Fabulas de Esopo/O Boi e o Veado

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Fabulas de Esopo por Esopo, traduzido por Manuel Mendes da Vidigueira
O Boi e o Veado


FABULA LXIII.


O Boi e o Veado.

Por fugir o Veado de hum caçador, se acolheo á Villa, e entrando medroso em huma estrebaria, achou o Boi, a quem perguntou se podia esconder-se alli. Disse o Boi que era muito certo o morrer, e que antes devera tornar-se ao mato, e com tudo o escondeo, e o cobrio de palha. Veio o dono da estrebaria, e olhando por ella, vio as pontas do Veado. Foi descobrilo, e achou o que era. Mas disse-lhe: Já que de tua vontade vieste á minha casa, não te quero matar, senão defender, e fazer muitos mimos.

MORALIDADE.


Muitos de mofinos, por fugirem da sertã, cahem nas brazas: mas ha alguns ditosos, como este Veado; e ditoso he quem sendo perseguido, acerta de se acolher a casa de Fidalgo, que o não seja só no nome; porque o tal, ainda que por outra parte deseja beber o sangue daquelle, que se vale de sua casa, obrigado do seu pundonor o salva e favorece, deixando odios de parte por guardar pontos de honra.