. O fundo da chácara dava para a montanha; e o declive fora cortado em socalco com terraços que se sucediam em degraus. De uma dessas elevações dominava-se a casa vizinha, especialmente a asa do edifício, que ficava fronteira, a duas braças apenas de distância.

Foi daí que Amália, aproveitando uma ocasião em que as janelas estavam abertas, viu o quarto de dormir e o toucador da noiva, ambos preparados com luxo e primor.

No toucador, sentada junto a uma mesa de charão, Julieta procurava numa caixinha de jóias uns botões para os seus punhos de cambraia. O mando entrou. Em pé, por detrás da cadeira, colheu nas mãos o rosto da moça e cobriu-o de beijos.

A travessa que os espiava disparou a rir. Julieta corou e quis afastar-se; porém, Hermano a reteve e beijou-a de novo tranqüilamente, como para afrontar a malícia da menina com a castidade de sua carícia. Pouco tempo depois desta cena, o Sr. Veiga mudou-se para o Andaraí, por causa da perda de sua sogra, e alugou a casa de São Clemente, para onde D. Felícia não quis voltar depois do golpe que ali sofrera. A existência dos dois noivos continuou sem alteração; sua felicidade tornou-se com o tempo mais serena e por isso mesmo mais intensa.

Afinal apareceu uma ligeira nuvem naquele céu aberto. Estavam casados havia mais de três anos, e não tinham filho. Começaram a sentir essa falta; era o primeiro desejo não satisfeito.

Engolfados no misticismo do amor, tão grato às imaginações vivas, eles consolavam-se com uma teoria psicológica um tanto abstrata, mas original e encantadora. Hermano dissera uma vez à mulher:

-- Um filho é uma porção de nós que se destaca para formar outro eu. Nós, Julieta, nos queremos tão exclusivamente, e nos possuímos com tanta ânsia, que nenhum quer perder do outro a menor parcela, ainda mesmo reproduzir o nosso ser.

A mulher aplaudia esta explicação, que ela primeiro balbuciara sem poder exprimi-la; e o egoísmo cheio de enlevos desse amor inexaurível substituía para o feliz casal o outro penhor que a sorte lhes negara. Todo esse encanto, a asa negra do infortúnio o apagou em um momento. Hermano perdeu a mulher; e a perdeu justamente quando sua união ia ser abençoada com um filho.

Um aborto levou Julieta. Suas últimas palavras ao marido foram estas que ela proferiu antes de perder o conhecimento:

-- Minha alma não podia separar-se da tua, Hermano.

Desde esse momento o marido caiu em um letargo profundo, que o conservou alheio ao que se passava. Esse estado que se assemelhava à idiotia durou por muito tempo. O Dr. Teixeira, amigo de infância de Hermano, partindo para a Europa a fim de praticar nos hospitais de Paris, levou consigo o infeliz viúvo, na esperança de que a viagem o arrancasse àquela estupefação em que o deixara a perda da mulher.

Antes de seis meses Hermano voltou da Europa com Abreu que o acompanhara; e foi morar na casa de São Clemente, onde tornou-se o homem que era, quando o encontramos cinco anos mais tarde.

Dias depois de sua chegada deu-se um incidente que não escapou à curiosidade dos ociosos da vizinhança. Pararam no portão duas carroças conduzindo caixotes de tamanho descomunal. O que, porém, mais intrigou os espíritos foi a circunstância de arrombar-se uma parede para introduzir-se os volumes no interior da casa.

Em cada bairro há um ou mais parlatórios, que são uns moinhos onde se tritura a matéria-prima para o fabrico da opinião pública. Outrora era especialidade das boticas; hoje serve uma loja qualquer. Para aí, para esses pontos, afluem todos os mexericos que os escravos levam às tabernas, e todos os boatos e murmurações que os noveleiros se incumbem de propagar.

Muito se falou dos tais enormes caixões. Na opinião de alguns tinham eles desembarcado na Copacabana e entrado por contrabando na cidade. Outros, admitindo o contrabando, afirmavam que passara pela própria alfândega. Finalmente, choviam as suposições acerca do arrombamento da parede e da carga misteriosa que se ocultara até dos criados da casa, com exceção do velho Abreu.

O Sr. Veiga voltou a ocupar sua antiga casa. Amália teve muitas ocasiões de ver na alameda da chácara contígua passar o vulto, ainda elegante, mas grave de Hermano.

Não lhe causava, porém, o aspecto daquele homem a menor impressão A moça, se guardara as recordações da menina, não as tinha presentes ao espírito. Olhando a casa outrora tão brilhante e admirada por ela, revendo o feliz noivo agora solitário e abatido, nem sequer notava a diferença dos primeiros tempos.

Sua alegria ainda era um esplendor sem crepúsculos.