Estátua Falsa

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Estátua Falsa
por Mário de Sá-Carneiro
Poema publicado em Dispersão (1913).


Só de ouro falso meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh'alma desceu pesadamente.

Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como Ontem, para mim, Hoje é distância.

Já não estremêço em face do segrêdo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sôbre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de mêdo!

Sou estrêla ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar...


Paris 1913 - maio 5.