Fabulas de Esopo/O Lobo e o Grou

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Lobo e o Grou


FABULA XVII.


O Lobo e o Grou.


Comendo o Lobo carne, atravessouse-lhe hum osso na garganta, que o affogava. Estando nesta affronta, pedio ao Grou que lhe valesse nella, e com seu pescoço comprido lhe tirasse do papo o osso. Fêlo o Grou, tirou-lhe o osso, e estando livre o Lobo, pedio-lhe alguma parte do muito, que antes se offerecia a lhe dar. Porém o Lobo lhe respondeo. Oh ingrato! Não me agradeces que te tivesse mettida a cabeça dentro na minha boca, e que podera apertar os dentes e matar-te. Não me peças paga; que obrigado me ficas, e assaz es de ingrato em não reconheceres tão grande beneficio. Callou-se o Grou, e foi muito arrependido do que fizera, dizendo: Nunca mais por gente ruim metterei a cabeça e vida em semelhante perigo.


MORALIDADE.


Beneficios feitos a gente perdida são perdidos, e podem contar-se por maleficios, quando puramente não se fazem por amor de Deos, que todos os bens tem cuidado de pagar. Homem desagradecido, quanto fazeis por elle tudo perdeis: e ás vezes com palavras vos carrega, mostrando que vós sois o devedor, como este nosso Lobo fazia.