Encarnação (José de Alencar)/IV

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Encarnação por José de Alencar
Capítulo IV

Era noite de partida em casa do Sr. Veiga.

Amália ainda não tinha perdido a sua jovialidade, e continuava a ser uma das mais gentis princesas da moda.

Nesse dia vestira-se mais cedo para ensaiar com uma amiga o dueto que tinham de cantar logo mais. Deixava ela o piano, quando entraram na sala ainda erma duas pessoas. Uma, o Sr. Borges, era íntimo da casa e aparentado com a família. A outra, que Amália não conhecia, foi-lhe apresentada em termos de anúncio:

—O Dr. Henrique Teixeira, médico muito distinto, ultimamente chegado da Europa; urna notabilidade oftalmológica.

Borges encontrara o companheiro no portão de Hermano:

—Por aqui, doutor?

— Vim jantar com um amigo, e estou à espera de meu tílburi, que mandei voltar às sete horas. Receio que o cocheiro me logre.

— Ah! é amigo do Sr. Hermano?

— Amigo de infância.

Borges convidou o doutor para a partida do parente; e tais e tão repetidas foram as instâncias, que o outro acedeu por fim.

Diversos motivos influíram para aquele convite reiterado. Além do desejo de obsequiar o médico e de arranjar mais um cavalheiro para a dança, Borges fora movido sobretudo pela curiosidade de saber particularidades acerca do excêntrico viúvo.

Depois dos cumprimentos e de algumas ligeiras observações relativas à Europa, Borges dirigiu a conversa para o assunto que mais lhe interessava.

— É verdade que o Hermano está sofrendo da cabeça, doutor?

— Não é exato! acudiu Henrique Teixeira com vivacidade. Tem a razão tão firme e tão lúcida como nunca; e o senhor deve saber que ele mostrou sempre muito tino e bom senso. A prova é que deixando-lhe o pai a livre disposição de sua fortuna, quando não tinha mais de dezessete anos, não só a conservou, como soube aumentá-la, apesar de sua vida elegante.

— Sei perfeitamente; mas tinham-me dito que ele não regula desde que ficou viúvo.

— Com efeito, Carlos sofreu um abalo terrível com esse golpe. A morte de D. Julieta, que ele ainda não esqueceu, nem esquecerá, causou-!he uma espécie de paralisia moral. Durante dois meses não pronunciou uma palavra; vivia mecanicamente; era um autômato movido por um velho criado, o Abreu, cuja dedicação por ele é a de um pai extremoso. —Tenho visto este criado; se não me engano é quem governa a casa.

—Estava eu resolvido a passar algum tempo em Paris para dedicar-me aos estudos de minha profissão.

Apressei a partida para levar Carlos comigo e distraí-lo. Nem a viagem, nem o turbilhão da vida parisiense produziram o resultado que eu esperei. Continuava indiferente a tudo; nada o interessava; nada prendia-lhe a atenção.

—Então, doutor, sempre houve alguma coisa?

— Sem dúvida, mas não demência. O estado de Carlos era simplesmente uma insensibilidade moral: um desprendimento do mundo, que o tornava impassível ao movimento social. Vivia em si e de si, das recordações que enchiam sua alma. Nunca, porém, eu notei no seu espírito a menor vacilação, e muito menos um desvario. Quanto aos estranhos, viam nele um homem frio, concentrado, de poucas falas, mas de juízo seguro e talento refletido.

— O senhor defende seu amigo com tanto calor que me faz desconfiar da justiça da causa, doutor, disse Amália a sorrir.

— A crítica é espirituosa, minha senhora, e eu já a tinha lido em seus lábios antes que eles a proferissem. Mas eu quero a este amigo como a um irmão; e dói-me profundamente essa suspeita de loucura, que alguns malévolos se incumbiram de espalhar. Felizmente Carlos restabeleceu-se; aquela impassibilidade que me assustava dissipou-se como por encanto.

— Em Paris? perguntou Borges com ar de dúvida, apenas de leve dissimulado pela cortesia.

— Em Paris, numa visita que fizemos ao Louvre. Carlos sempre teve gosto e inclinação para as artes; lembrei-me um dia de mostrar-lhe o museu de pintura e escultura. Deixei-o um instante para falar a alguém que encontrara na sala; quando o procurei fui achá-lo diante de um quadro, creio que a Ester ou a Suzana do Veronese. Voltou-se; já não era o homem absorto e sombrio que ali entrara: tinha no semblante e em toda a sua pessoa a expressão afável dos mais belos dias de sua vida. Vi em seu olhar uma interrogação e pensando que ela se referia à tela, improvisei admiração, que não sentia, pois, surpreso e contente daquela transfiguração, eu nenhuma atenção prestava ao quadro. Não obstante prodigalizei elogios ao desenho, ao colorido, à criação do grande pintor. —Não; não é isto!... disse-me ele. Mas tu não podes compreender a beleza que este quadro tem para mim?. Eu percebi que ele achara nessa imagem uma reminiscência de sua Julieta.

