Fabulas de Esopo/Juno e o Pavão

Wikisource, a biblioteca livre
< Fabulas de Esopo
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
Juno e o Pavão


FABULA XVI.


Juno e o Pavão.


Veio o Pavão a Juno muito queixoso, dizendo por que razão o Rouxinol havia de cantar melhor que elle, e ter-lhe outras muitas vantagens? Disse Juno que não se agastasse; que por isso tinha elle as pennas formosas, cheias de olhos, que parecião estrellas. Isso he vento, replicou o Pavão, mais tomara saber cantar. Juno respondeo: Não podes ter tudo. O Rouxinol tem voz, a Aguia força, o Gavião ligeireza, tu contenta-te com tua formosura.

MORALIDADE.


Prova-se nesta Fabula o que fica dito no principio da vida de Esopo; que nenhum ha desamparado de natureza e sem graça particular; que Deos, author da mesma natureza, creou os homens, e repartio por elles seus dotes. Huns faz valentes e outros ligeiros; hum he bom pintor, outro musico déstro, outro tem seu dote no entendimento. Ensina logo esta Fabula que ninguem se ensoberbeça da graça particular de que he dotado, nem tenha inveja das boas obras dos proximos, antes com tudo e por tudo dê louvores a seu Deos e Creador.