— Ora, descobriu-se afinal a fênix dos maridos! exclamou Amália com uma risada expansiva dirigindo-se à amiga. Nenhum poeta até hoje, que eu saiba, animou-se a inventar um Penélope masculino. Estava reservada esta glória ao Dr. Teixeira.

— Antes de mim um poeta, e dos mais ilustres, criou esse no Frei Luís de Sousa, que a senhora talvez não conheça, porque é escrito em nossa língua.

—Até o vi representar, o que deve parecer-lhe ainda mais admirável, depois que os senhores fizeram do Rio de Janeiro um pequeno Paris de bulevar. Mas esse marido que voltou ao cabo de vinte anos de exílio foi o amor da mulher que o trouxe, ou a lembrança da pátria, a saudade de seu velho Portugal?

— Não se lembra de seu desespero por encontrar a mulher unida a outro? É uma das cenas mais tocantes.

— Esse amor caduco e de cabelos brancos, pois tinha mais de vinte anos...

— Como o de Penélope, acrescentou Teixeira em nota.

— Esse fóssil conjugal é um monstro ideado por Garrett para complicar a situação das duas metades, que o aparecimento do primeiro marido veio separar. O drama está nessa separação, realmente incômoda, para quem não gosta de sair de seus hábitos. Assim o romeiro, bem longe de ser o herói, não passa de um pretexto, de um incidente, de um motivo. Faz aí o mesmo oficio de pai cruel, que não deixa a filha casar-se democraticamente com qualquer cidadão da rua.

A chegada de uma senhora a quem Amália foi receber, cortou a réplica do doutor, que ria da malícia da moça.

— Mas então o Hermano desde aquela visita do Louvre restabeleceu-se? perguntou o Borges, que via a conversa apartar-se do tema.

— Completamente. Daí em diante foi outro, ou antes, foi o mesmo homem que todos conheceram na época de seu casamento. Aquele painel tinha operado nele uma verdadeira ressurreição.

Amália, que tomara o seu lugar, interrompeu de novo o médico para insinuar uma observação maliciosa. — Foi o painel, ou alguma estátua?

— Nós estávamos na sala de pinturas, minha senhora.

— Pergunto se não seria alguma estátua viva que operou o milagre da ressurreição. Alguma Madalena que passava?

— Não o conhece!

— Ou talvez o seu amigo seja como certos escultores que compõem a sua estátua, tirando de cada modelo as belezas que ele possui e combinando-as entre si. O Doutor Henrique Teixeira fitou a moça com alguma surpresa. A candura do sorriso que brincava nos lábios faceiros convenceu-o de que Amália não compreendia o alcance das palavras que proferia. O médico chegava da Europa, onde se tinha demorado quatro anos; e não sabia que a invasão do romance realista que nos vem de Paris, tem posto em moda certa gíria de cafés e bastidores, que algumas senhoras vão repetindo como linguagem de bom-tom sem consciência das enormidades que às vezes escondem tais ditos espirituosos.

O Dr. Teixeira deixou passar a observação da Amália; e, para não acentuá-la com uma pausa, continuou a referir a Borges o episódio da viagem de Hermano.

— Pode acreditar no que lhe digo. Carlos não tem o menor sintoma de perturbação mental. Nesse mesmo dia da nossa visita ao Louvre emancipou-se da minha solicitude e viveu sobre si. Depois que voltou ao Rio de Janeiro entretivemos uma correspondência seguida; e nas suas cartas respirava certo contentamento íntimo e sereno, que eu vim encontrar na sua vida habitual.

— Então é feliz o seu amigo? perguntou Amália.

— Acredito que sim.

— E o senhor afirmou que ele não tinha esquecido a mulher e nem a esqueceria nunca?

— Afirmei, e posso prová-lo, acudiu Henrique Teixeira picado pelo remoque da moça.

— Há de ser difícil.

— Promete-me guardar reserva sobre o que lhe contar?

— Mais do que reserva. Prometo-lhe não acreditar nem uma palavra do seu romance, o que não me impedirá de aplaudi-lo, se for interessante como espero. Nesse momento a sala enchia-se de convidados; e o piano dava o aviso da primeira quadrilha.

Amália, tomando o braço de seu par, separou-se do doutor com esta palavra, confeita em um sorriso:

— Depois.